Política sem Aspas

Conclusões precipitadas

Logo após a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, muito se aventou sobre uma eventual deserção de quadros-chave do governo, caso do ministro da Economia, Paulo Guedes, da ministra Tereza Cristina (DEM-MS) e até mesmo da ala militar como um todo.

Em momentos de alta incerteza, como foi a última sexta-feira (24 de abril), qualquer ruído acaba se misturando com os acontecimentos que, de fato, alteram a conjuntura política de alguma forma. Como já explorei no texto do fim de semana passado, a política brasileira não passou inerte pela saída de Moro do governo, e as consequências de tal saída ainda deverão aparecer daqui para a frente, alterando o balanço de forças políticas para um novo equilíbrio.

Dito isso, é importante encarar os outros rumores por meio de um exercício de racionalidade, cujo objetivo é ponderar as reais possibilidades de eles serem reais – ou se tornarem realidade. Em outras palavras, havia motivos para algum outro ministro (notadamente Guedes e Tereza Cristina) deixar o governo após Moro? É de interesse dos militares abandonar o poder, rompendo com Bolsonaro?

Comecemos pelo mais fácil: os militares. Atualmente, dos 22 ministérios (ou secretarias com status ministério), oito são ocupados por militares da reserva ou da ativa. Isso sem levar em conta o vice-presidente, Hamilton Mourão. Com tamanho envolvimento, o grupo detém bastante influência na tomada de decisões, muitas vezes se sobressaindo em relação a outras alas, como a econômica, a ideológica e – conforme já abordei – a recém-debandada ala lavajatista.

Assim, não faria sentido a ala militar romper com Bolsonaro estando na posição em que se encontra. Inclusive, conforme vai se isolando politicamente, o presidente acaba por dar cada vez mais espaço a generais e almirantes em cargos de alto escalão, os quais antes eram preenchidos por outros membros. A Casa Civil, ministério historicamente responsável pela articulação política, hoje é ocupada pelo General Braga Netto – em detrimento do deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que foi realocado para o Ministério da Cidadania.

Em seguida, vale analisar o caso da ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Filiada ao Democratas, partido com maior representação ministerial no governo Bolsonaro (Onyx também é do DEM, assim como o ex-ministro Mandetta), a deputada foi aconselhada por quadros do seu partido a deixar o governo

De perfil discreto, a ministra vem sendo elogiada pelo seu trabalho à frente da pasta de Agropecuária, uma das mais importantes do País. A deputada conta com o apoio maciço da bancada ruralista, sendo o elo entre o governo e esta frente parlamentar. Tereza Cristina foi, inclusive, a responsável por contornar o recém mal-estar diplomático criado entre Eduardo Bolsonaro e o governo chinês – por conta do coronavírus.

Ocorre que o DEM e o governo vêm se desentendo após o episódio da demissão do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. A saída do médico (no meio de uma pandemia) representou o rompimento do governador de Goiás e um dos líderes do partido, Ronaldo Caiado, com o Planalto. Caiado era ligado à ala mais governista do partido, que disputava espaço sobre as diretrizes da sigla com a ala mais independente – liderada por Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, ACM Neto e outros quadros. Em função dos atritos e da saída de Moro, alguns locutores defenderam a saída da ministra do governo para preservar sua imagem e a do partido.

Deixar o governo não seria de todo mal para Tereza Cristina. Ela continuaria como protagonista dentro do seu escopo de atuação, podendo voltar à Câmara dos Deputados por ter sido reeleita em 2018 pelo estado do Mato Grosso do Sul. A própria ministra teria ficado incomodada com ataques sofridos nas redes sociais por ela ser do mesmo partido de Rodrigo Maia.

No entanto, o presidente sabe da importância do apoio dos ruralistas e fez questão de reforçar sua confiança na ministra logo após o estresse político da última sexta. Bolsonaro reforçou que não pensa em substituir Tereza Cristina, tanto que a ministra era uma das presentes na conversa, que ocorreu na última segunda-feira (27), de Bolsonaro e Paulo Guedes com jornalistas na porta do Palácio da Alvorada. Em resumo, também parece improvável que a representante do agronegócio deixe o governo, apesar do ambiente mais conturbado.

Por fim, chegamos ao elemento mais importante para o mercado financeiro: Paulo Guedes. A combinação entre a apresentação do Plano Pró-Brasil, feita na semana passada pela Casa Civil, e a demissão de Moro deu a falsa impressão de que o pilar da economia também tinha prazo de validade – e dos curtos.

Sob uma perspectiva racional, porém, nada indica que o ministro da Economia vá abandonar o barco – pelo menos por ora (digo por ora porque ninguém sabe o dia de amanhã, nem mesmo o mais governista dos políticos).

Vejamos: o estopim da crise entre Moro e o presidente envolvia a interferência direta no trabalho do então ministro. Mais que isso, havia componentes éticos permeando a decisão do juiz – conhecido pelo seu histórico na Lava Jato. Para complementar, ao contrário de Guedes, Bolsonaro já tinha desautorizado o juiz em ocasiões pontuais no passado. Com o ministro da Economia, o presidente faz questão de mencionar o “posto Ipiranga”, ressaltando a confiança que tem em Guedes e automaticamente apoiando seus projetos, com raras exceções (o regime de capitalização na reforma da Previdência foi uma delas).

Além disso, a suposta guinada desenvolvimentista do governo, que ocorreria por meio de um plano de investimento público para o curto, médio e longo prazos – o tal do Pró-Brasil –, parece distante. Verdade seja dita: o próprio plano apresentado pela Casa Civil não passou de alguns slides, extremamente superficiais, sobre a superação da crise pela ótica econômica– uma espécie de “catadão” de boas intenções. Em um aspecto, porém, há de se concordar: as premissas vão mesmo na contramão do pensamento econômico liberal.

Se o próprio plano é incipiente, parece ainda mais precipitado inferir que o liberalismo econômico chegou a seu fim no governo Bolsonaro. Ao que tudo indica, inclusive, o plano já está em fase de reajuste após o ministro da Economia demonstrar sua insatisfação.

Ademais, se Paulo Guedes acreditava que podia reformar o Brasil, agora o desafio ficou ainda mais complexo. Deixar o cargo agora é jogar a toalha antes mesmo de a luta começar. Enfim, para o alívio de muitos investidores, e como o próprio presidente reforçou ao lado do ministro, Guedes fica. Não só fica, como manda – diferentemente da experiência que Moro teve.

A pergunta a se fazer (e que muitos, no mercado, não fazem) é: será que somente a permanência e os ímpetos do economista bastam para realizar as necessárias reformas fiscais e de produtividade no País? Pergunta cuja resposta, para a provável decepção do leitor, é negativa, na minha opinião. Mas isso é tema para uma próxima coluna.

Um abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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