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O som das liras – ou dos Liras – da política brasileira

Arthur Lira nasceu em Maceió, capital do Estado de Alagoas, no dia 25 de junho de 1969. Filho de Benedito de Lira, político com mais de 25 anos de carreira na política brasileira, em Brasília, Arthur já coleciona dois mandatos como deputado federal por Alagoas e, atualmente, exerce seu terceiro mandato.

Lira é conhecido tanto pelas suas controvérsias quanto pela sua habilidade política: hoje, o deputado é líder do Progressistas (antigo Partido Progressista [PP]) na Câmara, sigla que o acolhe desde 2009, quando ainda era deputado estadual. O Partido Progressista, por sua vez, é conhecido por ser um dos maiores partidos do grupo de legendas de pouca identidade ideológica e muito fisiologismo, o chamado “Centrão”.

O deputado, inclusive, não tem vergonha de se identificar como membro deste grupo. Em recente discurso no Plenário da Câmara, reiterou que o centro, ou Centrão, sempre deu “[…] a qualquer governo, com muito equilíbrio, o sustentáculo às aprovações necessárias, tanto para matérias econômicas como para matérias sociais”.

Foi Lira, junto com outros líderes da Câmara, que conduziu as negociações em torno da votação da Medida Provisória (MP) 936/20. A MP permite que salários sejam reduzidos junto com a jornada de trabalho, ou que contratos trabalhistas sejam suspensos, durante o estado de calamidade pública relacionado ao coronavírus. É a primeira Medida em discussão que não versa estritamente sobre a Covid-19.

 

A votação, que ocorreu na quinta-feira (28), era importante por permitir a análise de como a nova base aliada ao governo, composta também pelo Centrão, se comportaria. O que foi visto foi esse grupo na linha de frente (Lira estava lá) da agenda do governo e a aprovação de quatro destaques de interesse do Planalto. Uma mudança no texto original, feita pelo relator Orlando Silva (PCdoB-SP), que ampliava a base de cálculo na compensação, foi derrubada pelo governo e pelo Centrão.

No início da semana, pela primeira vez desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência, a liderança do governo da Câmara dos Deputados – na figura do deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO) – reuniu líderes partidários para oficializar o apoio de novas siglas, compondo finalmente uma base governista formal. Lira estava presente, pelo Progressistas. Outro influente deputado, Jhonatan de Jesus, representava o Republicanos (antigo PRB). Na lista de siglas, também estavam representados por líderes o Patriota, o PSC, o PTB, o PSD e o Pros. O PL (antigo PR) e o Avante também fazem coro ao grupo, apesar de que seus líderes não estiveram presentes na ocasião.

Nos bastidores, o que se comenta é que Lira se tornou uma espécie de líder informal do governo. O atual líder é Vitor Hugo, mas ele aparece cada vez mais como uma figura decorativa no processo político. Os mais desconfiados (meu caso) leem nas entrelinhas: com medo de uma repercussão negativa sobre todo esse “toma lá, dá cá”, pode ser que Bolsonaro, apesar de ter escolhido deixar Vitor Hugo no posto, sorrateiramente tenha transferido as atribuições do líder a Lira. O deputado alagoano já almeja voos maiores: atualmente, ele se movimenta para concorrer, em fevereiro de 2021, à presidência da Câmara, quando o mandato do atual presidente, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chega ao fim. Não será surpresa se o governo apoiar seu nome para o pleito.

A nova aliança, claro, tem o preço já conhecido por todos os presidentes que se sentaram à cadeira, principalmente desde 1988. Bolsonaro terá de engolir o orgulho e se sentar para conversar com líderes como Ciro Nogueira, presidente do PP, ou Valdemar Costa Neto, presidente do PL, antes de definir nomes para cargos disponíveis daqui para a frente. Faz parte do jogo da política brasileira – jogo esse que o presidente adiou ao máximo, mas ao qual agora, inevitavelmente, deve ceder.

Após quase um ano e quatro meses negando o tradicional jogo político do presidencialismo de coalizão, o Planalto agora muda sua estratégia e busca formar uma coalizão mais ampla para promover sua agenda. É bem verdade que existiram avanços nas pautas do governo mesmo sem uma base aliada, mas também é verdade que o modelo apresentava, do ponto de vista pragmático, limitações – como, por exemplo, a necessidade de negociação da agenda ponto a ponto, no “varejo”.

Arthur Lira não é relevante somente pelo seu pragmatismo, pela sua habilidade e sua influência no Congresso. Ele representa um grupo que – gostemos ou não – está presente em Brasília e tem bastante peso na política brasileira. São mais de 200 “Arthur Liras” só na Câmara, todos agora muito importantes ao governo e seus planos. Na votação da MP 936, ficou claro que o governo ficou satisfeito com o resultado, assim como também ficaram satisfeitos os parlamentares das siglas cortejadas, ao longo deste último mês, com cargos de segundo escalão e terceiro escalão do Governo Federal. A coalizão com os partidos de centro rende frutos para ambas as partes. Assim, ela deve continuar daqui para a frente: Bolsonaro precisa do Centrão – e vice-versa.

Um abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br.

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