Focus mostra volatilidade com expectativa da Selic

Mercados com Rafael Bevilacqua
A penúltima edição do Relatório Focus de 2025 mostrou uma forte volatilidade nas expectativas de juros para 2026. No relatório desta segunda-feira (23) a projeção da taxa Selic para dezembro de 2026 subiu para 12,25 por cento ao ano. Na edição anterior, publicada no dia 15 de dezembro, a projeção era de 12,13 por cento. Há quatro semanas, a projeção era de 12 por cento. Mas há cinco semanas, a estimativa era de 12,25 por cento.

Se você se perdeu com esses números, eu resumo: a Selic esperada para o fim de 2026 caiu e voltou para onde estivera antes, tudo em poucas semanas, mostrando uma volatilidade inédita das expectativas para os juros neste fim de 2025.

A melhor definição de volatilidade é a ausência de consenso entre os investidores sobre o preço “correto” de um ativo (aspas necessárias). No caso da Selic, a volatilidade explica-se pela incerteza em relação à atuação do Banco Central (BC). O Comunicado e a Ata da reunião de dezembro do Comitê de Política Monetária (Copom) foram mais duras do que os investidores esperavam.

Os membros do Copom disseram estar satisfeitos com a condução da política monetária. O parágrafo 14 indicou que “a estratégia em curso, de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado, é adequada para assegurar a convergência da inflação à meta” e que “o Comitê avalia que a condução cautelosa da política monetária tem contribuído para se observar ganhos desinflacionários”.

Apesar do tom positivo, na seção C, Discussão Sobre a Condução da Política Monetária, o Comitê desinflou o otimismo. Segundo a Ata, “os vetores inflacionários se mantêm adversos” e “o cenário prescreve uma política monetária significativamente contracionista por período bastante prolongado”.

Traduzindo: pela Ata, todos os fatores necessários para que o Banco Central comece a reduzir a Selic em janeiro estão dados. No entanto, a advertência do fim do texto é uma indicação clara que os cortes só começam a partir da segunda reunião de 2026, agendada para março. Ou, se a inflação não desacelerar, o Comitê só deverá abrandar a Selic em abril.

Como há várias incertezas no campo fiscal e a volatilidade adicional de um ano eleitoral, os investidores resolveram refazer as contas no fim do ano e esperam sinais mais claros de que o BC vai cortar os juros antes de inserir isso em seus cenários.


E Eu Com Isso?

A semana começa com uma alta nos contratos futuros dos índices americanos negociados no pré-mercado e das cotas do Exchange Traded Fund (ETF) EWZ iShares MSCI Brazil negociadas em Nova York. No entanto, a combinação de feriado, liquidez reduzida e um dado relevante de inflação nos Estados Unidos aumenta a chance de movimentos concentrados em poucos pregões. Investidores tendem a operar com cautela, ajustando posições de curto prazo.

As notícias são positivas para a Bolsa em um cenário de volatilidade pela liquidez reduzida



Vale em 2025: Minério de ferro, dividendos e terras raras sustentam a alta de 45 por cento


Em 2025, as ações da Vale (VALE3) registraram uma valorização acumulada próxima de 45 por cento ao longo do ano, refletindo uma combinação de fatores estruturais e conjunturais que reforçaram a percepção de solidez da companhia perante o mercado. Esse movimento esteve ancorado principalmente na força do minério de ferro, na elevada eficiência operacional, na disciplina financeira e, de forma complementar, no debate crescente sobre minerais estratégicos, como cobre, níquel e terras raras, cada vez mais relevantes para a transição energética global.

O principal pilar da valorização da Vale continua sendo o minério de ferro, produto central do seu portfólio e insumo essencial para a produção de aço. Mesmo diante de um cenário internacional marcado por desaceleração econômica em algumas regiões e incertezas geopolíticas, a demanda por aço mostrou-se relativamente resiliente, especialmente em países emergentes e em projetos de infraestrutura.

A Vale, como uma das maiores produtoras globais, manteve uma produção anual em torno de 330 milhões de toneladas de minério de ferro, sustentada por ativos de classe mundial, com destaque para o complexo de Carajás, no Pará. Esses ativos apresentam minério de alto teor de ferro e baixo custo de extração, o que garante maior competitividade mesmo em momentos de volatilidade nos preços internacionais.

Além do volume expressivo, a qualidade do minério produzido pela Vale tem sido um diferencial relevante. Minérios de maior teor são cada vez mais demandados pelas siderúrgicas por contribuírem para a redução de emissões de carbono e para ganhos de eficiência no processo produtivo, alinhando-se às exigências ambientais e regulatórias globais.

Outro elemento importante para o desempenho das ações em 2025 foi a disciplina financeira da companhia. A Vale manteve foco rigoroso na redução de custos, na eficiência logística e no controle de investimentos, priorizando projetos com maior retorno. Esse contexto favoreceu uma geração de caixa robusta, permitindo a manutenção de uma política atrativa de remuneração aos acionistas.

O Dividend Yield da companhia permaneceu em níveis elevados, reforçando o apelo das ações tanto para investidores institucionais quanto para pessoas físicas em busca de renda e previsibilidade.

Além do minério de ferro, a diversificação do portfólio mineral também ganhou relevância. A produção de cobre e níquel, metais essenciais para veículos elétricos, baterias, redes de transmissão e outras tecnologias ligadas à transição energética, passou a ser mais valorizada pelo mercado. Embora esses segmentos ainda representem uma parcela menor da receita total em comparação ao minério de ferro, eles fortalecem a tese de longo prazo da Vale como fornecedora estratégica de insumos críticos para uma economia de baixo carbono.


E Eu Com Isso?

Nesse contexto, ganhou destaque o debate sobre o potencial de terras raras associado a regiões minerais já consolidadas, como Salobo e Parauapebas. Essas áreas, tradicionalmente reconhecidas pela produção de cobre e minério de ferro, passaram a ser observadas também sob a ótica de possíveis ocorrências de minerais críticos associados a sistemas geológicos complexos. Embora a Vale ainda não tenha projetos comerciais de terras raras nessas localidades, a infraestrutura existente, o conhecimento geológico acumulado e a escala operacional da companhia tornam essas regiões estratégicas para estudos e eventuais iniciativas futuras.

Esse tema tem despertado interesse do mercado por representar uma oportunidade de longo prazo, alinhada à crescente demanda global por materiais essenciais à transição energética e à reconfiguração das cadeias globais de suprimentos.

É importante ressaltar que, apesar do forte desempenho em 2025, a Vale continua exposta a riscos, como a volatilidade dos preços das commodities, a dependência da economia chinesa e questões ambientais e regulatórias. Ainda assim, o mercado parece precificar que a companhia está mais preparada para enfrentar esses desafios do que em ciclos anteriores, o que ajuda a explicar a valorização consistente de suas ações ao longo do ano.


Totvs (TOTS3) aposta em integração para expandir soluções no agro

A Totvs (TOTS3) anunciou a aquisição da TBDC Desenvolvimento de Software por 80 milhões de reais, em operação realizada por sua subsidiária Totvs Soluções em Software e Serviços (TTS), reforçando uma estratégia já conhecida da companhia: crescer por meio de aquisições seletivas, com alto grau de aderência ao portfólio e foco em verticais específicas. A TBDC, fundada em 2018, é especializada em soluções para o agronegócio e atua ao longo de toda a cadeia produtiva, atendendo desde fabricantes de insumos até produtores rurais, distribuidores, cooperativas e consultorias. O contrato ainda prevê pagamento adicional condicionado ao cumprimento de metas, alinhando incentivos e reduzindo riscos de execução.

Do ponto de vista do produto, a aquisição adiciona à Totvs um software com características muito específicas do agronegócio, com destaque para o TBDC CRM, desenvolvido sob medida para as rotinas operacionais desse setor. Trata-se de uma solução que vai além da gestão comercial tradicional, integrando geração de demanda, acompanhamento agronômico, controle de relacionamento com clientes e análise de rentabilidade da fazenda. Essa profundidade funcional diferencia o software dentro de um mercado fragmentado e altamente técnico, no qual soluções genéricas costumam ter baixa aderência prática.

A própria TBDC estima alcançar uma receita recorrente anual líquida próxima de 24 milhões de reais em 2025, o que indica um ativo já validado comercialmente e com modelo de recorrência bem estabelecido. Para a Totvs, a aquisição fortalece o posicionamento no agronegócio ao complementar o portfólio existente, reduzindo a complexidade para o cliente final e ampliando o grau de integração entre sistemas. O racional é claro: oferecer uma plataforma cada vez mais completa para um setor que demanda soluções especializadas, confiáveis e profundamente conectadas à operação diária.

 
E Eu Com Isso?
 
Os desdobramentos estratégicos da operação vão além da simples adição de receita. A integração da TBDC ao ecossistema da Totvs cria oportunidades relevantes de cross-selling, aumento de ticket médio e retenção de clientes, especialmente em um setor com alto potencial de crescimento estrutural como o agronegócio brasileiro. Ao incorporar um CRM desenhado especificamente para essa vertical, a Totvs amplia barreiras de entrada para concorrentes e fortalece sua proposta de valor como fornecedora de soluções completas, e não apenas modulares.

Em termos de mercado e concorrência, a aquisição reforça uma tendência importante: a consolidação de soluções setoriais por grandes plataformas de software. A Totvs passa a competir de forma ainda mais robusta em um segmento no qual players menores dificilmente conseguem acompanhar o nível de investimento, integração e capilaridade comercial. No médio e longo prazo, a operação tende a gerar ganhos de escala, maior previsibilidade de receitas recorrentes e fortalecimento da posição competitiva da Totvs no agronegócio, um dos setores mais resilientes e estratégicos da economia brasileira.




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