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Os EUA têm, sim, um novo presidente

São pouco mais de 16h de sexta-feira (6), e, sem ter a completa certeza do resultado, eu tenho a ingrata tarefa de escrever sobre o próximo presidente dos Estados Unidos da América. Nesse exato momento, Joe Biden, o candidato democrata, já tem garantidos 253 delegados do Colégio Eleitoral americano, enquanto seu adversário – e atual presidente –, Donald Trump, conta com o apoio certo de 213 delegados. Faltam exatamente 71 delegados serem definidos para que as eleições presidenciais de 2020 cheguem ao final.

Em uma espécie de revisita ao paradoxo mais famoso da física quântica, do gato de Schrödinger, o ex-vice-presidente de Barack Obama, Joe Biden, já é presidente dos Estados Unidos da América, apesar de não haver uma confirmação oficial. A demorada apuração nos estados restantes – principalmente, naqueles que são chave para decidir para qual lado vão os delegados – não dá a certeza necessária para “publicizar” o que parece inevitável. Nesse cenário, ninguém quer arriscar coroar o democrata para depois, eventualmente, ter de se explicar o porquê da decisão precipitada.

É bastante provável que, quando você, investidor, estiver lendo este texto, já teremos um desfecho sobre a grande maioria dos votos. Ou melhor, pelo menos, um desfecho parcial, já que Donald Trump não parece querer aceitar a derrota tão facilmente – falaremos, inclusive, sobre isso mais adiante. Sendo assim, vou me antecipar e tratar o democrata como o próximo presidente americano, significando que Trump é o terceiro republicano a tentar a reeleição e não conseguir – junto a ele, estão Bush pai, em 1992, e Herbert Hoover, em 1932, que perdeu para ninguém menos que Franklin Delano Roosevelt, pai do New Deal.

Como comentei em outras ocasiões, dificilmente a eleição terminaria no “Election Day“, 3 de novembro, último dia, de fato, para votar. No entanto, o que vimos nos últimos dias foi uma elevadíssima volatilidade – que eu, também, já havia avisado acerca dessa possibilidade –, com a abertura das urnas animando o Partido Republicano no início da apuração. Para quem não acompanhou, na madrugada da última terça para quarta-feira, o mercado de apostas americano – que antes dava cerca de 70% de chances para Biden vencer – virou do avesso, chegando a projetar 80% de chances para a reeleição de Trump.

O atual presidente teve importantes conquistas logo de cara, vencendo os 29 delegados do estado da Flórida, importante swing state, e assegurando Colégios Eleitorais essenciais para uma possível vitória, como Ohio e Iowa. Durante a madrugada, contudo, à medida que a maioria dos votos ao redor de todos os EUA foram sendo apurados, algumas surpresas negativas para Trump vieram à tona: o estado do Arizona, por exemplo, abriu com margem mais apertada que a usual, assim como os estados do chamado cinturão da ferrugem americano, com destaque para Michigan e Wisconsin. Essa região dos EUA foi decisiva para a vitória do Republicano em 2016, quando teve Hillary Clinton como adversária presidencial.

Já a quarta-feira (4) foi de poucas mudanças no cenário, com muitos estados já esperados para os dois lados confirmando os seus respectivos favoritismos, ao mesmo tempo que os estados decisivos iam, lentamente, atualizando as contagens de votos. Na noite de quarta para quinta-feira (5), foi a vez dos Democratas comemorarem. Joe Biden confirmou sua vitória em dois importantes estados do Noroeste dos EUA: Wisconsin (10 votos) e Michigan (16), Colégios em que, por margem apertada, Trump venceu nas últimas eleições. Desde então, a tônica foi de incerteza quanto aos estados restantes, uma vez que todos eles contavam com uma parcela significativa de votos ainda não apurados e uma margem que não permitia fazer grandes suposições sobre qual dos dois candidatos os levaria.

A situação dessa sexta-feira (6), desde a manhã até esse momento, é a seguinte: além do Alaska (3 votos no Colégio) e da Carolina do Norte (15 votos), estados praticamente garantidos para Trump, estão em aberto os estados de Nevada (6), Geórgia (16), Pensilvânia (20) e Arizona (11). Em todos os quatro, Joe Biden tem tímida liderança. No caso da Geórgia e da Pensilvânia, o democrata tomou a frente somente ontem, muito em função do processo eleitoral que prioriza os votos do Election Day, para somente após iniciar a contagem de votos antecedentes (Early votes, em inglês) – seja por meio do Correio, seja, até mesmo, pelos locais de votação.

Como o partido Democrata, historicamente, tem mais votos feitos pelo Correio, a tendência que se viu nesses estados foi que a porcentagem restante na apuração – 20 a 30% –, majoritariamente, foi destinada a Joe Biden. Vale lembrar, inclusive, que o próprio Trump lançou mão de uma estratégia arrojada ao desencorajar os eleitores Republicanos a votarem antecipadamente. Já no caso de Nevada, a margem entre Trump e Biden segue extremamente apertada, mas estável. No Arizona, porém, Trump tem conseguido tirar alguma vantagem de Biden. Ainda assim, o Democrata só precisa de mais 17 delegados para atingir a maioria de 270 votos no Colégio Eleitoral. Logo, tudo mais constante, Biden deve se sagrar vencedor.

Importa mais, nesse momento, a margem de votos que deve tornar Biden o próximo presidente. Quanto menor a diferença de delegados entre os dois candidatos, mais ficará evidente a narrativa que o atual presidente vem tentando emplacar – de que o vencedor em 2020 é ele e que o sistema eleitoral está corrompido. Narrativa essa, no mínimo, inconsequente para quem sabe como as regras do jogo político funcionam.

Aqui, vale uma comparação entre as eleições deste ano e o resultado final de 2016. No mapa abaixo, os estados estão divididos entre os dois candidatos nas eleições passadas. Destaque para alguns pontos: o cinturão da ferrugem todo vermelho, o que, neste ano, já não vai acontecer; e a Geórgia e o Arizona – dois estados tradicionalmente vermelhos – também ficando com os Republicanos. Entre Donald Trump, o vencedor, e Hillary Clinton, foram 74 delegados de diferença, afastando qualquer possibilidade de questionamento da legitimidade da vitória naquele pleito.

Já em 2020, o panorama é ligeiramente diverso. Como o mapa do New York Times (ver abaixo) mostra, no mínimo dois estados foram “flipados” – mudaram de cor – entre os candidatos. Vale observar, também, que os estados restantes (com exceção do Alaska) estão na reta final da contagem de votos, portanto, as tendências de liderança em cada reduto eleitoral ficam cada vez mais fortes.

Nesse sentido, o cenário mais pessimista representaria uma virada do Republicano nos estados de Nevada e do Arizona, assim como uma retomada na Geórgia, onde a liderança de Biden, neste momento, é de apenas 2.000 votos em 5 milhões já apurados. Por que não a Pensilvânia? Simplesmente, porque os 4% ainda passíveis de aprovação são votos via Correios, e estão, esmagadoramente, em condados cuja vantagem de Biden é, no mínimo, maior que 60%. Com essas premissas, Biden teria 273 delegados e Trump 265.

O cenário mais otimista repetiria o placar de 2016, mas no sentido contrário: enquanto Trump somaria os 232 deputados, Biden ultrapassaria a marca dos 300, com 306 delegados, ao vencer em estado como Pensilvânia, Geórgia, Nevada e Arizona. Cenários intermediários preveem Nevada e Arizona para Trump, tanto separadamente quanto em concomitância.

Um pequeno parêntese sobre as contestações que vêm sendo feitas pela equipe jurídica de Trump: muitas delas são legítimas e irão adiante, como no caso da Geórgia, que, necessariamente, vai recontar todos os votos, e de Wisconsin, em que se admite, por lei, uma recontagem de votos caso um dos candidatos protocole o pedido em até 3 dias após as eleições, desde que a margem de diferença nos resultados seja menor que 1% (é o caso). Historicamente, recontagens não trazem grandes diferenças nos resultados. Cito o polêmico caso da Flórida, em 2000, envolvendo Al Gore (Democratas) e Bush filho (Republicanos), e de Wisconsin, em 2016, a pedido de Hillary Clinton – ao cabo, a recontagem no estado proporcionou mais 131 votos para Trump.

O que não cabe é um processo de judicialização forçado, calcado em alegações falsas e desprovidas de evidências (afinal, o ônus da prova é da acusação), que – francamente – mais parece uma tentativa de reversão política do resultado, travestida de litígios em estados selecionados conforme a conveniência do candidato. Objetivamente, porém, esse caminho não parece ter respaldo, nem mesmo, no Partido Republicano, ainda mais se o placar for mais elástico – como tudo indica que será. Diante disso, bastará ao perdedor admitir a derrota e seguir em frente.

Aliás, na política, parece inexistir ato mais nobre que reconhecer que o caminho trilhado não condiz com aquele que foi planejado. Admitir diferenças, reveses e derrotas separa grandes figuras políticas daqueles medianos, que pouco ficarão marcados na memória da população.

Exemplo disso é o discurso de derrota do finado senador (e desafeto de Trump) John McCain após sua derrota para o então candidato à Presidência, Barack Obama, em 2008. Independentemente de já termos um resultado definitivo quando este texto for publicado, fica a recomendação de uma das maiores “caras” do Partido Republicano, bem como a confiança de que os EUA continuam sendo a democracia mais firme e duradoura do mundo.

Um abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

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