SoftBank / Reuters

SoftBank: o Bubbaloo do Venture Capital?

Texto escrito por João Gabriel Chebante, consultor de marketing

No último post (que gerou ótima repercussão) falei sobre o não-IPO do WeWork, as falhas de governança e de roadshow, além de um pouco sobre a valoração de startups, que é bem diferente de empresas consolidadas.

Para retomar este tema, que ainda explorarei mais porque é bem polêmico, e de uma bagunça a gente sempre gosta, de forma bem básica, o valuation de uma startup parte da seguinte premissa:

A empresa precisa “comer caixa” para garantir rápido crescimento.

A partir desta validação, fundos de investimento acordam com a startup a demanda de caixa para atingir uma taxa de crescimento anual interessante para ambas as partes.

Este valor de incremento ao caixa será usado para aporte no ganho de escala dos processos e, como a conta é feita “de trás para a frente”, a valoração, não raro, atinge saltos incríveis a cada rodada.

Sentiram falta de alguma palavra nos tópicos acima?

Pois é, foi a mesma que os investidores sentiram ao olhar os números das empresas WeWork, Uber e Lyft, os três principais IPOs ligados a startups em 2019: LUCRO.

No caso do Uber, o prospecto inclusive reportou que a empresa pode nunca ser lucrativa. Resultado, enquanto a primeira nem veio à Bolsa, as outras duas enfrentam fortes perdas em relação ao valor de entrada no mercado.

SoftBank: o pai de todos

O fator em comum entre eles: a presença do SoftBank, o maior fundo de investimento em Venture Capital do mundo, com captação acima de US$ 100 bilhões e aportes em mais de 70 empresas.

Na América Latina, possui um fundo exclusivo de US$ 5 bilhões e alguns dos investidos são NuBank, Banco Inter, GymPass, Loggi, Quinto Andar, MadeiraMadeira e Creditas – apenas os dois últimas não são ainda unicórnios, com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão.

É aqui que entra a reflexão deste artigo.

Não seriam as decisões do SoftBank o ar inflando o chiclete rumo a uma nova bolha de startups?

Até entendo que o conceito de uma startup é não gerar lucro, mas sim gerar crescimento rápido das suas atividades. Também está mais do que correto que o investimento de risco existe para dar escala às atividades que demandariam tempo demais para execução (e que a concorrência tornaria obsoleta em algum momento).

Mas…Ao mesmo tempo que estamos com o mundo em um estágio de alta liquidez, com juros negativos em boa parte do planeta e à procura de ativos mais atraentes, será que a busca por fundamentos está se tornando secundária nas teses de investimentos?

Uma exceção

Sempre gosto de lembrar às startups que buscam investimentos e aportes, bem como fundos, os quais estou desenvolvendo aprendizados e projetos, como se deu a história da Amazon.

Por 15 anos, o e-commerce de Bezos não gerou lucro algum. Boa parte deste tempo inclusive, o EBITDA era negativo. Mas havia um propósito claro: a “compra” de clientes e o desenvolvimento de tecnologias e mercados para tornar-se a principal referência de loja online nos EUA.

A partir do momento em que conseguiu reduzir a demanda de caixa para rolagem de projetos de crescimentos de receita e mercado, rapidamente veio não somente o lucro, como Bezos se tornou o homem mais rico do mundo. E dono de 30% do varejo online da América.

O fundo japonês

É super bem-vinda a existência de um fundo vencedor como o SoftBank, cujo retorno no seu primeiro fundo foi de 62% aos acionistas (turma que inclui, além da própria empresa, fundos soberanos de Cingapura, Arábia Saudita, Abu Dhabi e Omã) em dois anos.

Dita uma tendência de investimento privado em inovação e mostra um caminho para uma série de pessoas – empreendedores, empresas e investidores – prepararem-se ao “hype”.

Especialmente em países nos quais a cultura startup está consolidando-se, como o Brasil.

O que me preocupa é se a gripe de um fundo que toma algumas decisões que hoje soam como ousadas, mas a médio prazo podem se apresentar como erradas, pode se tornar referência de comportamento-padrão de todo um ecossistema em crescimento. E aí culmina em uma pneumonia generalizada por péssimas escolhas.

Porque, ao final do dia, toda empresa precisa gerar caixa positivo para sobreviver. E precisa ser uma operação minimamente lucrativa para valer a pena a todos os envolvidos em algum ponto no tempo. Será que essa bola de Bubbaloo explode?

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