A coisa mais importante

No texto de hoje, irei falar bastante sobre um dos meus livros favoritos sobre investimentos: The most important thing, de Howard Marks, o famoso gestor de recursos da Oaktree Capital Management.

Na semana passada, Howard Marks fez uma live para falar sobre o caos no mercado financeiro, sobre o impacto disso no mercado de ações e sobre sua visão acerca dos impactos do coronavírus na economia como um todo, especialmente nos Estados Unidos.

Além disso, ele publicou a sua mais nova carta (memo) no dia 31 de março. Em português, seu título é: “Para qual lado agora?”.

Para quem tem afinidade com o inglês, recomendo fortemente a leitura do material do mestre Howard Marks. Aqui, gostaria de compartilhar os pontos mais interessantes da visão dele e dar a minha opinião sobre o momento atual da Bolsa de Valores brasileira.

Comprar no momento de pânico

Concordo com Howard Marks: estamos vivendo umas das maiores crises nos mercados financeiros mundiais, com forte aumento da aversão ao risco e da volatilidade dos ativos de renda variável (ações) no mundo todo.

Segundo Marks, o momento atual seria quase uma mistura de “crash de 1929” com os impactos dos atentados terroristas ao World Trade Center nos EUA, em 2001. A pandemia do novo coronavírus é um verdadeiro “cisne negro”, o qual surpreendeu os mercados pela sua rapidez e pelo seu alto grau de contágio. A Covid-19 foi completamente imprevisível. Quem investe pensando no futuro não será capaz de proteger seu portfólio disso.

A lição que quero passar, neste momento, aos investidores é a seguinte: é preciso ter sangue frio para comprar ações em momentos de maior pânico no mercado, ou seja, ser um investidor contrário, do tipo que toma decisões que causam medo na maioria dos investidores.

Cito, mais uma vez, Warren Buffet: “Comprar ao som dos canhões e vender ao som dos violinos.”

Recuperação em “V” da economia

Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve (Fed), acredita que o momento atual lembra mais um desastre natural do que uma crise financeira – como a que aconteceu em 2008. Assim, a economia deverá, ao acompanhar a duração da quarentena, entrar em uma forte recessão no segundo trimestre de 2020; entretanto, a recuperação deverá ser rápida e em formato de “V”.

Howard Marks discorda disso por três motivos principais:

  1. a Covid-19 não é igual a um furacão passageiro, ela pode durar meses;
  2. temos vidas sendo ameaçadas, e não somente o sistema financeiro (até o momento, aconteceram mais de 10 mil mortes somente nos EUA);
  3. a economia real não deverá voltar tão rápido assim após a quarentena da pandemia, posto que, agora, estão todos em casa; ou seja: menos negócios sendo realizados.

Na minha opinião, ainda é muito cedo para tentar estimar o impacto real da Covid-19 na economia brasileira e em quanto tempo teremos a recuperação (seja em formato de “V” ou “U”). Até agora, a Levante, olhando para a sua projeção mais pessimista, projeta de queda de 0,5% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2020.

Tudo dependerá de até quando irá a quarentena. Nossa previsão é que a curva de contaminação de novos casos deva atingir seu topo (curva plana) no meio de abril.

Nesta seção, cito agora Howard Marks: “Na situação atual, evito ter opiniões muito convictas sobre eventos que nunca aconteceram antes.”

Portanto, o mercado todo está entrando em um território totalmente desconhecido no momento. Mesmo com a minha experiência de mais de 20 anos no mercado financeiro, posso afirmar duas coisas: nunca vivi uma situação como esta e o mundo não será mais o mesmo depois da pandemia do novo coronavírus.

Segundo nível de pensamento

Acredito que este é o conceito mais importante do livro do Howard Marks: a segunda linha de pensamento. Para os engenheiros, seria algo com a “segunda derivada” do pensamento.

Como já disse anteriormente, recomendo fortemente a leitura do livro The most important thing. De qualquer modo, irei explicar rapidamente o que é o segundo nível de pensamento por meio de um exemplo.

Sempre recebo a seguinte pergunta na Levante: “Edu, na sua opinião, quais são os setores da Bolsa que irão se sair melhor na crise?”

Segundo Marks, não adianta apenas saber identificar o melhor setor na Bolsa e comprar as ações das melhores empresas. Deve-se, na verdade, descobrir os setores que irão bem, mas que ainda não foram descobertos pelo mercado. Aqui, falo de um call fora do consenso, antes de o mercado todo prestar atenção àquele setor ou àquela empresa que tendem a crescer.

A segunda linha do pensamento não é fácil. Por isso, recomendo a leitura de carta memorável do Howard: It’s not easy, de setembro de 2015.

Investidor contrário

Sobre investidores contrários, gosto de uma frase de James “Jim” Chanos, gestor de um fundo especializado em operar vendido (short): “Um investidor contrário sempre ouve que ele está sempre errado, pois vai contra a maré. É preciso ter muita atitude para não ignorar o consenso do mercado.”

Será que as medidas dos governos e dos bancos centrais serão suficientes?

Segundo Howard Marks, o investidor que pensa na segunda derivada está sempre se questionando se todas as medidas adotadas pelo Banco Central dos EUA (Fed) e do Congresso Nacional serão suficientes para reativar a economia americana e quais serão as consequências disso. Ele está muito preocupado com o risco da inflação cada vez mais crescente nos EUA por conta da “chuva de dinheiro” que está chegando na economia do país norte-americano.

Diversificação

Uma forma de limitar o risco é diversificar o portfólio, pois alguns ativos irão subir, outros irão cair e outros irão apenas andar de lado.

Entretanto, Howard Marks cita um importante ditado em seu livro: “Em tempos de crise, todas as correlações tendem a 1”. Ou seja, tudo tende a se comportar da mesma forma.

Foi o que vimos nas primeiras semanas de março: ativos de risco (ações) e ativos considerados livres de risco (ouro e títulos do tesouro dos EUA) apresentaram quedas ao mesmo tempo.

Agora, acredito que o mercado está menos “panicado”. O índice do medo VIX (opções de S&P500) voltou ao patamar dos 50 pontos. E, ademais, as correlações entre os ativos estão voltando ao normal.

Na minha opinião, a diversificação de ativos é muito importante para a composição de um portfolio de investimento. Eu diria que é a diversificação é o “último almoço de graça” no mundo dos investimentos.

Gestão de risco

O gestor da Oaktree acredita que agora é tarde demais para se pensar em medir risco. Para justificar isto, ele utiliza um excelente exemplo:

É como dirigir. Primeiro você faz aulas em uma autoescola, aprende a dirigir com cautela e segurança, tudo isso antes de o acidente ocorrer – e não depois.

Ou seja: para Marks, o acidente (queda no mercado) já aconteceu, com boa parte das perdas já estando concretizada.

Eu pessoalmente gosto de outra frase: o melhor momento para procurar proteção é quando o mercado parece estar com baixo risco, ou seja, o melhor dia para se comprar um guarda-chuva é quando não está chovendo: em belo dia de sol, sem nenhuma nuvem no céu.

O que fazer agora?

Se você reconhece que exagerou na parcela de renda variável na composição do seu patrimônio, o momento não é de pânico. Invista recursos novos em outras classes de ativos, componha a sua reserva de liquidez, a qual deve ser equivalente a um período de 6 a 12 meses de gastos/despesas, e tenha proteção em sua carteira.

A minha recomendação é NÃO vender nenhuma ação (com visão de longo prazo) – a menos que tenha ocorrido alguma mudança estrutural nos fundamentos da empresa ou em sua tese de investimento.

Agora, se você tem tolerância ao risco, boa reserva de emergência e caixa, nossa recomendação é ir às compras na Bolsa com parcimônia, sem gastar todas as fichas (caixa) de uma vez só, sempre com diversificação de ativos e gestão de risco, pois o maior erro de um investidor é deixar o tamanho da posição muito grande.

Livros recomendados

Por fim, Howard Marks fez duas recomendações de livros:

1) Iludido pelo acaso (Fooled by Randomness), de Nassim Taleb, um dos meus livros favoritos – foi o primeiro livro que li sobre mercado financeiro. Em suma, ele ensina bastante sobre risco.

2) Uma pequena história da euforia financeira (A Short History of Financial Euphoria), do grande economista John Kenneth Gailbraith. Este livro fala primordialmente sobre crises financeiras – e, ademais, é escrito por um autor keynesiano.

Podem contar comigo na hora do caos

Eu tenho 20 anos de experiência no mercado financeiro e pretendo ficar a seu lado durante esse período caótico no mercado financeiro, para explicar de maneira simples e direta sobre o que está acontecendo na bolsa de valores e quais os impactos para os seus investimentos.

Os vídeos do canal do Youtube e os relatórios do Gabinete Anticaos estão abertos para todos os leitores sem custo algum.

Só que muitos investidores têm pedido consultorias personalizadas.

Para atendê-los, o pessoal da Levante formatou uma série exclusiva para os interessados em aproveitar esse momento para organizar de vez sua carteira de investimentos.

Eu e os outros sócios-analistas da Levante (Rafael Bevilacqua e Felipe Bevilacqua) abrimos 18 espaços em nossa agenda para atender a quem precisar de nossas orientações de forma particular.

O projeto permite que você escolha com quem prefere conversar sobre seus investimentos.

Veja como vai funcionar a iniciativa nesse vídeo preparado pelo Bruno Santos, diretor de Relacionamento da Levante.

Um abraço

Eduardo Guimarães

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