Denise Campos de Toledo EECI

Novo ano, velhos problemas | Denise Campos de Toledo

É claro que a mudança no calendário não altera o cenário. Mas a virada do ano sempre cria expectativas melhores, renovamos os propósitos, planos. Porém, este começo de 2022 tem mostrado a renovação é dos problemas e incertezas. Inflação que volta a subir no atacado, queda da produção industrial em novembro, a sexta seguida, confirmando um final de 2021 mais fraco. Movimentos que reforçam os riscos da tal estagflação. Apesar de dados melhores do emprego nas pesquisas mais recentes e a possibilidade de a PNAD retornar, neste trimestre, ao nível pré pandemia, o mercado de trabalho não deve passar imune pela desaceleração da atividade, podendo também mostrar perda de fôlego. Isso sem esquecer que, independentemente da queda do desemprego, o rendimento médio tem caído bastante pelos efeitos da inflação elevada, reajustes menores e geração de vagas de pior qualidade, a maior parte na informalidade, com muita gente se virando para garantir alguma renda. São fatores que explicam a atividade mais fraca, que ainda deve sofrer os reflexos dos juros em alta. A Selic, no mínimo, deve bater nos 11,5%. Não se descarta altas maiores dos juros básicos, afinal, a expectativa média ainda é de inflação um pouco acima do teto da meta, de 5%. E mesmo pra chegar nesse patamar ainda deve levar alguns meses. 

Por outro lado, persistem as preocupações no campo fiscal. Apesar dos dados mais favoráveis de evolução das contas públicas nos últimos meses, ficou o mal estar pelas manobras que envolveram PEC dos Precatórios, criação do Auxílio Brasil e formulação do orçamento deste ano. Até a prorrogação da desoneração da folha ainda é questionada do ponto de vista de ajuste das contas. E o governo arranjou uma grande dor de cabeça ao sinalizar aumento salarial apenas para os policiais, inclusive abrindo espaço no orçamento e no teto de gastos para isso. Agora enfrenta uma onda de reivindicações de outras áreas do funcionalismo, até com um cronograma de paralisações, fora a entrega de cargos de chefia e comissionados. Uma grande enrascada, até política, para o governo que tentou preservar as boas relações com os servidores ao abrir mão de uma ampla e necessária Reforma Administrativa. 

Aliás, em ano de eleições são poucas as chances de qualquer Reforma mais ambiciosa, já que o próprio Congresso também vai tentar fugir de desavenças e tem todo o jogo de interesses políticos. Interesses que aumentam os riscos de mais pressões por gastos e as incertezas fiscais.

Nas pautas de preocupações não podemos deixar de lado o avanço da Ômicron, mesmo indicando menor gravidade entre vacinados. A nova onda tem levado ao aumento de restrições de atividade no exterior, suspensão de eventos no Brasil, maior cautela da população, o que pode adiar a normalização da oferta de insumos, que tem prejudicado vários setores, além de comprometer uma retomada mais firme do turismo e dos serviços, em geral, uma das principais apostas na sustentação do crescimento da economia e do emprego. 

Para completar o balanço dos primeiros dias de 2022 veio o recado mais duro do FED quanto ao corte de estímulos e retomada da elevação dos juros, que já deve começar em março, com possibilidade de quatro altas ao longo do ano. Mais pressão sobre a política monetária doméstica, a atratividade de capital, o comportamento do câmbio, da Bolsa, da curva de juros e a própria atividade, na medida em que juros mais altos têm efeito contracionista. Impacto minimizado nos Estados Unidos, onde o mercado de trabalho já está perto dos objetivos de recuperação. Pior para o Brasil, cuja economia já registrou recessão técnica, convive com a possibilidade de expansão muito fraca neste ano e até uma leve retração, com desemprego alto e renda em queda, fora todas as incertezas de um ano de eleições, que tendem a ampliar polarizações, embates políticos e gastanças de recursos públicos. 

Mas nada disso significa que tenhamos pela frente, necessariamente, um ano ruim. Só não podemos contar com um céu de brigadeiro. O País tem demonstrado muita resiliência, capacidade de reação. que podem assegurar até um balanço final positivo. Eleições também costumam trazer renovação de expectativas, mais que a virada do ano. Crescimento baixo tem sido uma constante no histórico mais recente, pós recessão histórica de 2015/2016, além do tombo de 2020, primeiro ano da pandemia. E o próprio controle da pandemia, que pode se efetivar depois da atual onda da Ômicron, deve dar mais condições de reação de vários setores, assim como o esperado controle da inflação que, talvez, dê espaço para os juros voltarem a cair antes do final do ano. Vai depender também do resultado das urnas e propostas do governo eleito. 

Sem pessimismo, o balanço realista das dificuldades, dos desafios, é importante para a definição das estratégias, inclusive na gestão dos investimentos, na busca das melhores oportunidades. Com os pés no chão, buscando informação, boas análises e orientações dá pra fazer desses limões uma saborosa limonada. 

Leia a última coluna da Denise Campos de Toledo: Os desafios que 2021 deixa para os próximos anos | Denise Campos de Toledo.

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