Política sem Aspas

Considerações sobre a quarentena

Na coluna de hoje, quero trazer uma importante discussão que vem sendo feita no meio acadêmico sobre qual a melhor forma de combater o novo coronavírus e, ao mesmo tempo, reduzir ao máximo os efeitos negativos desse combate sobre a economia.

Basicamente, existem duas correntes diferentes em discussão: uma prega o isolamento total, ou quarentena horizontal, da população para combater a disseminação do coronavírus; a outra propõe o isolamento somente de grupos de risco e daqueles que tiveram contato com algum infectado. Neste caso, denominou-se quarentena vertical.

Antes de aprofundar a discussão, trouxe abaixo os números atuais da Covid-19 no Brasil e no mundo. Vale observar, também, que atualmente não há metodologia 100% comprovada e eficaz no combate ao coronavírus e que as duas visões em discussão são generalizações. Ou seja, dispõem de algumas diretrizes para serem utilizadas, por governos, como guias na implementação de políticas públicas de combate à doença, não levando em consideração as peculiaridades de cada país. Nesse sentido, bons resultados em um certo país não são garantia de que determinada estratégia funcionará em outro.

Vamos retomar alguns números aqui com base nos dados da Universidade Johns Hopkins. Até o fechamento deste artigo, existem 542.788 casos confirmados do coronavírus ao redor do globo, dos quais pouco mais de 24 mil resultaram em mortes. A China não lidera mais o número de casos confirmados (81.661), tendo sido ultrapassada pelos EUA (85.996) nesta quinta (27). Parece somente uma questão de tempo para que outros países também registrem mais casos do que o país marco zero da doença.

No gráfico abaixo, é possível ver a evolução de casos nos países que já registraram mais de 100 casos – a partir do primeiro dia após superar este número. Destaquei a posição do Brasil para facilitar a visualização.

Como é possível observar, por enquanto, o Brasil (2.985 infectados) encontra-se na mesma posição da Espanha e dos Estados Unidos, cujas contagens de casos demonstram que eles dobram de 2 a 3 dias. A Itália saiu recentemente deste padrão, e tudo indica que a diminuição da velocidade de aumento nos casos de Covid-19 se deu em função da rígida quarentena implementada no país.

Das experiências de quarentena realizadas até agora no mundo todo, temos como exemplo de quarentenas horizontais a chinesa (considerada um sucesso, mas longe da realidade ocidental por conta do regime político chinês), a italiana (exemplo a não ser seguido, devido à demora na resposta das autoridades) e a de outros países europeus, como Alemanha, França e Espanha. No caso da Itália, a curva está começando a se achatar. Portanto, devemos ter resultados sobre a política de quarentena do país em questão de semanas.

Por outro lado, são exemplos de quarentena vertical o Japão e a Coreia do Sul – respectivamente –, ambos tendo bastante êxito nas implementações de normas sociais e uso de máscaras e lançando mão de uma política extremamente agressiva. O Reino Unido também adotou a quarentena vertical, mas, nos últimos dias, passou a implementar a quarentena horizontal. O país será um bom laboratório para observar os efeitos da abordagem mista de quarentenas.

A justificativa para a mudança entre os britânicos veio após estudos de imunologistas do Imperial College London e da London School of Hygiene and Tropical Medicine apontarem que aproximadamente 30% dos pacientes italianos internados pelo vírus necessitavam de UTI (tratamento intensivo); isto é: caso os números se repetissem no Reino Unido, o serviço de saúde inglês entraria em colapso.

Já no Brasil, o que temos até o momento é a decretação de quarentena horizontal em praticamente todos os estados. A partir da semana que vem, é possível que alguns estados voltem, lentamente, a retomar as atividades cotidianas – buscando uma transição para a quarentena vertical.

Do pouco que já foi pesquisado, porém, surgem evidências que colaboram para a manutenção do isolamento total da população. É o caso do gráfico abaixo, elaborado por José Fernando Diniz Chubaci, professor de Física da Universidade de São Paulo (USP), a partir de dados do Ministério da Saúde. Nele, fica claro o achatamento da curva de casos no estado de São Paulo após o isolamento total da grande maioria da população. Os próximos dias ditarão se esta tendência é passageira ou definitiva.

De qualquer modo, as minhas considerações aqui são de cunho mais abstrato. Parece mais prudente analisar os tipos ideais (da concepção Weberiana mesmo) de quarentena do que tentar, em vão, comparar países em busca de alguma resposta.

Bem resumidamente: o argumento pela quarentena horizontal é o de evitar ao máximo interações humanas para que as contaminações caiam drasticamente. Já o argumento pela quarentena vertical é o de que o isolamento completo poderia, indiretamente, acarretar mais mortes do que o próprio coronavírus ao paralisar totalmente as atividades econômicas.

Assim, minha primeira consideração é que não existe esse suposto jogo de soma zero quando o tema é o coronavírus. Não faz sentido acreditar que exista uma escolha a ser feita entre vidas e a economia.

Em um dos textos iniciais sobre quarentena vertical ou quarentena horizontal, um dos autores que defendem o método verticalizado argumenta que vidas serão perdidas caso outros doentes e pessoas com problemas de saúde fiquem em casa ao invés de irem ao hospital. Ora, nada garante também que elas serão tratadas em casos de isolamento parcial da sociedade. Pelo contrário, como uma das consequências é a contaminação por rebanho, é bem possível que haja um sobrecarregamento do sistema de saúde até que a maioria da população desenvolva os anticorpos para o vírus.

Além disso, da mesma forma que é possível achatar a curva de contaminação por meio do isolamento social, pode-se buscar meios de achatar a curva de efeitos negativos sobre a economia. Aliás, a grande maioria dos governos já o fazem, ao anunciarem inúmeras medidas de auxílio econômico, entre outros instrumentos de políticas fiscal e monetária expansionistas. O gráfico abaixo resume bem tal argumento:

Fonte: gráfico elaborado por Bob (@rationalexpec) a partir do artigo Flattening the Pandemic and Recession Curves, de Pierre-Olivier Gourinchas (econfip.org/policy-brief/flattening-the-pandemic-and-recession-curves/)

Uma segunda consideração estima as dificuldades de planejamento e execução de uma quarentena vertical. Tanto o Japão quanto a Coreia do Sul – as duas experiências mais bem sucedidas – já dispunham de amplo know-how contra surtos por conta da gripe H1N1, em 2009. Para além desta vantagem, ambos os governos atuaram ativamente para promover a eficácia da quarentena vertical: os japoneses testaram e isolaram os casos com extrema eficiência (isso sem contar com traços culturais de higiene e distanciamento social), enquanto os coreanos introduziram a testagem massiva da população e o rastreamento de pessoas que estariam potencialmente infectadas.

Arrisco dizer que o grupo de países capazes de implementar políticas públicas em níveis como esse é muito restrito. Tomemos o caso do Brasil como exemplo. De cara, já existem dois fatores que podem colocar toda a estratégia em cheque: 1) o próprio Ministério da Saúde admitiu que, para enfrentar o pico da epidemia, o Brasil precisará ter até sete vezes mais testes diários de coronavírus do que tem atualmente; 2) segundo pesquisadores ingleses, apenas um em cada dez brasileiros que carregam o vírus e demonstram algum sintoma foi registrado pelo governo.

Em um contexto de incertezas, podendo o coronavírus ser a pior pandemia já registrada nas últimas décadas, é necessário calcular bem os riscos de uma estratégia mais arrojada de quarentena. Cada país deve traçar sua estratégia de olho nas melhores práticas e com base em dados e evidências. E, claro, tratando o coronavírus com a seriedade que ele merece.

Um abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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