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O fim da Antipolítica?

Por acaso – ou por destino, afinal sou aficionado por política – fui mesário (não voluntário, é importante frisar) pela quarta vez seguida no último domingo. Confesso que, apesar da minha paixão pelo tema, ser mesário não é uma das atividades mais empolgantes…

Não posso, porém, reclamar: compreendo o dever cívico por detrás da convocação e faço questão de ter a melhor postura possível quando estou em sessão eleitoral. Quem já foi mesário sabe das curiosas situações pelas quais passamos e das figuras que aparecem para votar. Haja serenidade!

Em um microcosmo – valendo-me de um recorte de apenas uma escola sobre milhares que estão comportadas dentro do maior município do Brasil –, pude observar, na pele, algumas das considerações presentes na minha última coluna, publicada no domingo passado, sobre tendências para o pleito deste ano.

Na minha sessão, localizada na Zona Oeste da cidade de São Paulo (mais especificamente, em uma região já considerada nobre para os parâmetros da capital), pude constatar um altíssimo nível de abstenção: de 402 eleitores aptos a votar na sala, apenas 257 compareceram. A explicação, nesse caso, parece ser mais demográfica: apesar de não poder provar, a evidência empírica – ou melhor, minhas outras três participações como mesário nesta mesma sessão – aponta para um eleitorado com idade mais avançada. Daí, pode-se concluir que a abstenção (impressionantes 36,0%) estaria diretamente ligada ao receio elevado de aglomeração neste contexto de Covid-19 em que ainda estamos inseridos.

Deixando, porém, a experiência subjetiva de lado e focando nos dados – esses, sim, podem contar uma história de maneira mais completa –, o que se percebeu é que as eleições de 2020, como esperado, tiveram recorde de não comparecimento. Os índices, no entanto, não chegaram ao patamar da minha sessão.

Sob a sina de uma crise representativa, os índices de abstenção vêm crescendo nas últimas cinco eleições, em concomitância com o número absoluto de eleitores. Se, em 2008, cerca de 19 milhões de abstenções representava pouco mais que 14,5%, em 2020 esse número chegou a 34 milhões de eleitores não comparecendo às urnas, representando 23,14% do eleitorado total – um aumento de quase 3% em relação ao pleito de 2018. É evidente que, de 2016 para 2018, o avanço das abstenções também ficou perto de 3%, por isso, pode-se, talvez, dizer que o avanço do Coronavírus não teve influência direta no aumento do não comparecimento.

É necessário, contudo, lembrar que as eleições de 2018 foram as primeiras eleições presidenciais após o impeachment de Dilma Rousseff – eleições caracterizadas, argumenta-se, pela síntese do processo de descrédito do sistema representativo brasileiro, que se iniciou por volta de 2013. Diante de um processo traumático, como o de destituição de um presidente eleito, é compreensível que o número de ausência aumente.

Nesse sentido, não haveria motivos para explicar o aumento de 3% no índice de abstenção (2020 = 23,14%) – em especial, porque os 20% de 2018 já são considerados altos, tratando-se do comparecimento histórico do brasileiro às urnas –, senão a pandemia da Covid-19. Essa tese pode ser reforçada pelo gráfico abaixo, em que o eixo X plota o índice de abstenção por estado da Federação, e o Y representa o tamanho do eleitorado de cada estado. Apesar de não ser possível identificar um padrão para estados com menos de 10 milhões de habitantes – a grande maioria deles ficou entre 15% e 25% de abstenção –, destaca-se a alta abstenção nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, respectivamente, terceiro e primeiro estado mais populoso do Brasil.

Sem sombra de dúvidas, os 27,3% de abstenção em São Paulo e os 28,08% de abstenção no Rio de Janeiro foram responsáveis por trazer a média nacional para perto dos 23% nesta última eleição. O segundo estado mais populoso do Brasil, Minas Gerais, teve abstenção de 23,2%.

Se o aumento da abstenção estivesse mais ligado à desconfiança no sistema político brasileiro e no descrédito da classe política, o número de votos brancos e nulos deveria ter acompanhado o movimento de alta e batido recorde em 2020. Não foi, porém, o que se observou. Enquanto as eleições de 2014 observaram 10,07% dos votos sendo computados como brancos e nulos, recorde à época, em 2016 (eleição municipal), o número chegou a 10,92% e renovou a máxima histórica. Em 2020, o número ficou nos 9,90%, nem mesmo superando o pleito de 2014.

Explica melhor os resultados deste ano a tese de que a Antipolítica e o Antiestablishment – basicamente, sentimentos que traduzem a ideia de que “nenhum político presta” – não foram decisivos para o voto do eleitor. O brasileiro parece ter optado pela segurança, principalmente, por conta de um momento delicado para a gestão pública, tendo em vista a pandemia. Se as eleições de 2018, cada vez mais, são colocadas na estante das eleições de ruptura, neste ano de 2020, o que vimos foi uma eleição de continuidade. O índice de reeleição de prefeitos no Brasil saltou de 46%, em 2016, para 63% neste pleito – a maior das últimas três eleições. Das 25 capitais brasileiras (em Macapá, as eleições foram adiadas), 13 tiveram prefeitos concorrendo à reeleição. Desse montante, seis prefeitos já foram reeleitos no primeiro turno e seis vão ao segundo turno. A única exceção é Porto Alegre, onde o tucano Nelson Marchezan Jr. ficou de fora.

O ano de 2020 pode representar o primeiro respiro de um eleitorado que não vive no guarda-chuva do PT e do PSDB, siglas que dominaram a política brasileira desde os anos 2000, mas que, também, não deve seguir uma linha mais avessa à política – como fez Jair Bolsonaro em 2018 para surfar na onda de insatisfação da população e se eleger Presidente. Vale ressaltar, entretanto, que, também, é verdade que o Presidente pouco participou do pleito municipal, o que dificulta um diagnóstico mais preciso sobre a sua força e sobre a força de seu partido (que, na verdade, nem existe).

No entanto, a ascensão de novos partidos à esquerda, como o PSB (vide o segundo turno em Recife), o PCdoB (Porto Alegre) e o PSOL (São Paulo e Pará), dão indicativos de que a presença petista, nesse campo, não é mais hegemônica. Assim como, na centro-direita e direita, o MDB e o PSDB perderam espaços – sobretudo, quantitativamente – para outras siglas, como o DEM, o PSD, o PP e o PL.

No gráfico abaixo, pode-se observar o comparativo dos dez partidos com o maior número de prefeituras ganhas após o primeiro turno de 2020. O MDB continua sendo o partido com maior número de prefeituras, mas a sigla não mais destoa das outras legendas. O PSDB e o PT, também, decresceram em número de prefeituras. O DEM, por outro lado, praticamente, dobrou sua presença no Executivo municipal, reforçando sua consolidação como uma das siglas mais importantes do País no âmbito da direita, após anos de decadência do antigo Partido da Força Liberal (PFL). O PSD, criado em 2011 – justamente, por dissidência de alguns quadros do DEM –, também vem ganhando espaço no quadro nacional, posicionando-se mais ao centro político.

Números preliminares das cidades com mais de 200 mil eleitores (municípios em que se pode ter segundo turno) também apontam para uma desidratação das legendas mais tradicionais, como o MDB, o PSDB e o PT. Existem, no entanto, muitos municípios indefinidos – com 57 das 95 cidades indo para o segundo turno. Ficará mais interessante, portanto, olhar para o gráfico abaixo somente após o dia 29 de novembro.

No próximo fim de semana, lá vou eu passar 10 horas (das 7h às 17h) recebendo eleitores, digitando títulos e ouvindo repetidamente o característico barulho da urna eletrônica brasileira. Ao cabo – e mais por curiosidade do que para tirar qualquer conclusão –, acaba valendo a pena ser mesário só para ver como foram os resultados da minha seção eleitoral.

A história e os achados da ciência política mostram que o campo das eleições é, muitas vezes, pendular. A política é líquida, na esteira dos desejos dos eleitores e do comportamento da população frente às novidades – praticamente cotidianas – de se viver em sociedade. A eleição de 2018 foi marcante ao tirar o pêndulo da preferência política da esquerda. Alguns até consideram que esse movimento foi demasiadamente brusco ao eleger Bolsonaro à Presidência. Se 2020 for uma introdução para 2022, teremos um reajuste pendular para algum espaço entre o centro e a centro-direita.

Um abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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