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Trump vs. Biden: tendências e impactos

Faltam menos de cinquenta dias para as eleições americanas. Com o fim das convenções partidárias nacionais, ocorridas no tardar de agosto por conta do atraso das primárias em alguns Estados – reflexo da Covid-19 –, pode-se dizer que a corrida pela cadeira mais poderosa do mundo apenas começou.

Na coluna de hoje, vou analisar o que mudou durante o ano de 2020 (não é nenhum spoiler: mas muito mudou!), os motivos pelos quais a disputa presidencial nos EUA se acirrou e a atual fotografia entre Joe Biden, o candidato democrata, e Donald Trump, atual presidente e candidato à reeleição pelos Republicanos.

Além disso, serão explorados os impactos esperados para os mercados financeiros, partindo dos pressupostos de que as Bolsas americanas devem ditar o tom no fim deste ano e, por consequência, de que o nosso mercado acionário local, o Ibovespa, deve seguir a tendência. Afinal, esse espelhamento é comum quando analisado do ponto de vista da história dos mercados financeiros, tendo de haver algum grande acontecimento por aqui (possibilidade que, evidentemente, não está descartada) para que o Ibovespa se descole do S&P, da Nasdaq e do Índice Dow Jones.

 

2020: uma virada de mesa

O começo deste ano reservava boas perspectivas para o presidente americano, Donald Trump, que planejava sua reeleição em meio a uma economia forte – os EUA não entraram em recessão em 2018 e 2019, como haviam apontado alguns economistas –, a níveis baixos de desemprego e a crescentes índices de popularidade. Segundo o site FiveThirtyEight, agregador de pesquisas e formulador de modelos preditivos, as pesquisas começaram a captar uma melhora na aprovação de Trump em janeiro, que culminaria, em março deste ano, no melhor índice de aprovação (45,2%) e de reprovação (49,9%) do presidente em mais de dois anos.

No meio do caminho, porém, houve uma pandemia global e o desencadeamento de protestos antirracistas ao redor de todo o país – tema ao qual os americanos são muito apegados, para ambos os lados. Como podemos ver acima, no gráfico de avaliação do governo Trump desenvolvido pelo FiveThirtyEight, os meses de abril, maio, junho e julho foram duros à popularidade do presidente, que tem arrefecido somente agora.

Mais recentemente, com a morte da juíza Ruth Ginsburg, da Suprema Corte americana, a disputa deve se acirrar ainda mais, na medida em que os partidos divergem sobre indicar, ou não, um novo membro para a Corte antes das eleições. Ginsburg era um ícone progressista do colegiado, que se divide basicamente entre esse grupo e conservadores. Logicamente, os progressistas são mais ligados aos democratas, enquanto os conservadores são mais próximos ao GOP. A Suprema Corte tem importante peso em decisões sobre os costumes dos EUA e, por isso, acaba virando alvo de debates entre eleitores engajados. Com o falecimento da juíza, agora a Corte é composta por 5 juízes conservadores e apenas 3 progressistas – no entanto, o conservador John Roberts (nomeado por George W. Bush) tem votado, recentemente, com a ala liberal. Por isso, é de interesse dos democratas deixar a nomeação para o ano que vem.

Portanto, somados, todos esses fatores não apenas influenciaram a popularidade do atual presidente, como também modificaram o cenário eleitoral. Evidentemente, ele ficou muito mais volátil – volatilidade essa que deve se intensificar daqui para a frente.

Podemos verificar a constatação acima por meio de dois interessantes gráficos. O primeiro diz respeito às intenções nacionais de votos – mensuradas por vários institutos de pesquisas e compiladas pelo site RealClearPolitics –, em que a perda de popularidade de Trump reflete diretamente em suas intenções de voto, como é possível observar no intervalo abaixo, principalmente de abril até o início de agosto.

O aumento na margem de vantagem (intenções de quem lidera, subtraídas as intenções de seu concorrente) de Biden lhe conferiu o status, entre analistas políticos e outros players do mercado americano, de levemente favorito à cadeira presidencial. A vantagem numérica chegou a ser de 10%; hoje, ela ronda a casa dos 6,5%. Alguns podem pontuar que as intenções de pesquisa nacional não captam o real cenário eleitoral; afinal, em 2016, Hillary teve mais votos no país inteiro, mas perdeu a disputa.

Duas objeções precisam ser feitas ao questionamento acima. A primeira é que a margem de votos de Hillary ficou apenas 2% acima de Trump. A tendência é que, no caso de 6,5% de vantagem (bem acima de 2%), impactos relevantes em estados-chave da disputa podem ocorrer. O segundo ponto é, na verdade, um monitoramento do favoritismo sob outra perspectiva: o mercado de apostas americano. Por lá, é possível apostar em quem será o próximo presidente americano. Segundo o RealClearPolitics, hoje Biden leva tímida vantagem (ver gráfico abaixo).

O mercado de apostas reforça a nossa tese: Trump era favorito no início do ano, mas sofreu muito com o coronavírus e os protestos antirracistas. Uma segunda onda de protestos, que eclodiu no fim de agosto, até o ajudou a encostar novamente em Biden, mas os reflexos foram pontuais e o mercado de apostas volta a alargar as chances de Biden levar o pleito de 2020 (53,6%, ante 45,6% para Trump). Todos esses indicativos elucidam o cenário atual e explicam a virada de mesa em 2020.

 

Polarização e turnout

Nesse contexto, é possível afirmar que as eleições americanas de 2020 estão especialmente radicalizadas entre os dois polos – o democrata e o republicano. Por um lado, Trump busca retirar atenção de qualquer assunto relacionado ao coronavírus e aguarda pela recuperação mais rápida da economia americana, após um trimestre de queda histórica (por conta das paralisações). Como estratégia de campanha, o republicano ainda tenta convencer os eleitores indecisos de que o democrata, Joe Biden, estaria idoso demais para assumir os EUA (Biden tem 77 anos) – seja por questões físicas ou mentais. Pesa a favor do atual presidente o alto comparecimento às urnas e o forte engajamento político de seu eleitorado mais fiel – parte mais ultraconservadora do partido.

Por outro lado, os democratas buscam ao máximo aumentar o comparecimento daqueles que se identificam com o partido às urnas. É o que os americanos chamam de turnout, que historicamente é menor para os Democratas do que o é para o seu partido adversário, o GOP. Para tanto, o foco de Biden, que já cativa o eleitorado negro americano em função de sua proximidade com o ex-presidente Obama, é a população jovem e, especialmente, os descendentes de latinos. Nesse sentido, o democrata diverge muito da abordagem feita por Trump sobre política imigratória e relações de fronteira com o México e com outros países da América Central.

Ainda, o algoz dos republicanos optou por uma vice mulher, a senadora Kamala Harris. Ela foi candidata nas primárias do partido para enfrentar Trump, mas acabou perdendo e aceitou o convite de Biden no início de agosto. É a primeira vez que uma mulher negra e de origem indiana concorre à vice-Presidência dos EUA. Ainda, a escolha por Harris tem ligação direta com dois grupos que serão determinantes na disputa.

Nesta próxima terça-feira (29), começa o ciclo de debates presidenciais até as eleições. Nesse primeiro encontro, o foco ficará justamente na Suprema Corte americana, no histórico dos dois candidatos, na pandemia da Covid-19, na economia, na integridade das eleições americanas e, por fim, nas questões de violência racial nas metrópoles. No dia 7 de outubro, é a vez dos vice-presidentes entrarem em cena. Posteriormente, haverá outros dois debates presidenciais, marcados para os dias 15 e 22 de outubro. É importante ficar atento à performance de Joe Biden, pois é consenso que seu carisma é um ponto que deixa a desejar.

 

Propostas de política econômica

Do ponto de vista da economia americana, nenhum dos candidatos deve dar guinadas na política econômica que vem sendo desenvolvida desde a crise de 2008. Existem algumas diferenças de projeto, mas, no geral, Wall Street, o mercado financeiro americano, não vê motivos para ficar pessimista com qualquer um dos desfechos das eleições americanas.

O democrata Joe Biden já apresentou seu plano de governo para a área, denominado de Made In America. São, resumidamente, dois vértices de atuação. O primeiro se refere à revisão dos cortes de impostos exercidos por Donald Trump no atual mandato. O segundo, à aplicação de impostos mais altos sobre a receita que as empresas americanas obtêm do Exterior. Ao mesmo tempo, Biden lançaria mão de incentivos fiscais para a indústria nacional, como forma de angariar votos do setor. Em 2017, por meio de um amplo tax cut (corte de tributos), Trump reduziu a carga tributária de empresas de 35% para 21%, entre outras medidas que beneficiaram as corporações americanas. Biden considera que o corte foi muito agressivo e já pediu o aumento da carga tributária americana de 21% para 28%, além da definição do imposto mínimo para lucros do Exterior em 21% (vs. os 10,5% atuais).

O atual presidente, por sua vez, pretende manter a atual política econômica e ampliar o pacote de cortes de impostos, dessa vez com foco não nas corporações, mas sim no trabalhador industrial. Sua campanha já anunciou um “Tax Cut 2.0“, e Trump deve sustentar-se no sucesso econômico do País nos primeiros 3 anos de sua administração. De qualquer forma, as perspectivas para a política fiscal americana, em ambos os casos, continuam fortemente expansionistas. Por enquanto, o mercado não enxerga riscos de controle da dívida no país, afinal os EUA têm histórico de ótimo pagador.

 

Cenários e impactos

Como mencionei, se as eleições ocorressem neste sábado, 26 de setembro, seria bastante provável a vitória de Joe Biden na disputa. No entanto, ainda existe espaço para mudanças no favoritismo e somente a partir de agora as campanhas devem intensificar-se. Nessa campanha, a disputa está bastante acirrada em nove Estados (eles são chamados de swing states). Coloquei-os em ordem de importância e divisão de votos – do mais importante e mais dividido ao menos importante e menos dividido: Flórida, Ohio, Carolina do Norte, Pensilvânia, Texas, Arizona, Georgia, Wisconsin e Nevada. Os dois candidatos devem focar recursos e tempo de campanha justamente nesses Estados, o que é a chave para atingir o número mínimo de 270 votos de delegados para vencer as eleições.

Segundo o modelo preditivo do FiveThirtyEight, após rodarem cerca de 40.000 cenários diversos para o pleito de novembro, a amostra de 100 possibilidades aponta para uma vitória de Biden em 77 dos casos, enquanto Trump vence somente em 23 das vezes. Para o mercado financeiro, deve importar também a resolução da disputa no Senado Federal – os republicanos tentam manter a maioria na casa, mas o embate é bastante acirrado com os democratas.

Em caso de vitória de Biden e dos democratas no Senado, as chances da revogação de impostos é alta – nesse cenário, Wall Street sofreria impacto negativo no curto prazo. No melhor cenário, Biden vence e o GOP mantém sua hegemonia no Senado, evitando que os pacotes que prejudicariam os lucros de empresas sejam aprovados. Nos prazos médio e longo, a maior aptidão institucional de Biden e a abordagem geopolítica multilateralista (envolvendo blocos de países em negociações) tenderiam a trazer bons frutos para a economia global como um todo.

A última ressalva a se fazer é sobre uma certeza: a partir de outubro, as Bolsas americanas devem apresentar maior volatilidade até o fim do ano. Isto mesmo: apesar de as eleições estarem marcadas para o dia 3 de novembro, as chances são grandes de a apuração envolver disputas judiciais em diversos Estados dos EUA e a apuração terminar somente em meados de dezembro. Em decorrência da pandemia, um número extraordinariamente elevado de americanos deve votar antecipadamente ou por correio, tornando a apuração mais trabalhosa e aumentando as animosidades e os questionamentos sobre a contagem de votos em Estados nos quais o resultado será muito parelho.

Para finalizar, elaborei a tabela abaixo. Ela serve como um parâmetro, bastante básico, sobre o comportamento de diferentes variáveis no caso de uma vitória de Trump e no caso de uma vitória de Biden.

Um abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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