Política sem Aspas

A minha visão sobre o coronavírus

Atualmente, não há outro tema tão importante quanto o coronavírus. Com o epicentro da doença mudando de eixo da China para a Europa, os desafios de combate à doença, a qual agora recebe o status de pandemia, continuam.

Na coluna de hoje, pretendo expor o meu ponto de vista sobre os riscos embutidos no coronavírus e sobre o atual estágio da pandemia mundo afora. Logo após, vou elencar alguns de seus possíveis impactos para a economia e a política. Vale ressaltar aqui que o que irei comentar sobre o vírus vale para todo o globo, mas a análise das consequências terá um recorte para o Brasil. E, além disso, prepare-se: excepcionalmente, este é um texto mais extenso.

Primeiro de tudo, é preciso afastar a ideia errônea de que o coronavírus não é sério. São mais de 140 mil pessoas infectadas em todo o mundo e mais de cinco mil mortes contabilizadas até agora. É comum comparar a doença com uma gripe comum, mas, diferentemente da gripe, ainda não existe um tratamento adequado ao coronavírus e tudo indica que a transmissibilidade da nova doença é mais alta.

Como bem pontuaram diversos especialistas da área de saúde, a doença não precisa ser mais letal para produzir efeitos negativos – basta que ela imponha perigo ao funcionamento adequado do sistema de saúde de um país. Este é o grande risco presente no coronavírus, e a Itália, que vem tendo dificuldades de lidar com a doença, é um claro exemplo de superlotação dos hospitais.

Entendendo, portanto, que o Ocidente não conseguirá reagir da mesma forma que a China – por questões socioculturais –. Então, tomando o país asiático como um lado da moeda e colocando a experiência italiana como o extremo oposto, vamos a alguns dados sobre o ritmo de contaminação do coronavírus.

A situação atual do mundo está resumida nos quatro gráficos abaixo: o primeiro aponta para o número total de casos e para o recente aumento da curva, aumento esse explicado pela disseminação do vírus para uma enorme quantidade de países. O segundo, por sua vez, aponta para o número de novos casos diários no horizonte temporal, sustentando a recente alta de contaminados na medida em que o número de novos casos voltou a aumentar.

Já o terceiro e quarto gráficos (abaixo) dissecam um pouco mais as informações do primeiro: respectivamente, temos o número de casos fora da China e a distribuição dos casos ao redor do mundo. Pelo aumento exponencial da curva do terceiro gráfico, é possível observar que é somente uma questão de tempo para que os números do resto do mundo (atualmente, pouco menos de 60 mil) superem os 80 mil casos chineses de coronavírus.

Em outras palavras, o que os dados demonstram é que, apesar do ótimo trabalho de controle epidemiológico da China, o risco agora reside nos outros países com casos de contaminação. Nesse sentido, tudo vai depender de como os governos atuarão na prevenção e no combate ao vírus, mas, de qualquer forma, o panorama ainda carrega uma boa dose de incerteza. Não se sabe quando será o ponto máximo das parábolas de contaminação. Por aqui, por exemplo, o aumento da contaminação só está começando: nem entramos no gráfico abaixo, que só considera os países que já têm mais de 100 casos confirmados.

É bastante perceptível acima que as curvas de infectados pelo vírus ainda devem crescer antes de se estabilizarem. A Coreia do Sul, após declarar quarentena e adotar outras medidas protetivas, começa agora a controlar o número de casos confirmados. O mesmo vale para a Itália, mas não para os Estados Unidos, a Alemanha, a França e a Espanha, que somente agora iniciaram mudanças e restrições na rotina de suas respectivas populações.

Evidentemente, quanto mais cedo houver a tomada de atitude – seja do governo, seja da população –, menor será o impacto do coronavírus no país. Mas não só: quanto mais cedo forem evitadas aglomerações ou outros catalisadores da doença, menor a chance de os sistemas de saúde dos países não darem conta de atender àqueles que realmente precisam – os grupos de risco. Por consequência, menor o impacto nas economias. Vale destacar um último gráfico sobre o coronavírus para explicar essa variável. Veja abaixo:

É claro que, dada a elevada incerteza sobre o futuro, fica muito difícil prever qual será o prejuízo para os países e a economia global como um todo. No entanto, podemos projetar algumas possibilidades que afetariam diretamente o crescimento – traduzido pelo PIB.

A primeira possibilidade – e mais séria – está relacionada à suspensão – ou diminuição – das atividades econômicas. Aqui, refiro-me à indústria e principalmente ao setor de serviços (que representa a grande maioria do PIB brasileiro). Em um cenário de ação tardia das medidas de controle, pode ser necessário que elas sejam mais drásticas. Na Itália, por exemplo, todo o país está em lockdown. Tal cenário reduziria diretamente o consumo e a produção de bens e serviços.

A segunda diz respeito aos reflexos da desaceleração de economias centrais no mundo: é o caso da China, que deve ser afetada, os EUA, a Alemanha… uma frustração no crescimento desses países deve repercutir negativamente nos PIBs de outros países, principalmente daqueles em que as relações comerciais são mais estreitas.

Ainda nessa semana, o Instituto Brasileiro de Economia, da FGV/Rio, divulgou o resultado de dois indicadores econômicos globais: o Barômetro Econômico Global Antecedente e o Coincidente. Os dois índices decresceram no resultado de março de 2020 e atingiram os menores níveis desde 2009, repercutindo já os efeitos do coronavírus na economia.

O Barômetro Global Coincidente, que reflete o estado atual da atividade econômica, caiu 14,4 pontos (de 92,4 pontos para 78,0), puxado pelas variáveis da região da Ásia, primeira afetada pela doença. Já o Barômetro Global Antecedente, que antecipa de três a seis meses os ciclos econômicos, decresceu 10,4 pontos no mês (de 97,6 pontos para 87,6) pelos mesmos motivos. Vale observar que a tendência é de mais queda, já que o cálculo dos indicadores ainda não captou a propagação do coronavírus para além da Ásia.

No gráfico abaixo, temos o relógio do ciclo econômico, o qual coloca ambos os índices nos eixos X e Y para vislumbrar em qual etapa os resultados se encontram. É claro que, pelo menos para os próximos meses, há uma tendência de baixa cíclica.

Em termos econômicos, a recuperação das economias em 2020 vai depender fortemente do tempo e da intensidade dos lockdowns e consequentes reduções no consumo e produção. Como tentei demonstrar, as paralisações passam, fundamentalmente, pela atuação eficaz dos governos na contenção do surto.

No caso do Brasil, ainda temos um terceiro fator que pode complicar a economia: o político. Em partes, é novo, em partes, já é uma luta conhecida. Para que o Brasil não tenha mais um ano de crescimento medíocre ou até, no pior cenário, uma leve recessão, é preciso dar continuidade ao ajuste fiscal. Basicamente, reformas estruturais – tributária, administrativa, Plano Mais Brasil etc. – que permitam: a) gerar superávit primário; b) estabilizar a trajetória da dívida pública; c) aumentar a produtividade do trabalho; e d) melhorar o ambiente de negócios.

No início do ano, indiquei que havia uma janela de oportunidades para avançar com as pautas no Congresso, em especial no primeiro semestre. Estamos no meio de março e pouco avançou. Agora, fica ainda mais complexo pautar as reformas com todos os esforços voltados para o coronavírus. Isso sem contar com a possibilidade de suspensão das atividades parlamentares para conter a contaminação entre deputados e senadores.

A janela, infelizmente, estreitou-se, deixando incógnitas quanto à possibilidade de crescimento robusto no Brasil. Flexibilizar teto de gastos não é uma opção, é irresponsabilidade, e o orçamento engessado impede que o estado brasileiro incentive o crescimento. Uma possível frustração de receitas em 2020 – devido à desaceleração – acarretaria a revisão da meta primária ao ano. Definitivamente, uma conjuntura complexa que pode atrasar mais ainda a volta do país ao nível econômico pré-crise.

Assim sendo, entendo que o mundo passa por uma verdadeira prova de fogo e que o Brasil ainda adiciona contornos dramáticos à situação. Diferentemente de 2019, o governo lida com um cenário delicado. Superar com responsabilidade a crise do coronavírus é imprescindível para mitigar seus efeitos sobre as economias globais e, também, a nossa.

Não sou economista e espero estar enganado, mas acredito que o coronavírus ainda vai fazer algum estrago nos países e que o Planalto terá dificuldades em agir de maneira prudente e cirúrgica para contornar a situação. Por isso, arrisco dizer que o crescimento econômico brasileiro para 2020, infelizmente, ficará entre 0 e 0,5%.

Um abraço e se cuidem,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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