Levante Ideias - Domingo de Valor

Petrobras vai além dos números

A Petrobras surpreendeu positivamente os investidores na noite da quarta-feira (04). A estatal petrolífera divulgou um resultado muito melhor do que o esperado. Começando pela última linha do balanço. O lucro líquido foi de 42,85 bilhões de reais. Para comparar, o lucro no primeiro trimestre havia sido de 1,17 bilhão de reais, o que indica um crescimento de 3.572 por cento (sim, mais de três mil por cento). Não é possível fazer uma comparação com o segundo trimestre do ano passado, pois a Petrobras havia amargado um prejuízo de 2,71 bilhões de reais.

Um analista mais crítico sempre pode argumentar que o lucro é uma variável mais “subjetiva”. As aspas aqui não indicam qualquer irregularidade ou má-fé. Porém, a última linha do balanço pode ser influenciada por decisões contábeis como a alteração de critérios de endividamento, ou por eventos não-recorrentes, como mudanças na tributação, apenas para ficar em dois exemplos. No entanto, a Petrobras também surpreendeu no faturamento, a mais “objetiva” das variáveis. Sua receita líquida no segundo trimestre foi de 110,1 bilhões de reais, alta de 28,5 por cento ante o trimestre anterior, e de 117 por cento em relação ao mesmo período do ano passado. No primeiro semestre a empresa faturou quase 200 bilhões de reais e lucrou quase 44 bilhões de reais, uma margem de mais de 22 por cento.

Não foi uma surpresa, portanto, que as ações da estatal tenham disparado no primeiro pregão após a divulgação. Na quinta-feira (05), as ações ordinárias (PETR3) chegaram a subir 12 por cento, para fechar com uma alta de 9,6 por cento. As preferenciais (PETR4) avançaram 7,9 por cento. E ambas, preferenciais e ordinárias, mantiveram-se nesses patamares no pregão da sexta-feira (06).

Volta dos dividendos

O que motivou a euforia de muitos investidores foi a possibilidade de a Petrobras “fazer as pazes” com os acionistas minoritários. Ao mesmo tempo em que divulgou os resultados, a estatal anunciou que vai antecipar o pagamento de 31,6 bilhões de reais em dividendos referentes ao exercício de 2021. O valor é quase o triplo da média paga pela empresa nos últimos três anos.

Pode isso? A política de dividendos da Petrobras estabelece que ela pode distribuir como proventos o equivalente a 60 por cento da diferença entre o obtido como fluxo de caixa operacional e o gasto com investimentos, desde que a estatal cumpra uma condição: sua dívida bruta tem de ser menor do que 60 bilhões de dólares.

No segundo trimestre, a dívida bruta estava em 63,7 bilhões de dólares. Com a amortização de 54,8 bilhões de reais em dívidas no trimestre, a companhia alcança o patamar de 1,49 vezes na alavancagem financeira (Dívida Líquida / Ebitda), menor patamar desde o 3T11, em um dos picos do ciclo de petróleo no mundo. O pagamento confere um retorno sobre as ações (Dividend Yield) de 9,1 por cento considerando o preço de fechamento em 4 de agosto.

Ao comentar os resultados, o presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, disse que a meta é baixar esse número para abaixo de 60 bilhões de dólares ainda neste ano. A previsão anterior era atingir esse resultado apenas em 2022. Então, a Petrobras pode, sim, pagar esse dividendo acima da média, que vai além do mínimo obrigatório previsto na Lei das S.A.

Risco político

Ao que tudo indica, os preços internacionais do petróleo devem permanecer elevados, o que garantirá os bons resultados das empresas petrolíferas ao redor do mundo por mais algum tempo. No caso específico da Petrobras, espera-se uma taxa de câmbio favorável à empresa. Com uma gestão comprometida em vender ativos menos estratégicos (como a BR Distribuidora e várias das refinarias), em reduzir o endividamento e em concentrar esforços nas áreas “nobres” de prospecção e extração de petróleo e gás natural, aparentemente a Petrobras é uma escolha certeira para uma boa pagadora de dividendos, certo?

Vamos com calma. A companhia sem dúvida divulgou um resultado positivo. E a gestão de Silva e Luna não comprometeu, pois manteve as principais diretrizes da administração anterior de Roberto Castello Branco, que visavam reorientar a estatal em direção à lucratividade. No entanto, quem tem um pouco de experiência sabe que o futuro nas empresas estatais é algo imprevisível.

Logo no dia seguinte à divulgação dos resultados, o time de analistas da Levante Ideias de Investimentos escreveu que a notícia “começa a acender cada vez mais o alerta de quem já viu um uso inapropriado do balanço da Petrobras para fins de política pública e promoção eleitoreira”. Não podemos nos esquecer de que ainda há pressões de grupos politicamente relevantes, como os caminhoneiros, que recentemente ensaiaram algumas greves, sem sucesso.

Há também os problemas fiscais do governo, atarantado com a possível fatura de 90 bilhões de reais em precatórios prevista para o ano que vem. E a necessidade de recuperação da popularidade do atual governo em preparação às eleições de 2022, com possíveis bônus adicionais ventilando um possível bônus adicional ao Bolsa Família, com recursos provenientes de dividendos e vendas de estatais (tudo isso contabilizado fora do teto de gastos), além de subsídio ou mecanismo de controle de preços de combustíveis e gás na ponta consumidora, financiado com recursos das atividades lucrativas da estatal.

Para provar que os analistas da Levante não estão preocupados sem razão, na sexta-feira (06), durante um discurso a empresários em Joinville (SC), o presidente Jair Bolsonaro disse ter sugerido a Silva e Luna que seja estudada uma possibilidade de não reajustar os preços dos combustíveis quando houver variações nas cotações do dólar e do barril do petróleo. “Não posso interferir na Petrobras, porque é uma estatal. Mas dá vontade de chegar em um acordo, porque toda vez que diminui cinco centavos no preço da gasolina não desce nada na bomba. Quando somos obrigados a aumentar um centavo, aumenta na bomba”, disse Bolsonaro. “Eu falei, vamos estudar a possibilidade de a gente não mexer no preço do combustível quando o dólar cai aqui dentro e [quando] o preço do barril lá fora cai.”

Consistente ou não, a proposta vai na linha de atuar de maneira não-econômica quando os preços do petróleo sobem muito. Propostas desse tipo podem até ser pertinentes, em especial em um país tão grande e tão dependente do transporte rodoviário como o Brasil. Porém, isso representa risco de intervenção. Por isso, embora a Petrobras atue em um setor considerado estratégico para o país, o uso de seu balanço para realizar políticas públicas paliativas e populistas ainda é um risco relevante a ser monitorado, podendo pegar os acionistas (no momento muito felizes, e com razão) no contrapé, como ocorreu em 2014. Por isso, a recomendação é permanecer fora das ações da estatal.

Abraços,

Equipe Levante.

Leia a última coluna do Domingo de Valor para ficar por dentro da Bolsa: Quando os banqueiros centrais discordam.

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