Política sem Aspas

O dilema democrata

Nos comitês regionais do Partido Democrata, ao redor de todos os Estados Unidos, há um grande objetivo – quase que uma obsessão: derrotar, no dia três de novembro de 2020, Donald Trump. Nenhum democrata ainda conseguiu digerir a derrota, em 2016, de Hillary Clinton para o empresário americano.

Que o objetivo é derrotar Trump, disso não há dúvidas. Mas ouse perguntar para uma roda de democratas sobre quem deve enfrentá-lo. É quase certo que você ouvirá uns dois ou três nomes diferentes. Provavelmente, citarão Bernie Sanders e Joe Biden. Sobre o terceiro, penso que as respostas podem variar entre Bloomberg, Buttigieg, Warren ou, até mesmo, Klobuchar.

Esse é o dilema democrata que deve assombrar – desde a primeira primária, em Iowa, até, pelo menos, a Super Tuesday – os dirigentes e apoiadores. Afinal, quanto mais tempo se gasta com a definição do candidato à presidência, menos se tem para planejar uma estratégia contra Trump e focar todos os esforços nela. A primária de Iowa (que, na verdade, é um caucus) ocorre nesta segunda-feira (3 de fevereiro), enquanto a Super Tuesday está marcada para um mês após, no dia três de março. Se você estiver perdido com as terminologias e com o processo eleitoral americano, sugiro a leitura deste meu outro texto!

O que ocorre, neste momento, é que as intenções de voto dos democratas estão bastante pulverizadas, principalmente em Iowa – o primeiro estado. Sanders e Biden oscilam na liderança, a depender da pesquisa eleitoral. Warren e Buttigieg correm por fora, assim como Klobuchar e Yang. Para conquistar pelo menos um delegado, os candidatos precisam ter, pelo menos, 15% dos votos finais. Nesse contexto de dispersão dos votos, o percentual parece um grande desafio. As pesquisas, no entanto, só são retratos do longo filme que o processo de eleições primárias representa.

Lembrando que a campanha das primárias é diária e muito intensiva. Isso ocorre porque o voto é facultativo, ou seja, candidatos e seus apoiadores saem às ruas – quase que em um estilo passivo-agressivo de fazer campanha – para tentar convencer qualquer cidadão de sair para votar no dia D. Além disso, o caucus obriga os eleitores a debaterem projetos, chances e preferências sobre candidatos entre eles mesmos. O que significa que tudo pode acontecer ao fim deste processo, já que não é possível prever como serão as discussões.

O resultado passa, também, pela segunda preferência daqueles eleitores que devem votar em/indicar candidatos com poucas chances reais de vencer. É o caso do eleitorado de Klobuchar, Yang e, até mesmo, de Buttigieg e Warren – a depender do desdobramento das conversas no dia do caucus. Nenhum dos três candidatos, porém, está disposto a formar qualquer tipo de “aliança” com candidatos maiores. Acreditam que vão entrar na disputa na próxima segunda-feira para vencer. Como se não soubessem já que suas campanhas não terão mais fôlego após primárias em dois ou três estados. O jogo está mais duro que o normal no Partido Democrata.

Como disse Andrew Yang, jovem empresário que ainda está na corrida: “As pessoas que me apoiam são muito diversas […], eu francamente penso que teria dificuldades em motivá-los a fazer algo que não fariam naturalmente”.

Em suma, o primeiro estado que revelará suas preferências passa por uma grande nuvem de incertezas para todos os concorrentes, sem exceção. Como escreveu, recentemente, a repórter de política do The New York Times, Lisa Lerer, pode ser que haja vários vencedores em Iowa. Mas como assim? Na política, realmente, não há prêmio de consolação ou qualquer medalha estilo honra ao mérito.

Vejamos: Iowa não é significante em termos de delegados garantidos na convenção nacional (serão escolhidos somente 41 de um total de 3.969 delegados no estado). Na verdade, o estado chama atenção por ser o primeiro nas votações e, portanto, começar a moldar quem terá chances reais de conquistar a vaga de candidato à presidência. Em outras palavras, será com base nos resultados de Iowa, New Hampshire (11/fev) e Nevada (22/fev) que serão separadas as crianças dos adultos.

Por isso, Iowa deve reabrir ou fechar, de vez, portas para alguns. Curiosamente, podemos ter mais de um candidato se vangloriando do resultado após a apuração oficial. Analistas não descartam um cenário em que Sanders consegue a maioria de votos nominais; Biden, a maioria dos 41 delegados; e Buttigieg, os condados mais rurais. Imagine só a narrativa: Sanders cantaria vitória por ser o mais apoiado em termos numéricos. Já Biden, por largar na frente da corrida até a convenção nacional. Por fim, Buttigieg renovaria seu fôlego eleitoral ao vencer no principal calcanhar de Aquiles dos Dems: os condados rurais.

Enquanto isso, o dilema do partido continua se arrastando e pode até ficar pior. Nesse caso, Trump, da sua confortável cadeira da Casa Branca, sorri e agradece.

Um grande abraço,

Felipe Berenguer
felipe.berenguer@levante.com.br

Leia também: Resultados de Iowa, Trump absolvido

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