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E as eleições americanas? – parte II

Para quem ficou esperando uma segunda parte do texto do sábado retrasado, eis aqui a continuação sobre as eleições presidenciais americanas. Peço vênia à interrupção da sequência, mas um certo Queiroz acabou atrás das grades e – você e eu sabemos – esse tema era mais urgente e relevante para o mercado local.

Sem mais delongas, vamos retomar de onde paramos: os protestos que eclodiram nos EUA no final de maio e o quadro atual de votos e chances de vencer a eleição de 2020. Lembrando sempre que todos os dados que serão apresentados aqui são apenas uma fotografia e o processo eleitoral é como se fosse um filme – portanto, muito mais dinâmico.

As mais recentes pesquisas eleitorais de diversos institutos americanos sugerem que Joe Biden, o candidato democrata, tem uma vantagem confortável sobre seu adversário republicano e atual presidente dos EUA, Donald Trump. É bem verdade que, quando falamos de intenções gerais de voto, pesquisas de 2019 já colocavam Biden em vantagem e Trump nunca reverteu tal quadro, apesar de ter estreitado a diferença no começo deste ano (ver gráfico abaixo).

Repare que o agregador de pesquisas vem indicando um aumento recente nas intenções de voto para Biden, que beira os 50% contra cerca de 40% para Trump. Contudo, também é verdadeiro que, no caso americano, importa menos a quantidade de votos totais e mais o desempenho em cada estado, já que o modelo estadunidense é de colégios eleitorais.

Outra métrica importante para acompanhar é a avaliação de Trump, e ela também está sendo um revés para o candidato à reeleição. Especialmente nos EUA, a aprovação ou reprovação de um presidente é ainda mais delicada por ser fator diretamente relacionado à motivação dos cidadãos em saírem de suas casas para votarem nas eleições presidenciais. Caso você não saiba, o voto lá não é obrigatório – por isso, candidatos investem pesado em campanhas para atingir aqueles que demonstram desinteresse com a política. Muitas vezes, voluntários que trabalham nas campanhas ficam designados apenas em conversar com indecisos/indiferentes, tendo até um termo específico para essa prática: a de “virar um voto”, ou “turn out a vote”.

O gráfico abaixo, elaborado pelo site FiveThirtyEight, é claro ao mostrar uma recente alta na desaprovação (em laranja) de Trump, concomitantemente à queda de sua aprovação (em verde). Apesar de não conseguir comprovar por falta de tempo hábil, me parece que existe uma forte correlação entre este gráfico abaixo e o primeiro deste texto.

Neste outro conjunto de gráficos (também do FiveThirtyEight), é possível comparar o desempenho do atual presidente em relação aos últimos seis presidentes, por meio de suas avaliações líquidas – tradução livre para net approval. Basicamente, se o número é positivo, ele vai apontar a diferença entre a porcentagem de aprovação e reprovação do presidente, e vice-versa.

Como podemos observar, após 1,254 dias de mandato, Trump só é melhor avaliado que Bush pai e o democrata Jimmy Carter. Se, por um lado, é consenso na literatura especializada norte-americana que presidentes possuam claras vantagens para serem reeleitos – tendo aqueles que tentaram, conseguido na grande maioria das vezes –, os números mostram que, neste caso, a história não será tão simples.

Mas o que motivou a recente perda de popularidade de Trump? Existem algumas explicações possíveis. Evidentemente, o menosprezo inicial do atual governante ao coronavírus pesou contra. Atrasado, mas de maneira prudente, ele mesmo recuou e os EUA passaram a tomar medidas muito mais drásticas contra a Covid-19. A percepção de que o governo americano poderia ter agido com maior eficácia, porém, deteriorou levemente a imagem de Trump.

Outro fator importante é a economia. Nesse quesito, não há mágica: uma economia fraca significa menos oportunidades e, por lógica, cedo ou tarde, uma maior massa desempregada. Os efeitos negativos do coronavírus na economia americana já foram sentidos e a retomada, no segundo semestre, será repleta de desafios. Inserido no olho do furacão, Trump pode patinar à medida que os percalços econômicos forem maiores que o esperado.

Por fim, o fator mais recente e que pode ser decisivo nas eleições de 2020. Os protestos pela morte de George Floyd, um homem negro que foi imobilizado por um policial branco e asfixiado durante 8 minutos e 46 segundos, tomaram as ruas das principais cidades do país no final de maio e início de junho. A divisão racial é um tema delicado nos EUA e os protestos antirracistas reacenderam essa chama. Enquanto que o líder republicano tentou reestabelecer a ordem, por meio de um discurso securitário, Biden optou por reforçar ainda mais suas conexões com a comunidade negra – o democrata foi vice-presidente de Obama.

Claro que, diante dos protestos, é muito mais fácil não ser presidente por não ter de lidar institucionalmente com a questão. No entanto, as consequências eleitorais ainda não são claras, mas tudo indica que Biden vem aumentando suas margens de votos entre eleitores não-brancos (negros, hispânicos, etc.). O conservadorismo republicano parece ter se acuado após o chocante caso de George Floyd e as fortes reações da população.

Fato é que, faltam menos de cinco meses e agora o tempo vira inimigo para uns e aliado para outros. Independentemente do resultado de novembro, uma coisa é certa: essa será, assim como foi 2016, uma eleição acirrada. Para não tornar essa leitura muito extensa, optei por deixar a questão dos colégios eleitorais e estados-chave para a eleição para a próxima semana. Espero você para a parte III das colunas sobre eleições americanas.

 

Um abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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