Política sem Aspas, por Felipe Berenguer

Taleban, geopolítica e poder | Política sem Aspas

Os Estados Unidos da América, maior potência econômica e política do mundo no século XXI, anunciaram a saída definitiva de suas tropas do Afeganistão após 20 anos de ocupação militar e quatro diferentes presidentes na Casa Branca.

Muito antes do previsto, o grupo extremista Taleban retomou o comando do país no domingo (15 de agosto), por meio da tomada de Cabul, a capital do país. O presidente afegão, Ashraf Ghani, fugiu para o Tajiquistão, país vizinho, e admitiu a perda de poder.

A principal consequência disso foi escancarar o fracasso da construção de uma democracia liberal no Afeganistão, além de minar fortemente a aprovação do governo Biden, que caiu sete pontos percentuais desde o ocorrido e agora está em 46%. Para piorar a situação, nesta quinta-feira (26), o Estado Islâmico promoveu atentados no Aeroporto Internacional de Cabul, deixando mais de 100 mortos – entre eles, 13 soldados americanos – e centenas de feridos. Concretiza-se, assim, o pior cenário possível para o presidente Joe Biden, no que foi o dia mais mortal para as forças de Washington no Afeganistão em mais de uma década.

A coluna de hoje traz uma análise sobre a saída do governo americano da região, as dinâmicas de poder entre o Taleban e o Estado Islâmico e os interesses geopolíticos por detrás da retomada do poder pelo grupo fundamentalista.

A história da presença americana

 Os Estados Unidos da América entraram no Afeganistão após os atentados promovidos pela Al Qaeda, grupo terrorista islâmico, às Torres Gêmeas. A chocante tragédia do 11 de setembro serviu de estopim para o governo americano enviar tropas ao Afeganistão – país em que grande parte da célula terrorista se encontrava, com a anuência do Taleban.

George W. Bush chegou a afirmar que “os EUA não pediram para entrar na guerra, mas agora só vão sair com a vitória” para justificar a agenda no Afeganistão, composta por três grandes pilares: a) derrubar o governo do Taleban; b) desestruturar a Al Qaeda; e c) encontrar e capturar o líder da organização, Osama Bin Laden.

Curiosamente, o Taleban foi impulsionado com o apoio da comunidade internacional no fim do século XX, após a queda da União Soviética, e visto como uma solução para um país que carregava anos de conflito pós-soviético e já contabilizava um milhão e meio de mortos. O Taleban tomou o poder em 1996 e ficou no poder até meados de 2002, quando foi rapidamente neutralizado pelo poderio militar americano.

Ocorre que, devido ao desequilíbrio de forças, rapidamente os EUA atingiram dois dos três objetivos, com a captura e, por consequência, a morte de Osama Bin Laden demorando um pouco mais e só ocorrendo em 2011. Com a Al Qaeda desestruturada e o Taleban fora do poder, os EUA iniciaram um governo de transição e buscaram implementar uma democracia liberal no Afeganistão – uma tentativa de continuar na região e consolidar um novo modelo de governo, ao passo que as atenções primárias da Casa Branca eram redirecionadas à Guerra do Iraque.

Os EUA fizeram uma série de treinamentos burocráticos e militares, dispendendo centenas de milhões de dólares para também formar um exército afegão, capaz de neutralizar forças ligadas ao Taleban. Houve a realização de eleições no Afeganistão, mas – a exemplo do que aconteceu com os países envolvidos na Primavera Árabe – a estabilidade política foi se esvaindo nesta última década, em meio a escândalos de corrupção e muita dificuldade de colocar em prática os ideais ocidentais.

Desse modo, o diagnóstico de que a missão no Afeganistão foi bem sucedida, mas a presença das tropas não fazia mais sentido, presidentes americanos começaram a cogitar a retirada das tropas do país. A vontade de resolver o que virou um gigantesco elefante no Salão Oval da Casa Branca data do governo Obama, mas somente com Biden efetivamente ocorreu.

A saída dos EUA e o vácuo de poder

Diante do fracasso da experiência ocidental no País e alguns episódios de violência durante a ocupação no Afeganistão, a pressão pela retirada das tropas começou a se intensificar entre a população estadunidense, refletindo em alas de ambos os partidos da política de Washington: Republicanos e Democratas.

Foi em 2020, no governo Trump, que a primeira sinalização de retirada de tropas ocorreu. O presidente Trump resolveu sentar, em Doha, com lideranças do Taleban e ficou acordado que os EUA sairiam do País e libertariam 5 mil presos ligados à organização desde que o Taleban se comprometesse a não atacar o governo afegão, ficando nas áreas já ocupadas e respeitando o mínimo de institucionalidade no país.

Eleito recentemente, o presidente Joe Biden resolveu dar continuidade à política externa desenhada por Trump e honrar o acordo de retirada de tropas, com previsão de saída integral dos militares americanos até o dia 31 de agosto deste ano. Em abril, começou a retirada gradual das tropas do Afeganistão – mas o que não se esperava era que antes mesmo da saída total dos EUA do país, o Taleban lançasse uma ofensiva para tomar o poder após 20 anos de seu último governo.

De fato, havia a sensação de inevitabilidade da tomada de Cabul pelo grupo religioso, inclusive com cálculos da inteligência americana sendo usados como premissa para retirar as tropas. O processo, no entanto, foi muito mais rápido que o esperado e a bomba caiu no colo do governo Biden. Havia, entre observadores internacionais e militares americanos, a convicção de que o governo afegão conseguiria manter o poder por algum tempo, ou mesmo entrar em negociação com o grupo islâmico e montar uma coalizão.

A partir daí – com alguns meses de distância desde a saída dos EUA –, seria justificável afirmar que a retirada das tropas não teria sido o principal motivo da volta do Taleban ao poder, mas sim a dinâmica interna de um país bastante fragmentado politicamente. O vácuo de poder foi tão grande, contudo, que o grupo extremista tomou com facilidade o controle do país – e o diagnóstico da inteligência estadunidense foi considerado um erro grosseiro de cálculo.

Conflito geopolítico

Está claro que, se tem algum país que saiu perdendo no jogo de forças internacional, esse país foi os EUA. No entanto, é possível também apontar para um ganhador, em termos geopolíticos, com o novo desenho político e econômico do Taleban. Esse país é a China, maior ameaça à hegemonia de poder americana.

Logo quando o grupo extremista tomou a capital, tanto a China quanto a Rússia negociaram novas frentes de diálogo com os líderes afegãos, a fim de não deixar o novo governo, liderado pelo Taleban, politicamente isolado.

Há alguns interesses da China na região, já que ela é a principal potência do Oriente e o Sudeste Asiático é considerado estratégico do ponto de vista econômico. Desde o anúncio da retirada de tropas, o governo chinês estreitou laços não apenas com o governo oficial do Afeganistão, mas também com líderes Talebans. Dado o bom relacionamento entre o Afeganistão e o Paquistão, a China entende que ao apoiar os governos da região, ela poderá expandir seu projeto de construção de um corredor econômico nestes países.

O governo chinês tem investido no Paquistão por meio da construção de infraestrutura, de modo a consolidar porto no sul do país, tornando-se apto para receber commodities que a China importa do mundo inteiro. Atualmente, o trajeto atual das exportações (vindas do mundo inteiro, inclusive do Brasil) passa pelo Estreito de Malaca, a principal conexão entre o Oceano Índico e o Pacífico.

Ocorre que, em um eventual conflito militar (com os EUA, por exemplo), o estreito poderia ser facilmente bloqueado. Por isso, a estratégia chinesa de reorientar a rota de importações por meio do Paquistão e até mesmo do Afeganistão, de modo a garantir um bom relacionamento com o Taleban.

Outro ponto de atenção para os chineses diz respeito à Índia, que se aproximou, recentemente, do governo americano com o objetivo de se fortalecer e, eventualmente, fazer um contraponto ao poderio da China. Os EUA, observando tal movimento, também trabalham para dar apoio às questões indianas, como o conflito da Caxemira com a própria China.

Nesse contexto, o acordo entre Afeganistão (por meio do Taleban), Paquistão e China acaba desestabilizando a região no que se refere ao equilíbrio de forças entre tais países e a Índia. O governo hindu, desse modo, deve se voltar mais para as dinâmicas regionais e menos para esse confronto velado entre EUA e China – fazendo com que, mais uma vez, os chineses ganhem vantagem dentro de toda a tensão gerada com a mudança de regime no Afeganistão.

Inimigo do inimigo

Por fim, o mais novo tempero à delicada situação no Oriente Médio envolve o Estado Islâmico e uma de suas células, que atua na região de Khorasan – área transfronteiriça que engloba partes do Irã, do Paquistão e Afeganistão.

O duplo atentado a bomba no aeroporto de Cabul, nesta semana, foi assumido pelo Estado Islâmico Khorasan (ou Isis-K, na sigla em inglês) e deixa o ambiente político ainda mais tensionado.

Por divergências de cunho religioso e militar, o Isis-K é considerado inimigo do Taleban e representa uma ameaça à nova hegemonia do grupo extremista afegão. Apesar do novo governo pregar conciliação entre diferentes grupos políticos, pode ser que algumas organizações façam pressão para desestabilizar a atual conjuntura de forças e tentar uma nova tomada de poder.

Com a morte de soldados americanos, a Casa Branca deve responder com força para punir os responsáveis pelo atentado em Cabul – deixando ainda mais complexa a situação do país. Ainda não foi dado mais detalhes sobre como os EUA irão retaliar, mas o presidente Biden deixou a missão sob responsabilidade do Pentágono e afirmou que os riscos seriam maiores se as forças americanas continuassem no Afeganistão por mais tempo.

Leia a minha última coluna para ficar por dentro do que movimenta Brasília: De vento em proa | Política sem Aspas.

 

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