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Primárias americanas: explicações e cenários

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Faltando menos de um ano para as eleições presidenciais americanas, considerada por muitos a eleição mais importante do globo, temos os dois lados da disputa – Republicanos e Democratas –em situações muito distintas.

Neste momento, toda a atenção se volta para as primárias de cada sigla. Enquanto o GOP (Grand Old Party, outro nome para os Republicanos) já tem definido virtualmente seu candidato à Presidência, o atual presidente e candidato à reeleição Donald Trump, os Democratas ainda contam com dezoito pré-candidatos na corrida – tendo pelo menos cinco deles com chances de representarem o partido na próxima disputa eleitoral.

Para apimentar mais ainda o pleito do ano que vem, ainda está aberto – e em andamento – o processo de impeachment contra Trump, que deve prosperar na Câmara, mas será barrado no Senado, onde republicanos detêm 53 das 100 cadeiras. Ainda que o presidente americano não seja deposto, as consequências deste imbróglio para as eleições do ano que vem ainda são bastante imprevisíveis.

Contudo, antes de pensar na corrida presidencial, hoje vamos falar das primárias – uma espécie de “primeira fase” das eleições americanas. Para minha surpresa, o processo das primárias é ainda mais confuso que o próprio pleito para presidência. Para entender as eleições americanas de maneira geral, recomendo este meu outro artigo.

Como funcionam as primárias americanas

As primárias americanas são um processo eleitoral complexo, que começa mais de um ano antes das eleições presidenciais. Vencer as primárias, uma espécie de eleições internas do partido, é o primeiro passo para quem quer se tornar presidente nos EUA. Da mesma forma que o pleito pela cadeira na Casa Branca, as primárias também não são feitas por votação direta. Os votos da população determinam quem os delegados (ativistas partidários, líderes políticos locais ou apoiadores de candidatos) irão defender para representá-los na corrida presidencial – isso é feito na convenção nacional do partido (tanto na dos democratas quanto na dos republicanos).

Esta etapa ocorre por meio de dois tipos de eleições: as primárias e o caucus (ou “conselho”, valendo-me de tradução livre). Ambos os processos são feitos em âmbito estadual e têm datas pré-definidas em cada estado americano. A depender do estado, as votações – sejam elas primárias ou caucuses – são fechadas, significando que somente filiados ao partido podem participar. Em outros estados, elas são abertas para qualquer eleitor registrado.

Diferenciando, de um modo geral, as primárias das caucuses: as primárias são compreendidas como uma eleição oficial, em que os eleitores simplesmente depositam seus votos, secretamente, em urnas. No caso dos conselhos (caucuses), porém, o processo é mais complexo: os participantes se reúnem – em ginásios, bibliotecas, etc. – e discutem sobre qual candidato eles acreditam ser o melhor representante para o partido. Somente quando há um consenso, elege-se o candidato. Evidentemente, no segundo modelo o processo é mais demorado que no primeiro. Assim, é inevitável que as caucuses exijam maior ativismo político dos participantes, em comparação ao eleitor médio das primárias. Atualmente, usa-se o modelo das primárias em 39 estados.

De resto, o processo eleitoral é similar ao presidencial: como as eleições são indiretas, elegem-se delegados que irão participar na convenção nacional e decidir o candidato do partido à Casa Branca. A distribuição de delegados por estado vai de acordo com seu tamanho populacional e, na grande maioria dos casos, os representantes devem votar no candidato pelo qual os eleitores escolheram votar – somente alguns têm passe livre para votar em quem quiserem na Convenção Nacional.

Uma das críticas a esse sistema eleitoral é que os estados privilegiados (que votam mais cedo) no calendário das primárias acabam por ter mais peso na decisão. Isto porque os primeiros delegados eleitos nesses locais já vão determinar um caminho provável para o desfecho das eleições.

Para as eleições do ano que vem, este é o calendário de votações previsto:

E a corrida?

No caso dos republicanos, Trump deve vencer tranquilamente um processo que é considerado, para eles, mera formalidade, já que o presidente busca reeleger-se e tem o apoio maciço da maioria dos líderes do partido. No caso dos democratas, existem ao menos seis pré-candidatos com alguma chance de representar a sigla nas urnas em novembro. São eles:

  • Joe Biden, 77 anos

Biden foi vice-presidente nos governos Obama e senador pelo estado de Delaware. É um político bastante experiente e já disputou a Presidência em outras duas ocasiões – esta, segundo ele, é a sua última tentativa. Biden é um democrata pragmático e tem facilidade no diálogo com a classe trabalhadora americana. Ainda mais, por conta de sua proximidade com Obama, atrai votos de parte do eleitorado negro e democrata. Pelas pesquisas, é o atual favorito para enfrentar Trump.

  • Bernie Sanders, 78

Bernie Sanders é atualmente senador pelo estado de Vermont. Já foi deputado pelos democratas. O senador se autodescreve como um socialista democrático e defende medidas bastante progressistas, como ensino superior gratuito e universal. Nas últimas eleições, foi o grande concorrente de Hillary Clinton nas primárias. Sanders faz parte da ala mais à esquerda do partido, por isso tem dificuldade de angariar todos os votos necessários para disparar na liderança das primárias. Ainda assim, é um dos candidatos fortes.

  • Elizabeth Warren, 70

Elizabeth Warren é senadora pelo estado de Massachusetts e também professora de Harvard. A senadora é considerada uma mulher de ideias firmes para o governo – não à toa, já que prega por uma “mudança grande e estrutural” nos Estados Unidos. Já apresentou diversos planos – detalhados ­– para diferentes áreas do governo, como a economia. Seu slogan é: “I have a plan for that”, algo como “Eu tenho um plano para isso”. Warren, assim como Sanders, também faz parte da ala mais “radical” dos democratas. Toca muito em assuntos como inequidade de impostos, entre outros temas relacionados à desigualdade. Também tem uma quantidade expressiva de votos, mas esbarra na mesma dificuldade de Sanders.

  • Pete Buttigieg, 37

Pete Buttigieg é prefeito de South Bend, Indiana e veterano das Forças Armadas americanas. Pete é o pré-candidato mais novo e ventila sua campanha com base nisto: promete trazer uma nova era para a política americana. Pete é considerado do campo mais moderado entre os Democratas e foca em assuntos como oportunidades de trabalho, mudanças climáticas e pautas identitárias. O prefeito de South Bend tem, atualmente, cerca de 11% dos votos – mas é favorito a vencer o estado de Iowa e New Hampshire, onde ocorrem as primeiras primárias do país.

  • Kamala Harris, 55

Kamala Harris é senadora pela Califórnia e ex-procuradora geral do mesmo Estado. Harris entrou no páreo após desferir duras críticas a Trump e seus escolhidos para compor os gabinetes do governo e também a Suprema Corte americana. Mais moderada, a senadora foca em uma agenda de direitos civis liberal e tem bastante carisma. No entanto, esses atributos ainda não se transformaram em votos – Kamala teve um período de alta, mas agora tem cerca de 4% das preferências do eleitorado.

  • Michael Bloomberg, 77

Michael Bloomberg é ex-prefeito da cidade de Nova York, bilionário e dono da mídia Bloomberg. Ele entrou recentemente na corrida presidencial por entender que não havia um candidato “ao centro” com condições de derrotar Trump nas eleições. Voltou para o partido democrata, após ser prefeito de Nova York por quase uma década. Nesse mesmo sentido, disse rever suas posições com relação à política de “stop-and-frisk” – de revista ostensiva da polícia pelas ruas da metrópole – que apoiou e adotou em sua gestão. Bloomberg sempre desejou lançar-se para presidente e, agora, entra na briga um pouco tardiamente. Tem cerca de 2,5% das intenções de voto, mas ainda é cedo para tirá-lo da corrida. Por conta de posições mais orientadas ao mercado, é considerado da ala conservadora dos democratas.

Em suma, ainda existe muita indefinição acerca de quem será o candidato democrata para 2020. Como podemos observar no gráfico abaixo – do site agregador de pesquisas eleitorais, RealClearPolitics –, Biden continua com folga na liderança, mas seus concorrentes vêm oscilando na disputa pela segunda posição. Parece que nenhum nome tem força suficiente para incomodar o ex-vice-presidente dos EUA.

Vale ressaltar, contudo, que ainda existe um bom intervalo de tempo para as primárias e que o cenário atual é só uma fotografia dentro do filme que é uma corrida presidencial. Nos EUA, como o voto não é obrigatório, tudo gira em torno da mobilização que o candidato levanta para que eleitores saiam de suas casas e exerçam seu direito de voto. Deste modo, tanto a arrecadação financeira dos candidatos quanto a mobilização dos voluntários de campanha são essenciais para o sucesso. Além disso, os debates televisivos têm especial peso na percepção de aprovação ou reprovação do candidato – números que influenciam diretamente a possibilidade de o indivíduo sair para votar.

E para o mercado?

Pelo que podemos observar sobre a opinião de Wall Street acerca dos candidatos democratas, é possível dividi-la em três grupos: para um cenário bearish, o mercado americano vislumbra a vitória, nas primárias, de Bernie Sanders ou Elizabeth Warren – mais alinhados a pautas contrárias ao livre mercado. Para um cenário bullish, Joe Biden ou Michael Bloomberg seriam bem vistos pelos agentes econômicos. Pragmáticos e com bom relacionamento com o setor privado, os dois representariam um cenário bastante positivo ao enfrentar Trump. Entende-se que, independente do resultado final, a política econômica estaria em boas mãos. Em relação à Kamala Harris e Pete Buttigieg, o mercado não aparenta ter precificado uma eventual vitória de qualquer um dos pré-candidatos. É bastante improvável que a senadora da Califórnia vença, e o prefeito de South Bend também corre por fora, por enquanto.

Continuaremos atentos ao pleito americano. Por isso, não fique surpreso: daqui para frente, este tema irá ser recorrente por aqui.

Leia também: Conjuntura política para 2020

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