Denise Campos de Toledo EECI

Mercado bipolar na avaliação de cenário, em meio às incertezas externas e internas

O mercado continua bipolar nos movimentos e análises de cenário, dividido entre a expectativa de aperto mais forte dos juros, especialmente nos Estados Unidos, para tentar quebrar a persistência da inflação e fazer retornar para as metas, e a possibilidade de uma recessão global, até pelo efeito dos juros, garantir uma evolução melhor dos preços de commodities, como o petróleo e o minério, ainda que a Europa conviva com ameaça de alta dos custos de energia, pelo impacto da guerra entre Rússia e Ucrânia e os embargos.

Paralelamente, há análises menos pessimistas, que contam com acomodações dos preços em meio a um pouso mais suave das economias, sem que haja necessidade de apertos mais intensos de política monetária, a ponto de provocar a retração da economia mundial. Foi nesse sentido que o mercado teve uma boa reação à ata do Federal Reserve, que teria vindo defasada em relação aos últimos indicadores, pelo menos os que saíram até quinta feira, sem considerar queda de preços como do petróleo e do minério e dados de consumo menos vigorosos. A reprecificação do petróleo é um exemplo muito citado, com o recuo do Brent para algo em torno dos US$ 100, depois de ter batido nos US$ 140. Nesta sexta, o Payroll influencia nas expectativas, assim como terá peso o próximo CPI antes do FOMC.

Ainda se conta com a probabilidade maior de um aumento dos juros de 75 e não de 50 pontos na próxima reunião, mas se chegou a flertar na curva dos treasuries com um possível recuo das taxas em 2023. São suposições em meio a indicadores sem tendência definida, inflação que se mantém em patamares históricos de alta, impactos da guerra, desequilíbrios na oferta de insumos, inclusive a oferta ainda restrita de petróleo, e dificuldades no controle da Covid pela China e outros países da região, com restrições também em Hong Kong, trazendo dúvidas quanto à normalização de atividades e comércio de mercadorias.

É um contexto em que se vê volatilidade maior dos ativos, com aumento da aversão ao risco e busca de proteção nos títulos americanos. O que não tem impedido recuperações pontuais das bolsas, até pelas quedas acumuladas, nos momentos de avaliações menos pessimistas do cenário.

Quanto ao Brasil, além da influência do complicado contexto externo, que mexe com fluxo de recursos, pressões de preços e perspectivas de retorno das vendas de produtos básicos, o mercado ainda tem digerido as estratégias do governo para forçar a baixa de preços de maior impacto e conceder benefícios que possam resultar em avaliação mais favorável do eleitorado, melhorando as intenções de voto. 

Depois de muitos reflexos sobre os ativos, fazendo o dólar testar a faixa dos R$ 5,56, o Ibovespa rodar abaixo do 100 mil pontos por vários dias e as taxas dos títulos do Tesouro chegarem ao maior nível do atual governo, se assimila a ideia que o estrago está feito. Restaria apenas contabilizar o impacto sobre as contas públicas, a perda de credibilidade do teto de gastos, que sofre uma segunda grande mexida, sete meses após a primeira, que garantiu o calote dos precatórios e a criação do Auxílio Brasil, e o que tudo isso vai deixar de herança para 2023. Projeções de inflação, juros, PIB, finanças públicas estão sendo refeitas em meio ao aumento do risco país, por mais que as finanças e os indicadores de atividade e emprego tenham surpreendido positivamente nos últimos meses.

Cálculos do impacto dos benefícios, considerando desonerações, já passam dos R$ 100 bilhões. A conta da PEC kamikaze é de R$ 41,25 bilhões. As renúncias fiscais chegam a R$ 65 bilhões. Entram nessa conta a redução das alíquotas do IPI (R$ 23,4 bilhões), a queda do PIS/Cofins do diesel e GLP (R$ 14,9 bilhões), a prorrogação da desoneração da folha (R$ 9,2 bilhões) e as reduções das alíquotas do Imposto de Importação (R$ 9,7 bilhões). Ainda tem R$ 16,8 bilhões referentes às perdas de receita para zerar os tributos federais sobre a gasolina e etanol, incluídos no pacote dos benefícios, o que soma cerca de  R$ 58 bilhões. Se fala em cobertura com recursos da capitalização da Eletrobras, além de dividendos da Petrobras e do BNDES. Só que isso não altera a perda de confiança nas regras fiscais e no compromisso com o ajuste das finanças. 

Questionamento que pesa no mercado e tem mantido o dólar acima do previsto, o que, potencialmente pode afetar a inflação, assim como a injeção de recursos na economia, via benefícios, e a repercussão que pode ter sobre os preços. Nesse sentido a mudança de patamar do petróleo vem em boa hora, zerando a defasagem em relação aos preços externos, enquanto no varejo o consumidor já sente a diferença do corte do ICMS. Só que a aposta dominante ainda é de algum efeito rebote em 2023, fazendo a inflação ameaçar de novo o teto da meta.

Ainda se tenta a judicialização de várias medidas do pacote de bondades, até pelas limitações da legislação eleitoral. Foi por essa leitura que a base dos caminhoneiros recorreu à Justiça, mesmo com a previsão do voucher de R$ 1000,00. Mas, como ressaltei, já tem levado a uma revisão geral das projeções. Há uma melhora das previsões de inflação deste ano, com a piora das de 2023, o que pode levar o Banco Central a manter juros mais altos por tempo mais prolongado, piorando as perspectivas para o PIB do próximo ano, além das expectativas para as contas públicas. Difícil contar com a possibilidade de o novo governo, reeleito ou não, cortar benefícios como os contemplados na PEC, se aprovada no atual formato. Só o aumento previsto para o Auxílio Brasil já representa um custo elevado. Por outro lado, algumas desonerações também podem ser mantidas enquanto a inflação não der uma trégua maior. E ainda é preciso considerar toda a estratégia do parlamento na manutenção do orçamento secreto, das emendas do relator, independentemente de quem saia vitorioso das urnas. 

Enfim, fora as indefinições do cenário externo, o País pode encarar uma conta pesada decorrente da adoção de medidas populistas, que já deram muito errado no passado. Não sem motivo, crescem as comparações entre o cenário atual e o final do primeiro mandato de Dilma, que foi reeleita e, independentemente do processo de impeachment, deixou uma crise histórica na economia.

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