Levante Ideias - Domingo de Valor

IRB: destruição de valor parte 2

Na coluna de hoje irei falar sobre a ascensão e queda do IRB Brasil Re, cujo valor de mercado encolheu R$ 13,4 bilhões em apenas 4 pregões.

Os investidores do IRB foram do céu ao inferno em poucos dias. A  saga teve início em fevereiro, com a carta da gestora de recursos carioca Squadra, que questionou as práticas contábeis da empresa. Depois houve a surpreendente renúncia do presidente do Conselho de Administração. E mais recente capítulo do imbróglio foi  o bizarro episódio envolvendo a Berkshire Hathaway: o CEO e o CFO do IRB afirmaram que o bilionário Warren Buffett havia comprado mais ações da empresa, informação que foi desmentida pelo sábio de Omaha.

O que aconteceu com o IRB Brasil RE em tão pouco tempo?

2019: o ano de ouro

A empresa ganhou o respeito do mercado em 2019 ao entregar resultados cada vez melhores – e que vieram acima do esperado. Lembro-me de acompanhar o consenso para seus resultados e as constantes revisões para cima nas projeções, à medida que a companhia apresentava números mais altos a cada trimestre. Esse foi o principal combustível para o alto retorno do investimento nas ações em 2019: 44,5% de alta, bem acima dos 31,58% do Ibovespa.

Carta da Squadra

Uma gestora de recursos, a Squadra Investimentos, divulgou uma carta no início de fevereiro questionando as práticas contábeis do IRB. Nela, a Squadra trouxe uma análise bem detalhada de pontos importantes em que ela não concordava com a forma de apresentação dos resultados da companhia.

A Squadra acredita que os lucros recorrentes do IRB são menores do que os divulgados pela companhia e que o alto retorno sobre patrimônio líquido (ROE) não é sustentável no longo prazo.

Eu falei sobre o episódio envolvendo a Squadra na coluna de fevereiro (https://levanteideias.com.br/artigos/domingo-de-valor/o-que-aconteceu-com-o-irb/).

A recorrência do resultado líquido da companhia foi questionada e o risco do investimento nas ações do IRB aumentou de forma significativa com as incertezas geradas pelas discussões de práticas contábeis.

Saída do presidente do Conselho de Administração

Depois de uma notícia do jornal O Estado de S. Paulo, começou a circular o boato de que o então Presidente do Conselho, Ivan Monteiro, estaria prestes a renunciar ao cargo.

Diante disso, o IRB negou qualquer intenção de renúncia por parte do executivo no dia 27 de fevereiro. No dia seguinte, a companhia confirmou sua saída, de maneira confusa e atrapalhada.

O modo como tudo foi administrado foi tão estranho que levantou suspeitas à Comissão de Valores Imobiliários (CVM), que  abriu um processo administrativo contra a empresa. Segundo o órgão, Monteiro teria renunciado no dia 20 de fevereiro, mas a empresa divulgou a renúncia apenas no dia 28 de fevereiro.

Warren Buffet: “Nunca tive ações do IRB, e não pretendo ter”

Na última semana, o jornal O Estado de S. Paulo veiculou a informação de que uma das controladas da Berkshire Hathaway – empresa do icônico investidor Warren Buffett – teria comprado ações do IRB Brasil nos últimos dias, triplicando sua posição. A notícia chegou a sustentar a alta das ações do IRB  por alguns dias.

Sem dúvidas, o interesse de uma empresa dessa magnitude traria uma segurança muito grande para o investidor, dado que todo mundo quer ficar ao lado do Buffett na cadeira de acionista de qualquer negócio. É quase um selo de qualidade internacional chancelado pelo “mago” dos investimentos.

Em meio à teleconferência privada com investidores de bancos de investimento (sell side), realizada em 2 de março com o fim de esclarecer a saída do presidente do conselho, o presidente (CEO) e o diretor financeiro (CFO) da companhia teriam confirmado os questionamentos realizados pelos analistas a respeito do interesse e da aquisição das participações acionárias por parte da Berkshire Hathaway.

Esse áudio foi disponibilizado apenas para os clientes da corretora do banco de investimentos que realizou a teleconferência, não sendo disponibilizado para todos os investidores do mercado.

No dia 3 de março, a Berkshire Hathaway desmentiu o IRB e afirmou que não era acionista da empresa, deixando bem claro que nunca teve, não tem e nem teria posição na resseguradora brasileira.

Com isso, as ações fecharam o dia 4 de março com uma queda de 32% (chegaram a cair mais de 40% no dia), com volume financeiro negociado muito elevado (R$ 2,9 bilhões). Além da informação falsa, o mercado certamente leu isso como um aumento do risco de imagem, com a credibilidade da alta administração da empresa indo por água abaixo.

Unfair Disclosure

Em minha experiência como profissional de Relações com Investidores (RI), eu nunca tinha visto uma prática de RI de uma empresa tão em desacordo com os princípios do “fair disclosure”, que busca divulgar, ao mesmo tempo, todas as informações sobre a companhia de maneira igualitária para todos investidores, sem privilégio para alguns.

Erros cometidos pelo departamento de RI da IRB

O IRB não divulgou publicamente nenhuma resposta aos questionamentos da Squadra, nem por meio de um comunicado junto à CVM. Ao invés disso, optou por fazer reuniões privadas (uma apresentação e uma teleconferência) com clientes de bancos de investimentos para rebater os pontos levantados pela gestora.

Depois da segunda carta da Squadra questionando as respostas da empresa, o IRB resolveu fazer uma teleconferência com investidores, mas não houve espaço para perguntas e respostas, nem o áudio ficou disponível no site da empresa posteriormente. Ou seja, se um investidor deixou, por alguma razão, de acompanhar a teleconferência ao vivo, não teve opção de replay para ouvir depois.

Outro erro grave foi o tempo que o IRB levou para comunicar ao mercado sobre a saída do presidente do Conselho de Administração da companhia. Ivan Monteiro renunciou ao cargo no dia 21 de fevereiro, mas a empresa somente informou o mercado sobre sua saída no dia 28 de fevereiro. A carta com a renúncia do presidente do Conselho foi protocolada no Ministério da Economia – com cópia para o IRB. Além disso, a companhia, um dia antes (27 de fevereiro), quando foi questionada pela notícia do jornal O Estado de S. Paulo, negou a renúncia.

No dia 2 de março, uma teleconferência privada com investidores dos bancos de investimento (sell side) foi novamente realizada. Esta serviu para esclarecer a saída do presidente do Conselho e contou com a participação dos principais executivos do IRB (CEO e CFO).

Este episódio envolvendo Warren Buffett foi o cúmulo do absurdo: o CEO e o CFO do IRB afirmaram, na teleconferência, que a Berkshire Hathaway era acionista da empresa, fato que foi depois negado pelo Warren Buffett.

Esse último erro desacreditou fortemente a atual administração da companhia, o que explica a forte queda de até 40% no preço das ações no dia 4 de março.

Conclusão

A principal conclusão é que o risco do investimento nas ações do IRB tornou-se elevadíssimo, principalmente depois do episódio com a Berkshire Hathaway.

O que começou como uma discussão sobre a recorrência dos resultados do IRB apresentada pela Squadra acabou escalando com uma série de erros que colocaram em xeque a credibilidade da alta cúpula da empresa.

Acredito que em nenhum momento a resposta da companhia foi adequada e satisfatória aos pontos levantados pela Squadra, pelo menos no que se refere às melhores práticas de RI, à transparência de informações e ao nível de governança corporativa.

As demissões do diretor presidente (CEO) e do diretor financeiro e de relações com investidores (CFO) foram confirmadas. A troca na diretoria era de fato necessária diante do ocorrido, mas ainda não resolve a situação de falta de credibilidade.

No momento atual (em que a “faca está caindo”), com forte queda no preço das ações do IRB, eu recomendo que o investidor fique longe das ações do da empresa, pois o risco ficou tão alto que é muito difícil mensurar em que nível de preço vale a pena comprar as ações, pois a visibilidade dos lucros do IRB ficou bastante prejudicada.

Um abraço,

Eduardo Guimarães

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