Política sem Aspas

Biden se torna favorito

No último fim de semana, trouxe uma análise sobre a importância da Super Terça para a definição do candidato democrata que irá enfrentar Trump em novembro deste ano. Nela, destaquei três pontos fundamentais para o desdobramento das votações nos 15 estados (na verdade, 14 estados e a Samoa Americana).

Eram eles: a) a necessidade de Biden conquistar uma vitória substancial na Carolina do Sul no último sábado (29) para continuar na corrida; b) a eventual desistência de outros candidatos da ala moderada antes ou após a Super Terça, afunilando a disputa; e c) a dificuldade de Sanders em superar o establishment do Partido Democrata, diferentemente do caso de Trump em 2016.

De maneira muito bem orquestrada, o candidato Joe Biden conseguiu capitalizar os três pontos acima para virar o jogo para cima de Bernie Sanders, então favorito na corrida presidencial. Considerado politicamente morto por alguns analistas logo no início das primárias, Biden deu a volta por cima – o que lhe conferiu o apelido de “Comeback Kid“, ou mesmo “Comeback Joe“.

Primeiro, porque o ex-vice de Obama surpreendeu ao vencer por praticamente 30% a mais as primárias do estado da Carolina do Sul. Biden teve 48,4% dos votos (o equivalente a 35 delegados), enquanto Sanders reuniu apenas 19,9% (conquistando apenas 13). Buttigieg, Warren e Klobuchar mal conseguiram alcançar a marca mínima de 15% dos votos para ganhar algum delegado.

Em segundo lugar, porque o resultado na Carolina do Sul levou o prefeito Pete Buttigieg e a senadora Amy Klobuchar à desistência (e posterior apoio a Biden), ambos da ala moderada. Após esperanças de ambos os candidatos com resultados acima do esperado nos primeiros estados das primárias, tanto “Mayor Pete” quanto Klobuchar perceberam que não dispunham de fôlego para, eventualmente, desbancar o candidato da esquerda do partido, Bernie Sanders.

Ao sair da corrida, os dois moderados abriram espaço para que Joe tomasse a liderança desta ala específica do partido, muito preocupada com um desfecho desastroso caso Sanders fosse eleito como o candidato democrata para a Presidência. Certamente, o próprio ex-vice presidente deve ter pessoalmente buscado o apoio dos outros dois concorrentes, mas o fato é que o respaldo dessas figuras foi essencial para impulsionar Biden na votação da Super Terça.

Ao longo da manhã de quarta-feira, dia seguinte à Super Terça, pôde ficar claro como foi importante a articulação de Biden para a data que escolhe cerca de um terço dos delegados que irão para a convenção nacional democrata. Apesar de a apuração não ter acabado (e ainda não acabou – na Califórnia, por exemplo, ela dura semanas), os moderados novamente puderam comemorar uma ampla vitória sobre a ala à esquerda do partido. Dos catorze estados, Biden levou dez e Sanders apenas quatro. Na tabela abaixo, elaborada pelo site Politico, é possível constatar a votação popular em cada estado da Super Terça.

Apesar de Sanders ter confirmado seu favoritismo em Vermont, Colorado, Utah e ter vencido o maior colégio eleitoral (Califórnia), ele perdeu para Biden nos dois estados em que tinha mais chances de sair vencedor: Minnesota e Massachusetts. Os outros estados do Sul já eram virtualmente do ex-vice de Obama. No Texas, segundo maior colégio, não havia favorito. Então, acabou ficando, por margem apertada – assim como Maine –, com Biden. Segundo a Bloomberg (e faltando ainda cerca de 160 delegados da Super Terça para serem alocados, uma vez que estados como Utah, Colorado e Califórnia ainda não finalizaram a contagem total dos votos), Biden conta atualmente com 643 delegados, enquanto Sanders tem 566. Lembrando, sempre, que um candidato leva a indicação se conseguir a maioria absoluta de votos dos delegados – nominalmente, 1.991 votos.

O terceiro motivo pelo qual Biden virou o jogo e agora se posta como favorito a vencer as primárias do Partido Democrata está justamente na conclusão do meu artigo da semana passada. Como disse, a democracia americana quase nunca deu voz a candidatos pouco moderados. Então, seria estranho que, a exemplo do que ocorreu no Partido Republicano com Trump, os democratas deixassem o caminho facilitado para Sanders. Existiu um claro movimento – traduzido em apoios de congressistas e candidatos em um momento crucial das primárias – do establishment do partido para promover Biden. Afinal, ele seria o “menos arriscado”.

Com a nova conjuntura, o site de projeções FiveThirtyEight coloca Joe como franco favorito. Após a Super Terça, inclusive, Bloomberg – um possível concorrente – desistiu da corrida e o apoiou, enquanto a senadora Elizabeth Warren, da ala da esquerda, também desistiu, mas ainda não apoiou ninguém. Ultimamente, só más notícias têm atingido Bernie Sanders. O momento agora é do Comeback Joe; quem deve reagir rapidamente, se ainda pretende lutar em igualdade, é o senador de Vermont.

Neste momento, quem não gostaria de mudar as coisas um centímetro de lugar é Wall Street. Um embate presidencial entre Biden e Trump é praticamente uma garantia de que não haverá grandes mudanças no modus operandi da economia americana e, principalmente, na relação de Washington com o mercado financeiro. Os investidores agradecem.

Um grande abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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