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O que vale para a Vale, dividendo ou preço do minério? | Domingo de Valor

Entenda o porquê de as ações da mineradora terem caído mesmo com o anúncio de um provento extraordinário

 

A Vale (VALE3) anunciou, na noite da quinta-feira (16), que iria pagar um dividendo extraordinário de 8,10 reais por ação em circulação. Além disso, a mineradora anunciou o cancelamento de cerca de 152 milhões de ações. Os papéis estavam em tesouraria, provenientes do programa de recompra que começou no dia 1º de abril.

O cancelamento representa um dividendo indireto. Com menos ações existentes, o valor de cada uma delas aumenta. Fazendo as contas, o dividendo indireto é de 3,11 reais por ação. Somados, são cerca de 11,2 reais por ação.

Somando o provento extraordinário e o dividendo indireto, a mineradora vai distribuir quase 57 bilhões de reais aos acionistas, sendo 40 bilhões em dividendos e 17 bilhões pelo cancelamento.

Mesmo sem o dividendo indireto, o provento seria extraordinário. A política da Vale de remunerar os acionistas é de distribuir no mínimo 30 por cento da geração de caixa do semestre anterior, descontando-se os investimentos orçados para o ano. Essa geração de caixa é medida pelo indicador Ebitda, que representa os lucros antes dos juros, impostos, depreciação e amortização.

O Ebitda ajustado reportado no primeiro semestre de 2021 foi de 103,9 bilhões de reais, com investimentos previsos de 13,5 bilhões de reais para o ano. Na ponta do lápis, o dividendo mínimo seria de cerca de 27 bilhões de reais. A Vale está adicionando 13 bilhões de reais a essa cifra, sem contar o caixa dispendido na recompra das ações.

 

Entenda as recompras

Para entender por que um programa de recompra de ações significa um retorno indireto ao acionista, vamos analisar sua dinâmica. Nesses programas, a companhia usa sobras de caixa para comprar suas próprias ações em circulação. Sem ter como usar o caixa em sua atividade, a empresa “investe em si mesma”. As ações compradas são colocadas na tesouraria e podem ficar lá por algum tempo ou serem canceladas. Em qualquer um dos casos, a quantidade de papéis em circulação diminui.

Isso provoca dois efeitos. O primeiro é que essas ações não têm direito aos proventos pagos, o que melhora o dividendo para o acionista.

Vamos dar um exemplo. Em 1º de janeiro, a Companhia Gama possuía 100 mil ações em circulação e distribuiu 100 mil reais em dividendos (e não pagou Juros sobre Capital Próprio, os JCP). O provento foi de um real por ação. Durante o ano, em um programa de recompra, ela comprou 10 mil ações e as cancelou. No dia 1º de janeiro do ano seguinte, ela também distribuiu 100 mil reais em dividendos. O provento por ação, nesse caso, seria de 1,11 real por ação, um ganho indireto de 11 por cento.

O segundo efeito é que o cancelamento das ações eleva o valor de mercado de cada ação. Continuando no exemplo da Companhia Gama. Suponhamos que seu valor de mercado seja de 100 milhões de reais. Com 100 mil ações em circulação, o valor de mercado de cada ação é de mil reais. A Companhia Gama recomprou 10 mil ações e as cancelou. O valor de mercado segue em 100 milhões, mas agora dividido por 90 mil ações. Assim, ele subiu para 1.111,11 reais, um ganho de 11,1 por cento.

Como isso eleva o valor das ações, representa também um ganho para o acionista minoritário. Suas ações passam a valer mais e ele têm um ganho de capital. Mesmo que ele não compre mais nenhuma ação, o lote que possui vai representar uma participação maior no capital social da Companhia Gama.

 

Por que as ações caíram?

Saindo das hipóteses e retornando para o exemplo da Vale. Ao anunciar os resultados do segundo trimestre, a diretoria da mineradora divulgou que iria pagar cerca de 27,5 bilhões de reais (5,3 bilhões de dólares) em dividendos ainda neste mês de setembro. Com isso, a estimativa para o dividendo médio de 2021 era de 16 por cento. Com o cancelamento de 152 milhões de ações que estavam em tesouraria e adicionando os dividendos anunciados oficialmente, o retorno médio projetado dos proventos pode chegar a quase 20 por cento.

Um número excelente. Porém, surge uma pergunta: por que, mesmo anunciando esse número, as ações da Vale caíram cerca de 2 por cento na sexta-feira (17), recuando para pouco mais de 86 reais? Os papéis da mineradora vêm recuando sistematicamente nas últimas semanas e saíram de uma máxima de 117 reais por ação para os atuais 86, uma queda de 26,5 por cento.

Há dois motivos para isso. O primeiro é a trajetória de desvalorização das ações, devido aos prognósticos de crescimento menor da economia e ao aumento da percepção de risco dos investidores. Isso reduz os preços das ações como um todo, e como a Vale é a empresa mais negociada da Bolsa, o efeito sobre seus papéis é mais acentuado.

O segundo motivo é a queda das cotações internacionais do minério de ferro. O minério brasileiro tem qualidade superior à média internacional, com 65 por cento de hematita. O padrão internacional é ligeiramente mais baixo, com apenas 62 por cento. Esses três pontos percentuais fazem muita diferença nos milhões de toneladas de rejeitos que deixam de ser processados. Por isso os preços do minério brasileiro são, em média 25 por cento maiores do que o do produto de padrão mais baixo.

Mesmo assim, na quinta-feira (16), a China anunciou uma produção de 83,2 milhões de toneladas de aço bruto em agosto, uma queda de 13 por cento em comparação com agosto do ano passado, e abaixo das projeções. Foi o pior desempenho desde março do ano passado, quando as siderúrgicas chinesas tiveram suas atividades prejudicadas pelo auge das medidas de restrição à pandemia. Os resultados da Vale são influenciados diretamente pelo apetite chinês por minério de ferro.

Mesmo assim, a recomendação do time de analistas da Levante Ideias de Investimentos para as ações da Vale é Comprar. Apesar das dúvidas em relação aos preços do minério de ferro, a geração de caixa da mineradora é robusta, e a Vale consegue ser lucrativa mesmo com o minério de ferro na casa dos 90 dólares. Apesar das baixas recentes, o minério global está sendo negociado acima de 100 dólares e o minério brasileiro com 65 por cento de hematita está a 127 dólares. Ou seja, mesmo com a turbulência do mercado de comodities, a empresa consegue ser competitiva, e as cotações atuais ao redor de 86 reais por ação são um bom ponto de entrada.

E, para acabar: este Domingo de Valor baseou-se em uma edição do relatório Carta do Estrategista dedicado inteiramente ao dividendo da Vale. Se você busca análises precisas, objetivas e assertivas, o Carta do Estrategista é a recomendação ideal para você. Assine e tenha acesso aos raciocínios que servem de bússola nos mares turbulentos do mercado.

Um abraço

Equipe Levante

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