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Já tem ministro na corda bamba

No final de 2016, Renan Calheiros (MDB-AL) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS) protagonizaram uma das cenas mais estapafúrdias (e olha que já tivemos várias) da política brasileira. Nas discussões sobre o pacote anticorrupção, cujo relator era o então deputado Onyx Lorenzoni (o citado ministro na corda bamba), Renan Calheiros – à época presidente do Senado Federal – criticou duramente as medidas do pacote e acusou Onyx de receber caixa dois da indústria de armas.

Não satisfeito, Renan chamou o deputado de Onyx Lorenzetti, fazendo referência à famosa marca de chuveiro em claro tom de deboche. O episódio teve enorme repercussão, inclusive na internet que aproveitou da pérola para criar e compartilhar diversos memes. O democrata oficializou um processo contra o emedebista, que posteriormente foi arquivado. O Congresso esqueceu, mas nós não.

Em 2019, definitivamente não dá para dizer que os dois saíram de cena na política. Renan é novamente forte candidato para a Presidência do Senado, enquanto que Onyx ocupa um dos mais importantes cargos do Executivo Federal: a chefia da Casa Civil do Brasil. Nesse ano, podemos ainda ver um reencontro dos dois. Hoje, pretendo fazer um raio-x desta figura polêmica e tão central do novo governo.

Rapidamente para quem não é familiarizado, a Casa Civil é basicamente o braço direito da Presidência da República. O órgão funciona dentro do Palácio do Planalto e é responsável por coordenar e integrar as ações do governo, avaliar e monitorar as mesmas ações, e também articular diretamente os interesses do executivo com o Congresso.

Logo, se Onyx é o ministro-chefe da Casa Civil, podemos esperar dele grandes poderes, mas também exigir grandes responsabilidades. Benjamin Parker alertou o jovem Homem-Aranha sobre como suas escolhas no início de sua aventura interferem seu julgamento para o resto da vida. Sendo bastante racional, espero que Onyx tenha um Ben Parker pelo menos nestes 4 anos de governo.

Por que digo isso? Porque o novo ministro vem, desde a campanha de seu presidente, esbarrando em situações polêmicas e, no mínimo, desconfortáveis para a imagem de Bolsonaro.  

A começar pelas saias justas envolvendo movimentações suspeitas e até caixa 2: nesta semana, jornais revelaram que o deputado usou 80 notas fiscais de uma empresa de consultoria de um amigo de longa data, recebendo R$ 317 mil em verbas de gabinete entre 2009 e 2018. Onyx nega qualquer irregularidade.

Outro caso, também de destaque, foi com a delação da J&F envolvendo seu nome por receber caixa 2 em 2012 e 2014. Nesse evento, Lorenzoni admitiu ter recebido R$100 mil em 2014 (valor menor do que estimado na delação) e tatuou uma frase bíblica para lembrar do “dia em que errou”.

O novo ministro acredita que seu histórico e outros argumentos circunstanciais irão absolvê-lo. É bom que tenha muita fé em sua versão, já que o ministro do STF Edson Fachin autorizou a abertura de petição para apurar as acusações de caixa 2 em 2019. Se a tensão aumentar, de duas, uma: ou Onyx será exonerado, ou o governo terá de absorver o revés político.

Ainda que ignorássemos os deslizes morais de Lorenzoni (o pior cego é aquele que não quer ver), a preocupação continua pairando pelo ar. Isto porque Onyx vem batendo cabeça no exercício de sua função – e não é de hoje.

Temos alguns episódios para relembrar: mais recentemente, o desentendimento com Paulo Guedes acerca do IOF, a “despetização” de sua pasta e a tentativa de pacto com a oposição. Na época da campanha e da transição de governo, teve atritos com aliados de Bolsonaro por conta de disputas pela coordenação política.

Destaque para a queda de braço logo na primeira semana do novo governo entre o deputado e o ministro da Economia, Paulo Guedes. O anúncio da elevação do IOF, feito pelo presidente, denotou um desencontro de ideias entre os dois núcleos do Executivo – Onyx desmentiu o presidente afirmando que não havia nenhuma possibilidade de se aumentar impostos, ao passo que Guedes e sua equipe estudavam, sim, a medida e tiveram que recuar. Na outra ponta, há indícios que o apoio do PSL a Maia tenha sido articulado por Guedes. Lorenzoni apresentava resistência ao nome do DEM.

Após a repercussão dos desconfortos, Guedes e Lorenzoni foram fotografados almoçando em tom conciliador. No retrato, copos d’água, dois pratos, azeite, vinagre e um suco meio alaranjado, meio amarelado – com certeza menos amarelo que os sorrisos dos dois.

Fica claro que o chefe da Casa Civil não é exatamente discreto. Não há problema algum em estar sempre sob os holofotes, inclusive sendo necessário na posição em que Onyx se encontra. No entanto, as recorrentes escorregadas devem ser controladas porque são custosas ao capital político de Bolsonaro. Não estranha, nesse contexto, saber que alguns já se manifestam pela saída do recém-chegado.

Ainda é cedo para cabeças rolarem, mas o ministro na corda bamba Onyx Lorenzoni precisa ir para o divã. Afinal, estamos falando de política e fica difícil acreditar que os desentendimentos tenham sido fruto somente da falta de comunicação. Suspeito que o ministro, dada a personalidade forte, não vá querer rever suas atitudes. Aí sim, teremos a queda do primeiro cavaleiro de Bolsonaro.

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