Política sem Aspas

O saldo de Iowa: quem perdeu e quem ganhou?

Que o sistema eleitoral americano é ultra difícil de entender, isso não é nenhuma novidade. Agora, entender que as primárias americanas, que terão uma primeira fase em Iowa, são tão complexas quanto a própria votação presidencial – ou até mais complexas que esta, é algo que poucos conseguem fazer – é, em suma, um passo além.

No entanto, o que ocorreu nas primárias democráticas de Iowa é para deixar qualquer analista ou cientista político de cabelos em pé. A começar pelo complexo sistema de caucuses, atualmente vigente somente no primeiro estado a realizar as primárias e nos estados de Nevada e Wyoming. Resumidamente, as caucuses possibilitam que os votantes declarem seus votos em uma espécie de debate em grupo. Neste, feito em rodadas, o objetivo é que tais votantes cheguem a um consenso sobre qual(is) candidato(s) apoiar. 

Se fosse só isso, tudo bem. O problema é que o estado resolveu mudar algumas regras desde a última eleição e, ainda, possibilitar o voto por meio de um aplicativo. Acontece que as novas regras foram bastante contestadas e – a cereja do bolo – um erro de programação acarretou inúmeras disfuncionalidades na hora de votar. Desse modo, na noite de segunda-feira (3), não havia nenhum resultado divulgado.

 

Uma confusão democrata

Quase madrugada adentro, Troy Price, o líder dos Democratas em Iowa, veio a público declarar que a votação seria adiada para “algum momento” de terça-feira (4). Na noite de terça, ele voltou aos holofotes para pedir desculpas pelos erros no processo de votação e para divulgar um resultado parcial, em que apenas 62% das urnas haviam sido apuradas e verificadas. Para alívio dos Democratas, Price afirmou que os votos não apurados não foram perdidos e serão recontados por meio de uma auditoria independente.

Até o fechamento deste artigo, haviam sido apurados 99% do total de, aproximadamente, 1800 recintos (locais de votações). Segundo os números, Pete Buttigieg (o prefeito de South Bend, Indiana) tem 26,2% dos “State Delegates Equivalent”, seguido por Bernie Sanders (26,1%), Elizabeth Warren (18,0%) e Joe Biden (15,8%).

O resultado, praticamente definitivo, dá ao “Mayor Pete” e a Bernie Sanders, igualmente, a maioria dos delegados que irão os representar na convenção nacional do partido e, enfim, escolher o presidenciável que enfrentará Trump. O estado de Iowa tem direito a somente 41 de 3.979 delegados na convenção nacional, mas Buttigieg sai na frente – e esta vantagem não pode ser desprezada. Mas por quê?

 

A importância de Iowa

O estado de Iowa é predominantemente rural e pouco diverso – a esmagadora maioria da população é branca. É, portanto, um estado que se distancia do eleitor médio americano e, ainda, não pode servir como reflexo do desempenho dos candidatos em diferentes grupos étnicos.

A importância de Iowa, porém, está justamente em ser o primeiro estado a realizar primárias. Nos últimos vinte anos, o escolhido (seja dos democratas ou dos republicanos) como presidenciável venceu as caucuses do estado. Os vencedores da votação – aqueles que superaram as expectativas – ganham importante impulso em suas campanhas das primárias – e vice-versa. Segundo o estatístico e cientista de dados Nate Silver, Iowa é o segundo estado mais importante quando falamos de momentum, atrás apenas da Super Terça-feira. Veja na tabela abaixo:

Levante Ideias - Gráfico estados que produzem maiores saltos

Mas e a confusão toda?

Entendendo a dimensão do primeiro estado a ir às urnas, resta agora questionar qual é o rescaldo de toda a confusão envolvendo os votos nas caucuses de 2020. Ainda é cedo demais para ter certezas, mas algumas interpretações são unânimes entre analistas. A primeira delas é que Donald Trump sai bastante beneficiado da ineficiência do processo eleitoral dos democratas.

O presidente já capitalizou em cima do episódio, questionando se algum democrata teria condições mínimas de conduzir um país como os EUA. Afinal, nem mesmo na eleição de de um dos 50 estados americanos eles tiveram sucesso… 

O segundo diagnóstico, quase certo também, é que o maior perdedor entre os democratas foi Joe Biden. Se, por um lado, não era esperado que o ex-vice ganhasse no estado, por outro, não se esperava uma performance tão pífia do candidato que ainda lidera (por enquanto) a Super Terça e outros estados-chave. Enquanto Sanders se consolida como o real candidato mais à esquerda, agora surgem dúvidas quanto à capacidade que Biden teria para conquistar a maioria dos democratas mais moderados. Nesse contexto, não seria nenhuma surpresa se Buttigieg tomasse esse “centro” de Biden. Ou até mesmo se o voto dos mais moderados se pulverizasse, abrindo caminho para uma vitória de Sanders.

 

New Hampshire vem aí

Por mais que todos os ruídos envolvendo Iowa tenham estragado toda a repercussão do resultado em si, é evidente que o primeiro estado em que ocorrem as eleições primárias continua sendo importante para a definição do que ocorrerá daqui para a frente. Na próxima terça-feira (11), os cidadãos de New Hampshire irão às urnas votar no candidato democrata que eles querem que os representem.

Em New Hampshire, Bernie Sanders é franco favorito – em 2016, foi o estado em que o senador venceu Hillary Clinton com a melhor vantagem. As pesquisas eleitorais mostram isso e, surpreendentemente, colocam o “Mayor Pete” em segundo lugar. Veja no agregado das pesquisas abaixo, o qual foi feito pelo site FiveThirtyEight:

Levante Ideias - Gráfico democratas 2020

Enquanto que Sanders e Buttigieg despontam, Biden e Warren (que teve uma votação medíocre em Iowa) vêm decrescendo – refletindo exatamente o sentimento do último pleito. Bloomberg corre por fora, já que decidiu usar seus recursos de campanha na Super Terça e nos estados posteriores. O resultado da próxima terça afunila ainda mais a corrida, sendo que já poderemos ver algumas desistências na semana que vem. A grande dúvida do momento é: Buttigieg tem fôlego para disputar contra Sanders, ou Biden vai recuperar seu favoritismo nos estados nas primárias?

Um grande abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

Leia também: A política tem seu próprio tempo.

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