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Pesquisas eleitorais: sinônimos de tiro no escuro?

No fim de semana passado, foram firmadas todas as chapas presidenciais para as tão esperadas eleições de 2018. O período de convenções partidárias se encerrou no domingo (5), e os partidos agora devem se debruçar nas burocracias de registro das candidaturas, cujo prazo máximo se encerra no meio do mês de agosto. Enquanto isso, vamos acompanhando a divulgação de diversas pesquisas eleitorais.

Se contemplarmos as pesquisas de intenção de voto de maio, junho e julho, é possível apontar para algumas alterações de cenário com relação às candidaturas, ou seja, perguntas foram feitas com base em um grupo de candidatos que não existe mais. Tanto Ibope quanto Datafolha, por exemplo, não conduzem pesquisas desde o início de julho, porque preferem esperar a definição das chapas e coligações ao Planalto – agora quase certas, com exceção da candidatura do PT.

O que quero dizer com isso é que só agora estamos no momento de olhar para pesquisas eleitorais e começar a tirar conclusões. Sempre lembrando que pesquisas são reflexos do modo em que os entrevistados estão enxergando a política e, mais que isso, em quem eles acreditam que, no momento, trará algum tipo de melhoria no seu bem-estar. Isso em condições normais de temperatura e pressão, cujo eleitorado sempre teria algum tipo de interesse por trás do voto – é imaginável que as pesquisas comportem também aqueles desinteressados que escolhem um candidato na entrevista e trocam como trocam de camiseta.

Afinal, as pesquisas eleitorais são acertadas ou não passam de previsões furadas?

Não é bem assim. Nesse universo, nada é tão binário.

A primeira questão a ser entendida é que mesmo entre os produtores de pesquisa, há divergência metodológica que altera, ainda que de forma marginal, o resultado. No Brasil, atualmente são efetuadas tanto pesquisas presenciais quanto via telefonema. A primeira, usada por institutos como Datafolha, Ibope e Paraná Pesquisas, tem um recorte amostral baseado em critérios de renda, região, entre outros. Já o segundo tipo conta com uma amostra aleatória para, depois, corrigir de acordo com as proporções – caso do Ipespe e do DataPoder360.

Quem critica o modelo via telefone afirma que ele causa distorções na amostra por ser aleatório e não ter o contato pessoal. Ele, consequentemente, seria pouco fiel à intenção real de votos se ela pudesse ser mensurada em escala nacional. Por outro lado, quem defende o modelo à distância argumenta que ele é adotado por países referência, como os EUA, e vem obtendo sucesso. Inclusive, a falta de contato humano eliminaria qualquer tipo de influência do entrevistador ou a pressão sobre certas respostas do entrevistado, tornando o método mais preciso.

Como podemos ver abaixo, existem sim alguns resultados pouco fora da linha, como o caso do desempenho de Marina Silva no DataPoder360 de julho, ou ainda o pico de Bolsonaro no resultado da Paraná Pesquisas, também de julho. Não é possível afirmar que um ou outro método está correto, mas, para efeitos de comparação é sempre melhor separar pesquisas em diferentes grupos de acordo com a metodologia de cada.

Levante Ideias - Pesquisas Eleitorais

Em segundo lugar, vale ressaltar que, apesar dos erros, as pesquisas eleitorais são confiáveis para compreender certos comportamentos do eleitor e escaloná-los. Na realidade, quanto mais próximas das eleições, mais precisas ficam as pesquisas eleitorais. O autor Guilherme Duarte, do site de notícias JOTA, publicou um gráfico (disponível neste artigo: https://www.jota.info/eleicoes-2018/institutos-de-pesquisas-erros-ou-acertos-30012018), que analisa a diferença entre pesquisas e os resultados eleitorais no tempo, usando todas as pesquisas de 4 grandes institutos desde 1998.

O resultado aponta que nas pesquisas feitas até 8 dias antes das eleições a divergência é de quase 10%. Após esse período, a média de divergência cai para 5% e se aproxima muito da diferença esperada, que está em torno de 4% (afinal, ninguém é vidente).

Levante Ideias - Diferença absoluta entre pesquisas e resultados

Lembre-se que olhar somente para pesquisas eleitorais para fazer previsões é como inferir que fará calor em um dia porque ele amanheceu ensolarado. Uma análise política bem fundamentada irá mesclar diversos indicadores: pesquisas eleitorais, capilaridade do partidos nos Estados e municípios, recursos e coligações, entre outros.

A conclusão é, portanto, que as pesquisas eleitorais não são tiros no escuro e que, mesmo que com metodologias diferentes, dão pistas de quem a população quer ver eleito ou eleita. Quanto mais perto do pleito, mais confiáveis são essas pistas.

Passando da análise empírica para o campo das ideias, tenho a impressão também de que dois fenômenos decorrem, em alguma escala, das apurações das intenções de voto. O primeiro é o chamado “voto útil”, exercido pela parcela do eleitorado que não vê o seu candidato ideal com chances de eleição, então vota em outro político, simpatizando às ideias dele. O segundo é o efeito multiplicador, fruto das expectativas de aumento ou queda de certo candidato, que pode impulsioná-lo para além do previsto – em uma espécie de efeito manada.

Para não exaurir você, leitor, com um texto muito longo, hoje não entrarei em detalhes sobre essas duas possibilidades. Quem sabe mais para frente volto ao tema com mais detalhes.

Um abraço,

Felipe Berenguer

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