Levante Ideias - Domingo de Valor

O risco aumentou, mas as empresas na Bolsa vão bem | Domingo de Valor

Na coluna de hoje irei falar sobre algumas medidas de risco no mercado financeiro: risco-país, taxas de juros futuros (Brasil e Estados Unidos) e índice do medo VIX. Além disso, farei um balanço do primeiro trimestre de 2021, com os retornos das principais classes de ativos no mercado de renda variável (ações).

Como eu costumo dizer: “os momentos de incerteza e volatilidade no mercado financeiro são sempre uma aula sobre risco para todos os investidores.”

Cenário local

Na minha opinião, tivemos acontecimentos importantes no primeiro trimestre de 2021 que aumentaram o risco Brasil: i) interferência política nas estatais (Banco do Brasil, Eletrobras e Petrobras); ii) decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)  anulando a condenação do ex-presidente Lula, que entrou de vez nas eleições presidenciais 2022; iii) deterioração das contas públicas, sem cortes de gastos e com aumento do auxílio emergencial, gerando um orçamento para 2021 praticamente inexequível; e iv) lenta evolução da vacinação no Brasil, segundo lockdown com números recordes negativos de mortes e infecções por Covid-19.

Aumento no risco doméstico

Os eventos descritos acima tiveram os seguintes impactos nas métricas de risco: i) o risco Brasil, medido pelo CDS, aumentou 82 pontos base para 225 pontos base; ii) as taxas futuras de juros (DI) com vencimento em 2030 subiram de 7,1 por cento para 9,1 por cento ao ano, aumento de 200 pontos base.

Domingo de Valor - Curva do DI Futuro

O aumento do risco Brasil veio em linha com a subida da taxa dos títulos do Tesouro americano com dez anos de prazo (aumento de 81 pontos), mas as taxas de juros futuras no mercado local (DI 2030) subiram bem mais (aumento de 200 pontos), reflexo da percepção da deterioração das contas públicas e da dificuldade de aprovação das reformas administrativa e tributária.

Medidas de risco para o mercado de ações

Existem quatro medidas principais de risco para avaliar o apetite e/ou o medo do investidor em relação ao investimento em ações: 1) volatilidade de índices de ações, com destaque para o índice VIX, que mede a volatilidade do índice de ações americano S&P 500; 2) a quantidade de procura pelos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, que determina o retorno da aplicação financeira “livre de risco”; 3) a evolução do risco Brasil (CDS de 5 anos); e 4) as taxas futuras de juros (DI) no mercado doméstico.

Índice VIX: volatilidade das ações

O Índice VIX é uma medida popular da expectativa de volatilidade do mercado de ações implícita nas opções do índice S&P 500 nos Estados Unidos. Ele é calculado e divulgado em tempo real pela Bolsa de Opções de Chicago e é geralmente chamado de “índice do medo” ou “medidor de medo”.

Quanto mais altos forem os números do VIX, maior a volatilidade das ações que compõem o S&P500 e maior a incerteza global entre os investidores.

Domingo de Valor - Índice Vix

O VIX partiu do nível de 40 pontos em outubro de 2020, antes da eleição do presidente Joe Biden, para atingir patamares mais comportados de 20 pontos em março de 2021, em linha com a média histórica. Podemos dizer que o pior momento do VIX ficou para trás no início da pandemia em março de 2020,  quando foi acima de 80 pontos.

Atualmente, o VIX está em 19 pontos, o que implica em uma volatilidade anualizada de 19 por cento para as principais ações da Bolsa dos EUA.

Taxa livre de risco: títulos de dívida dos EUA

Os preços dos títulos da dívida norte americana (Treasuries) com vencimento em dez anos apresentaram desvalorização no primeiro trimestre de 2021, com o retorno médio (yield) subindo de 0,92 por cento no fim de dezembro de 2020 para1,73 por cento no fim de março, um aumento de 81 pontos base.

Domingo de Valor - Título 10 anos EUA

Neste caso, o aumento na taxa significa uma queda nos preços dos títulos devido à menor procura por ativos considerados sem risco, o que representa um movimento mundial de redução da aversão ao risco devido ao excesso de liquidez, com recursos do Banco Central dos EUA (FED) e o pacote auxílio de 2 trilhões de dólares do Congresso norte-americano.

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Risco-país

O grau de risco do Brasil é medido pelos Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil, uma medida de risco que quantifica a probabilidade de o Governo brasileiro “dar calote” na dívida externa.

Domingo de Valor - CDS Brasil

O risco Brasil, medido pelo CDS de cinco anos do Brasil, saiu do patamar de 143 pontos no fim de dezembro de 2020 e subiu para 225 pontos no fim de março, aumento de 82 pontos base.

O risco-país é uma métrica importante no cálculo da taxa de desconto (custo de capital) que investidores utilizam para calcular o preço justo das empresas brasileiras na Bolsa. Quanto maior for o risco-país, maior será o custo de capital (tudo o mais constante) e, portanto, menor será o valor justo – calculado pelo fluxo de caixa descontado – da empresa.

Taxa de juros futura (DI)

A taxa de juros futura é a referência de retorno livre de risco no mercado doméstico. Ou seja, é o custo de oportunidade ao se avaliar os investimentos em projetos de risco. Em resumo, o custo de capital de uma empresa na bolsa de valores é função de duas variáveis: taxa livre de risco e o prêmio de risco de mercado (ERP), ponderado pelo beta da ação.

A alta da taxa de juros futura, com a inclinação da curva de juros, definida pela diferença entre a taxa de juros futura (DI 2030) e a taxa Selic (CDI) de curto prazo, demonstra a desconfiança do mercado em relação ao controle da inflação e das contas públicas.

Balanço de março de 2021 na Bolsa

Apesar de toda a volatilidade na Bolsa no primeiro trimestre de 2021, eu destaco o bom desempenho dos índices de ações na B3 em março: alta de 7,6 por cento no índice de dividendos (IDIV), valorização de 6 por cento no Ibovespa e ganho de 4,6 por cento no índice de Small Caps (SMLL).

Destaque para o investimento em ações americanas através do BDR de S&P500 (IVVB11), que teve alta de 5,3 por cento em março.

Domingo de Valor - Balanço de Março

 

Resultados 4T20/2020

A temporada de resultados do quarto trimestre de 2020 foi bastante positiva, com mais de 75 por cento das empresas do Ibovespa divulgando números acima do esperado.

O lucro das empresas de capital aberto (exceto Vale e Petrobras) no quarto trimestre de 2020 subiu mais de 100 por cento em relação a 2019, aponta levantamento da Economatica. Por outro lado, no acumulado do ano, a queda foi de 36,8 por cento, com impacto principalmente da variação cambial.

A receita líquida das empresas no quarto trimestre de 2020 atingiu 543,7 bilhões de reais, valor superior ao de 2019 em 19,8 por cento. O lucro operacional (Ebit), obtido antes dos encargos financeiros das empresas (juros e variação cambial), foi de 74,6 bilhões de reais, valor 55,9 por cento superior ao de 2019. O lucro líquido foi de R$ 62,1 bilhões, 102,9% superior ao do ano de 2019.

Dessa forma, acredito que os investidores optaram por não dar muita atenção às turbulências políticas dos últimos dias, ao ambiente macro e o aumento dos índices de risco.

Conclusão

Para terminar, acredito que o “stock picking” (escolha de ações) será ainda mais essencial em 2021 para que o investidor possa ter um bom retorno no seu investimento em ações. Afinal, o Ibovespa não vai dobrar devido ao aumento no risco no mercado, e, mais do que nunca, será necessário procurar boas empresas para investir, para ter retornos acima da média de mercado.

O caminho será buscar as companhias com modelos de negócio sustentáveis e que apresentam resultados sólidos, com preço descontados, ou seja, com margem de segurança definida pela diferença entre o valor justo e o preço de mercado.

Comprar bem ações de empresas boas em setores com perspectivas favoráveis vai possibilitar ao investidor a travessia em um barco para navegar os mares de qualquer mercado, dos dias calmos aos tempestuosos.

Abraços,
Eduardo Guimarães.

Quer aprofundar mais seus conhecimentos sobre a Bolsa de Valores? Então leia minha última coluna: Armadilhas de valor | Domingo de Valor.

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