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O risco internacional está maior | Domingo de Valor

O segundo semestre começou com uma deterioração das expectativas nas principais economias. A principal causa são as variantes do coronavírus, que podem tornar mais lenta e incerta a retomada da atividade econômica. Na terça-feira (06), o governo japonês lançou um balde de água gelada na animação dos Jogos Olímpicos, ao estabelecer um estado de emergência em Tóquio. Agora, os Jogos, que começam no próximo dia 23 de julho, serão realizados sem público.

Além de provocar um prejuízo direto para os organizadores, a decisão é um péssimo sinal para os empresários em geral. As expectativas que valiam até o início desta semana eram de que as piores fases da pandemia já haviam passado, e que o segundo semestre seria um período de normalidade econômica, ou quase. Agora, a volta de medidas de isolamento social decorrentes de novas cepas do coronavírus mostra que a tese de normalidade é frágil e que o perigo ainda não passou.

O raciocínio é simples. Em economia, o efeito de qualquer medida é cumulativo. Isso vale para políticas de estímulo e para políticas de contenção. Pensando nas medidas de isolamento social como uma política de contenção ampla (e não desejada), sua volta em 2021 terá consequências mais severas do que as de 2020. Para fazer uma comparação médica: as empresas que enfrentaram as medidas de restrição no ano passado e tiverem de enfrentá-las novamente são como doentes que sofrem uma segunda contaminação e já estão enfraquecidos. A mortalidade será muito maior.

A situação já seria bastante ruim se o único risco fosse uma volta das medidas de isolamento. Porém, há problemas novos no cenário. Ao longo das três últimas décadas, as relações comerciais entre Estados Unidos e China sempre foram complicadas, pois ambos os países são concorrentes e mutuamente dependentes. A economia americana não vive sem os produtos chineses, e o enorme parque fabril chinês ficaria ocioso se tivesse de atender apenas o mercado interno. Por isso, periodicamente a águia e o dragão mostram as garras e tentam endurecer a relação.

Foi o que ocorreu nesta semana. Após alguns meses de distensão no início do governo de Joseph Biden, as autoridades em Pequim resolveram flexionar seus músculos. Reflexo, talvez, da comemoração do centenário do Partido Comunista Chinês, que se confunde com o Estado e cujas lideranças resolveram fazer uma demonstração de força. No domingo (04), o governo chinês proibiu as lojas de aplicativos de vender o app da empresa de mobilidade urbana Didi, que havia listado suas ações na Nasdaq poucos dias antes. E, na terça-feira (06), o Conselho de Estado chinês, um dos órgãos mais altos da hierarquia, divulgou um comunicado em que prometia endurecer a fiscalização sobre as empresas de tecnologia que listassem suas ações no mercado americano. A intenção, disse o comunicado, era garantir a “segurança dos dados” chineses.

Para não ajudar, o Departamento do Trabalho americano divulgou o resultado semanal dos pedidos de seguro-desemprego da semana encerrada no sábado (03) mostrando um aumento dos pedidos para 373 mil, alta de 4 mil em relação aos 369 mil pedidos da semana anterior. Os prognósticos eram de, no máximo, 350 mil pedidos.

Foi o suficiente para lançar uma nuvem de desconfiança no mercado. As ações recuaram fortemente na quinta-feira (08) ao redor do mundo e o rendimento dos títulos de dez anos do Tesouro americano caiu para os menores níveis desde fevereiro deste ano, mostrando uma migração para ativos de menor risco, em vez dos que prometem mais rentabilidade.

O que esperar para as próximas semanas? Com certeza, a alta de riscos deverá cobrar um preço dos investidores, e vai demorar um pouco para os mercados acionários registrarem recordes atrás de recordes. No curto prazo a volatilidade vai aumentar. Os investidores vão observar com lente de aumento cada um dos indicadores econômicos e analisar cada vírgula das declarações dos banqueiros centrais, à procura de indicações para o comportamento futuro das medidas de estímulo – liquidez e juros. Porém, voltemos ao que dissemos há pouco: em economia, as medidas têm um efeito cumulativo e a liquidez permanece elevada. Assim, ainda há uma quantidade exponencial de capital em circulação à procura de rentabilidade. Quando o temor passar, essa entidade chamada mercado voltará a investir e a buscar o lucro.

Abraços,
Equipe Levante

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