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E as eleições americanas?

O dia três de março deste ano, uma terça-feira, foi especialmente importante para uma parcela dos americanos. Muitos deles saíram de suas casas para debater, votar e, dessa forma, delegar a um representante do partido democrata americano a confiança para derrotar Donald Trump, candidato à reeleição pelo partido republicano – e atual presidente dos EUA.

Antes da Super Terça, havia muitas dúvidas sobre quem seria o concorrente à Casa Branca pelos Democratas. Nomes pouco ortodoxos, como Bernie Sanders, Pete Buttigieg e Elizabeth Warren, estavam em alta. Após a data, porém, deu a lógica (lógica muito bem fundamentada pelo conceito de “gatekeepers partidários” explorado no livro Como as Democracias Morrem – indico a leitura): Joe Biden sobressaiu-se nos pleitos preliminares e pavimentou seu caminho, sendo assim a cara do partido em 2020.

No começo de março, a Covid-19 era um grande problema na China e começava a assolar a Europa. Os americanos (e nós também, por aqui) ainda não tinham dimensão da proporção que o vírus tomaria. Muita coisa mudou de lá para cá.

Dentro do partido democrata, o desempenho surpreendente do ex-vice de Obama fez com que outros pré-candidatos largassem a corrida das primárias e o apoiassem: foi o caso de Michael Bloomberg, Buttigieg, Andrew Yang, entre outros. No início de abril, o último concorrente de Biden, o democrata Bernie Sanders, aceitou o que era inevitável: não haveria mais como vencer as primárias.

As mudanças, contudo, não ficaram restritas ao partido democrata. Pelo contrário, a forte disseminação do vírus pelos EUA, as implicações econômicas de uma paralisação brusca das atividades e a quarentena mudaram o comportamento – e rotina – de grande parte dos americanos. Nesse sentido, todos os desdobramentos envolvendo a pandemia – o bolso dos americanos, as mortes, as declarações do presidente, as ações de combate ao vírus etc. – recaíram (e ainda recaem) diretamente sobre Trump e sua missão de ficar mais quatro anos na cadeira presidencial. Aliás, nada mais natural: como mostra esta reportagem, o poder de resposta de líderes globais teve importante influência nas avaliações de seus respectivos governos.

Inclusive, a definição de um candidato pelos democratas veio em boa hora. Se as primárias da legenda continuassem acirradas em meio à pandemia, a situação poderia ficar ainda mais delicada. Com o nome de Biden consolidado, os níveis de participação nos pleitos estaduais caíram substancialmente. Agora, o foco é a própria eleição, marcada para o dia 3 de novembro. Mesmo que estejamos distantes da data, é bem provável que o coronavírus ainda seja um impeditivo.

É comum que seções eleitorais envolvam aglomerações e filas. A possibilidade de se votar pelo correio existe, mas normalmente é restrita aos eleitores que não se encontram em seus domicílios eleitorais no dia da eleição. Para as primárias, alguns estados decidiram tornar regra o voto por correspondência. Para as eleições, republicanos e democratas vêm debatendo calorosamente, mas não parecem chegar a um consenso sobre como o pleito deve ocorrer. Os republicanos são historicamente contra o voto por correspondência; os democratas temem que a obrigação de votação física acarrete altos índices de abstenção – favorecendo a reeleição de Trump. Com certeza, essa é uma questão delicadíssima, apesar de este estudo recente da Stanford University indicar que o voto por correspondência não favorece nenhum dos partidos. Há de se pensar, ainda, no caso de uma eventual eleição pelos correios, na logística de recolhimento e apuração de votos.

Somados à condição extraordinária pela qual o mundo vem passando em 2020, os protestos antirracistas – após a morte de George Floyd, americano negro, por um policial no estado de Minnesota – ao redor dos EUA tornam o cenário eleitoral ainda mais volátil. Novamente, a reação da população e as respostas de Trump ao caso têm poder de influenciar a votação.

Se as eleições americanas fossem hoje, eu não hesitaria em apostar uma boa quantia de dinheiro na vitória de Joe Biden. Contudo, faltam cerca de 5 meses para os americanos irem (ou não) às urnas – e não é como se estivéssemos em condições normais de temperatura e pressão. Ambos os candidatos pretendem retomar, lentamente, suas campanhas nas próximas semanas.

No próximo sábado, trago mais detalhes sobre a questão dos protestos, os impactos sobre os dois candidatos, a atual conjuntura de intenções de voto e Wall Street frente a tudo isso. Se você estava se perguntando “e as eleições americanas?”, não se preocupe: elas ainda prometem muita emoção.

Um abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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