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Como o Banco Central vê a inflação

Relatório Trimestral de Inflação (RTI) mostra que os juros vão permanecer elevados e que uma desaceleração dos preços vai depender bastante do mercado de petróleo

 

Na quinta-feira (16) o Banco Central (BC) publicou sua avaliação sobre a conjuntura econômica mais importante, o Relatório Trimestral de Inflação (RTI). É um texto longo, de 87 páginas. Sua leitura detalhada traz alguns componentes preocupantes para a economia no ano que vem.

O trabalho mais importante do BC é manter a inflação sob controle. Ou seja, calibrar uma das variáveis mais importantes da economia, o custo do dinheiro, para acelerar ou frear o crescimento da atividade. Para isso, espera-se que os especialistas do Banco Central sejam os profissionais que mais entendem de inflação no País. No entanto, a o RTI não permite chegar a essa conclusão.

Até novembro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses está em 10,78 por cento. Logo no início da Segunda Parte, que avalia as causas e as perspectivas para a inflação, o BC confessa ter sido “surpreendido” pela força dos reajustes de preços. Está lá, entre aspas: “a inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, surpreendeu novamente no trimestre encerrado em novembro, situando-se 1,42 ponto percentual acima do cenário básico”.

As causas, segundo o BC, foram principalmente os aumentos dos preços dos combustíveis. No entanto, essa não foi a única causa. “As surpresas inflacionárias foram disseminadas (…) [D]estaca-se a variação dos preços dos bens industriais além do etanol, que avançou em relação ao trimestre anterior.”

O RTI informa que a alta dos preços das passagens aéreas e dos alimentos in natura, devido ao aumento dos preços das commodities e à seca, que afetou a produção agrícola, também pressionaram os índices.

 

A inflação vai baixar?

O BC espera uma queda nos índices de inflação ao longo de 2022. A projeção do Relatório é que o percentual acumulado em 12 meses até fevereiro de 2022 recue para um dígito, caindo para 9,90 por cento. A justificativa é que a alta dos juros, que subiram de 2 por cento ao ano em janeiro para 9,25 por cento em dezembro, seria capaz de desacelerar a economia e frear o aumento dos preços.

É um cenário benigno, otimista até. O problema é que, para que isso se confirme, o BC afirma que é necessário que várias condições se cumpram. Para começar, o próprio Relatório informa que “o recuo projetado da inflação para o próximo trimestre se justifica pela queda substancial esperada nos preços de combustíveis, principalmente em janeiro. Nesse mês também se espera recuo acentuado dos preços de passagens aéreas.”

Dá para esperar isso? Na tarde da sexta-feira (17), o barril de petróleo do tipo Brent, que é a referência para a Petrobras, estava em 73,5 dólares no mercado internacional. É um valor inferior ao pico de 85 dólares no fim de outubro. Porém, em janeiro deste ano, um barril valia 52 dólares. Apesar de o crescimento recente do número de infecções pela variante Ômicron ter reduzido os preços, não se espera que as cotações desabem como ocorreu no início da pandemia. Então, esperar uma queda drástica dos preços dos combustíveis é um cenário bastante otimista e igualmente improvável.

E o próprio Relatório já coloca duas advertências. Primeira: “a inflação de serviços deve se mostrar elevada com normalização de alguns preços, repasse da inflação passada e forte reajuste nas mensalidades escolares em fevereiro.” Segunda: “espera-se alta significativa nas tarifas de transporte público urbano, tendo em vista a alta dos preços dos combustíveis neste ano e a contenção das mesmas em 2020 e 2021, com impacto já nos meses iniciais de 2022”.

 

Empregos e dólar

Boa parte disso decorre da normalização do mercado de trabalho. O desemprego medido pela Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), voltou a cair e recuou para 12,6 por cento no terceiro trimestre deste ano, uma queda de 1,6 ponto percentual em relação ao apurado entre julho e setembro, quando ficou em cerca de 14 por cento. O contingente de pessoas sem trabalho recuou 9,3 por cento, chegando a 13 milhões e meio.

Segundo Relatório, “houve aumento das ocupações formais e informais, em linha com a gradual normalização das atividades”. E isso deve continuar. “[A] população ocupada e a força de trabalho ainda estão em patamares inferiores aos observados antes da pandemia e aos que seriam esperados dado o crescimento demográfico da população em idade de trabalhar. Esse fato está associado à retomada mais tardia das atividades que exigem interação social, que foram as mais atingidas pela pandemia e são intensivas em trabalho”, informa o RTI.

A volta dos empregos é uma bênção, sob qualquer ponto de vista. Nada mais animador do que ver alguns milhões de brasileiras e brasileiros voltando a produzir e, principalmente, a consumir. Porém, o aumento sustentável do consumo eleva a inflação e exige juros ainda mais altos para fazer os preços convergirem para as metas.

Além do aquecimento da demanda provocado pelo aumento do emprego, o cenário-base para a inflação traçado pelo BC considera uma taxa de câmbio projetada subindo a partir de 5,6551 reais, ante os 5,25 reais do Relatório anterior. A trajetória assumida para a moeda leva em conta a paridade de poder de compra, aproximada pelo diferencial inflacionário entre o Brasil e o mundo, cuja melhor proxy é a meta de inflação americana. A moeda americana está ao redor de 5,70 reais, os juros nos Estados Unidos vão começar a subir e não se espera uma melhora drástica na situação fiscal brasileira que justifique uma redução da percepção de risco.

Para os demais componentes a projeção é, em geral, de persistência das pressões inflacionárias. Espera-se que os preços de bens industriais continuem avançando em ritmo alto, tendo em vista a continuidade da pressão dos preços ao produtor e de alguns gargalos de oferta, mas à taxa inferior à observada no trimestre encerrado em novembro.

 

Um panorama para a Selic

No RTI, o BC também divulgou uma trajetória prevista para as taxas de juros. A taxa Selic encerra 2021 a 9,25 por cento ao ano. Deve subir 1,50 ponto percentual na reunião de fevereiro de 2022, 0,75 ponto percentual na reunião de março e 0,25 ponto percentual na reunião de abril, atingindo então um pico de 11,75 por cento em maio do ano que vem.

Os juros só devem começar a cair em outubro de 2022, chegando ao fim do ano em 11,25 por cento. Pelas projeções do BC, no fim de 2023 a Selic estará em 8,00 por cento e, no fim de 2024, terá recuado para 7,00 por cento ao ano, devendo encerrar 2025 nesse mesmo percentual.

A alta da inflação sistematicamente acima do esperado levou a uma desancoragem das expectativas e obrigou o Comitê de Política Monetária (Copom) a correr atrás do prejuízo, realizando uma das maiores contrações da política monetária da história recente. O Copom elevou a taxa Selic para o “território contracionista” da economia e deverá manter os juros nesse patamar por bastante tempo. No entanto, o próprio RTI mostra que a normalização dos índices de preço, na visão do BC, dependerá de circunstâncias muito positivas para a economia. Que não estão garantidas.

Conclusão: pelas condições expostas na edição mais recente do RTI, é provável que haja mais surpresas pela frente, tanto na inflação quanto nos juros. A conferir.

Um abraço, e bons investimentos.

Equipe Levante

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