Denise Campos de Toledo EECI

O atual cenário e as dificuldades na definição das políticas de juros

O mercado desde a semana passada teve turbulências por fatores inesperados: a quebra de duas instituições regionais nos Estados Unidos – Silicon Valley Bank e Signature Bank –  e o risco de insolvência do Credit Suisse. Nos EUA as autoridades agiram rápido para  proteger os clientes e evitar uma crise sistêmica. O Banco Central da Suíça ofereceu empréstimo para evitar desdobramentos mais sérios, após o principal acionista, o Saudi National Bank, anunciar que não faria novo aporte de capital. 

Essas situações, além de gerarem o temor de novas crises no sistema financeiro, levaram parte do mercado a considerar a possibilidade de postura mais amena por parte dos bancos centrais das economias desenvolvidas. Embora esses casos envolvam outros problemas, como de gestão, fica a preocupação com dificuldades adicionais que a elevação dos juros pode trazer. Foi um dos motivos da quebra do Silicon Valley pelos títulos que tinha em carteira e perderam valor.

Mas, pelo menos, o Banco Central Europeu já mandou recado diferente. No dia seguinte ao estouro do caso Credit Suisse elevou as taxas em 50 bp, como tinha sinalizado no mês passado, preocupado com a inflação e a recuperação dos salários depois que o bloco evitou a recessão. Ao comunicar a decisão disse estar atento às tensões do mercado, prometendo agir se necessário, mas destacando a resiliência do setor bancário da zona do euro.

Já para a reunião do FOMC na próxima semana persistem as dúvidas quanto ao ajuste dos juros nos Estados Unidos. Nas últimas semanas o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, deu a entender a necessidade até de ajustes mais fortes para vencer os desafios do controle da inflação, como a robustez do mercado de trabalho. Na sequência disse não estar certo ainda quanto a necessidade desse maior aperto. Em janeiro foram abertos 517 mil empregos e mesmo com desaceleração dos salário esse número veio duas vezes e meia acima do previsto. A inflação cedeu em fevereiro, pelo oitavo mês seguido, com alta  de 0,4%. Só que os 6% acumulados em 12 meses estão bem acima da meta de 2%. E vieram as quebras das duas instituições, entre as maiores já registradas no País. É um pacote e tanto de fatores que o FED terá de avaliar na decisão da semana que vem. A média das apostas ainda está em 0,5 ponto percentual com as taxas subindo para a faixa entre 4,5 e 4,75%. Lembrando que esse é mais um fator de pressão para os mercados, especialmente dos países emergentes com problemas fiscais ou nas contas externas. A alta dos juros dos títulos do Tesouro americano pode atrair mais recursos, até por serem considerados de risco zero.

Aí vamos para a situação do Brasil, onde a decisão do Copom, na próxima semana deve considerar muito mais as condições domésticas do que os fatores externos. Além das pressões do presidente Lula e da artilharia da ala política contra os juros altos e Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, a equipe econômica, diante do esforço no anúncio do novo arcabouço fiscal, espera um gesto de boa vontade. Gesto que seria um corte da Selic ou, pelo menos, a indicação que isso poderá ocorrer em breve. Situação difícil. Por mais crível que o arcabouço possa ser e há dúvidas nesse sentido ainda dependerá de aprovação do Congresso. E até a reunião não se poderá ter maior avaliação sequer da influência das novas regras fiscais sobre as expectativas do mercado para a inflação e as contas públicas. Por outro lado, o IPCA do último mês, com alta de 0,84%, surpreendeu negativamente também pela composição. E o último relatório Focus trouxe a projeção média para o IPCA deste ano perto de 6%. Nem o alívio dos preços do atacado, como mostrou o IGP 10, com alta de apenas 0,05% em março e 1,12% em 12 meses, a menor desde 2018 trouxe grande alívio.

Um gesto de boa vontade do Copom, mesmo que seja através da indicação de possível antecipação do corte dos juros, pode dar a ideia de estar cedendo às pressões, o que poderia interferir negativamente na confiança e nas expectativas do mercado. 

Porém ainda há outros fatores interferindo na defesa da antecipação do corte dos juros, como o risco de uma crise de crédito e os efeitos que os juros altos vem tendo nas empresas, especialmente do varejo. O caso Americanas levou a uma forte restrição na concessão de recursos. Mas a inadimplência também pesa. E não se pode ignorar que os juros mais elevados complicaram o gerenciamento financeiro de muitas empresas, que ampliaram demais as dívidas, durante a fase de crédito mais barato e abundante, principalmente após a pandemia. Agora têm de encarar juros altos, consumo vacilante, perspectiva de menor crescimento da economia e dificuldades para rolagem e renovação das dívidas. Desde o começo do ano houve expansão significativa dos pedidos de falência, recuperação judicial e reestruturação financeira. O impacto do aperto monetário pode ir além da desaceleração da atividade. Até por isso as reclamações contra os juros ganharam eco junto aos empresários e parte do mercado, mesmo entre os que cobram do governo comportamento mais técnico. 

Os juros são um peso para a economia, em vários aspectos, mas a inflação também é. Porém, até nesse sentido se vê brechas para algum alívio da política monetária. Há quem ressalte que não temos uma inflação da demanda e o risco tende a diminuir com um menor crescimento, perda de ritmo da atividade e até da geração de emprego. Sendo que parte do aumento das projeções do IPCA teve a ver com a postura do governo em relação ao fiscal, a PEC da transição. Percepção que tenta amenizar com as novas regras que vão substituir o teto de gastos. Além disso, os mais otimistas esperam que a acomodação dos preços das commodities tenham repercussão no varejo. 

Por tudo isso é até possível que o Copom dê alguma sinalização no sentido de corte dos juros. Vai tomar a decisão já sabendo da posição do FED, que sai antes. Seria uma espécie de voto de confiança no esforço fiscal do governo, dependendo também do encaminhamento das conversas nos próximos dias. O mais importante será a argumentação técnica, para não dar a ideia de estar cedendo às pressões. Por outro lado, se ainda mantiver a postura austera, que não deixe a impressão de uma queda de braço ou de demonstração de autonomia. Situação que também provoca stress nos agentes econômicos. Mas, sem dúvida, é um momento difícil para tomadas de decisão na política monetária.

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