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Gabinete Anticaos – Ep. 35

Olá, investidores.

Tudo bem?

No Gabinete Anticaos de hoje, analisaremos os principais pontos da fala de Warren Buffett na reunião anual de acionistas da Berkshire Hathaway de 2020.

O que pensa um dos investidores mais renomados do mundo a respeito da crise atual? Quais as recomendações do CEO da Berkshire Hathaway para os investimentos de longo prazo?

Todo ano, os acionistas da Berkshire Hathaway se reúnem para ouvir o que o “Oráculo de Omaha” tem a dizer. No último sábado (2), aconteceu a tão esperada reunião anual de acionistas da Berkshire (disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=69rm13iUUgE). Nela, investidores puderam testemunhar ensinamentos deste que é considerado um dos mais sábios conhecedores do mercado financeiro: Warren Buffett. Devido à pandemia do novo coronavírus, no entanto, as dezenas de milhares de pessoas que normalmente visitavam a maior cidade do Estado norte-americano de Nebraska para assistir à reunião anual tiveram de se contentar com um evento remoto (transmitido ao vivo).

Apesar de não poder convidar acionistas para se juntar a ele pessoalmente, Buffett, entretanto, queria ter certeza de manter abertas as linhas de comunicação com os investidores. O presidente e CEO da Berkshire disse muita coisa a respeito da situação atual, respondendo a perguntas compiladas por conhecidos jornalistas financeiros e abordando algumas das questões mais importantes levantadas pelos seus seguidores ultimamente.

O Oráculo deu mais uma aula sobre investimentos.

Nunca aposte contra a América

Buffett sempre acreditou nos Estados Unidos; a pandemia do coronavírus não mudou sua opinião sobre isso em nada. Ele deu uma extensa aula de História sobre a nação, apontando para os desafios enfrentados no passado e explicando a maneira como a nação norte-americana os superou.

Falou praticamente sobre tudo da História norte-americana, desde a independência, em 1776, até os dias atuais, passando pela Grande Depressão, tema bastante aprofundado por ele, no qual mencionou o quanto o medo daquele período ficou na mente das pessoas que viveram aquela época e acabou sendo disseminado para as outras gerações. Falou até do Brasil, da população em 1822 e do quanto EUA e Brasil são países “novos”, economias recentes.

A economia americana vai se recuperar. Buffett usa eventos traumáticos do passado para reforçar seu argumento. Ele usou, por exemplo, a situação da Guerra Civil do século 19, em que 6 por cento da população masculina economicamente ativa foi perdida – em uma época em que praticamente todos os trabalhadores eram homens.

Mesmo assim, Buffett afirma não ser capaz de prever para qual direção as ações irão amanhã, na próxima semana, no próximo mês ou até no próximo ano. Todavia, ele acredita que os Estados Unidos estão, em 2020, em melhor forma do que estiveram em qualquer outro momento da história do país. Ademais, explicou como os investidores que investem dinheiro em ações visando o longo prazo agora serão amplamente recompensados.

Solidez financeira acima de tudo

Esta é uma das principais lições recorrentes de Buffett – basta ler suas cartas. Entretanto, esta lição é, em certa medida, deixada de lado – já que é comumente julgada como “óbvia”.

Todavia, ela é fundamental. Por isso, ele sempre faz questão de reiterar este ponto, mostrando o enorme caixa que a Berkshire Hathaway já possui há vários anos (124,7 bilhões de dólares atualmente) e vem crescendo com o passar do tempo. Mesmo agora, diante da forte queda das ações nos Estados Unidos, ele segue mantendo o caixa.

Neste momento de crise, por conta de uma busca por liquidez muito forte, o fluxo de pagamento e a fluidez normal do sistema financeiro podem parar quase que da noite para o dia. E o problema é que não é possível saber quem estará no comando do Federal Reserve (Fed) em cada situação. Mesmo elogiado a atuação do atual presidente do Banco Central americano, Jerome Powell, segundo Buffett, você não deveria correr o risco de estar no meio de uma crise de liquidez e não haver um presidente do Fed disposto a injetar essas medidas emergenciais às empresas e ao sistema financeiro como um todo.

Mesmo no pior momento econômico desde a Grande Depressão, a Berkshire Hathaway não vai precisar de nem um centavo de ajuda governamental por causa dessa liquidez financeira, o que permite que Buffett e Munger durmam tranquilos.

Se o restante dos agentes da economia também se comportasse assim, dificilmente todo esse nível de injeção de liquidez emergencial que estamos vendo agora seria necessário.


Se você não quer escolher ações, um ETF do S&P 500 é uma excelente opção

Buffett sugere que uma maneira igualmente boa de os investidores participarem da ascensão gradual do mercado de ações ao longo do tempo é investir em um fundo de índice S&P 500. Como alguns ETFs nos EUA chegam a ter uma taxa de administração de apenas 0,04 por cento (enquanto o IVVB11 tem taxa de administração de 0,24 por cento ao ano) e ainda distribuem dividendos (o que não ocorre no Brasil), os fundos de índices podem dar aos investidores exposição às empresas que foram responsáveis pelo sucesso econômico dos Estados Unidos ao longo de décadas.

Investir em um fundo de índice não é apenas uma aposta na resiliência dos Estados Unidos. Com tantas empresas multinacionais no S&P 500, os fundos de índice permitem que você seja dono de empresas que estão obtendo sucesso em vários outros países do planeta.

Se você ainda não tem uma conta aberta em uma corretora de valores nos Estados Unidos, está mais do que na hora de você se tornar cliente de alguma delas. E aqui vem a notícia boa: o processo é bem simples. Algumas corretoras oferecem até sites em português, como é o caso da Avenue.

No Brasil, a situação é parecida com a dos EUA – embora levemente diferente. Os ETFs continuam sendo uma boa opção para quem não quer investir tempo em analisar ações e também para aqueles investidores de perfil conservador, já que o grau de diversificação possibilitado é bem maior do que o da compra isolada de ações.

Entretanto, bater o Ibovespa é algo bem mais factível do que vencer o S&P 500. Isto ocorre principalmente por dois motivos:

  1. O Ibovespa é muito concentrado em bancos e commodities. Portanto, de forma simplista, basta que você tenha um desempenho superior a estes dois setores para superar o Índice por aqui.

  2. Por ser um mercado mais maduro, com uma disponibilidade de informações e quantidade de investidores bem maiores, o mercado americano é bem mais eficiente na precificação de seus ativos.

Portanto, o investidor brasileiro que pratique a gestão ativa e se dedique a estudar seus aportes pode e deve se beneficiar no longo prazo.

Outro ponto que vale a atenção é a incidência de Imposto de Renda. Os investidores ficam isentos de imposto caso vendam até 20 mil reais dentro de um mesmo mês. Entretanto, esse privilégio não vale para os ETFs, que são tributados normalmente (15 por cento sobre os lucros) – independentemente de se o investidor respeitar, ou não, os 20 mil reais de venda no mês.

Buffett acha que renda fixa não é um investimento tão bom quanto ações

Outra razão pela qual Buffett gosta de ações é que as outras alternativas não são muito boas. Os títulos do Tesouro dos EUA com vencimentos em 30 anos, na média, rendem apenas 1,25 por cento ao ano. A própria Berkshire se aproveitou das baixas taxas de juros e emprestou dinheiro a juros zero.

Em março, enquanto o mundo estava fixado no derretimento do preço dos ativos, Warren Buffett estava atento às oportunidades. A Berkshire Hathaway levantou 1 bilhão de euros por meio da emissão de uma debênture no mercado internacional. O cupom a ser pago semestralmente? Zero. A debênture foi precificada a 99,795 do valor de face, o que se traduz em um custo efetivo de 0,04 por cento ao ano para a companhia.

Apesar do momento conturbado, Buffett acredita que o vento a favor da economia dos EUA persistirá. Por isso, ainda que haja oportunidades incríveis de captação, como a debênture de sua própria empresa, segundo o CEO da Berkshire Hathaway, para superar os Títulos americanos de 30 anos, mais do que superar a inflação, é preciso investir em ações.

Buffett admitiu que errou com as companhias aéreas

No início de abril, a Berkshire vendeu quantias substanciais de suas participações na Delta Air Lines e Southwest Airlines, tendo que divulgar as vendas publicamente, já que detinha mais de 10 por cento das ações em circulação das duas companhias aéreas.

Em um primeiro momento, parecia que Buffett poderia estar simplesmente reduzindo suas posições abaixo de 10 por cento para evitar complicações futuras. No entanto, Buffett informou que vendeu um total de 6,5 bilhões de dólares em ações em abril, muito mais do que as vendas reportadas pela Delta e pela Southwest. A venda também incluiu ações da United Airlines e da American Airlines. Questionado posteriormente, o CEO da Berkshire disse que a empresa vendeu todas as suas posições nas quatro companhias aéreas.

Fundamentos em primeiro lugar

A venda das ações das companhias aéreas citadas acima não tem a ver com a queda específica atual do mercado ou com uma possível nova queda no curto prazo. Para ele, não importa o movimento do preço dessas ações no curto prazo. O ponto fundamental para Buffett é que o modelo de negócio de linhas aéreas mudou radicalmente por conta da pandemia. Ademais, ele não sabe se o mundo em que vivíamos há dois meses será o mesmo em que viveremos daqui para a frente.

Se as pessoas não voltarem a viajar como viajavam antes, a demanda por espaço em aviões pode mudar significativamente, como já mudou agora. Além disso, na visão dele, por causa dos cuidados adicionais para evitar o contágio, seja por parte da empresa ou por decisão pessoal do viajante, é bem possível que a demanda por esses serviços mude radicalmente daqui para a frente, perdurando talvez por anos e demorando muitos anos para voltar ao patamar pré-coronavírus – se é que um dia isto irá acontecer.

Portanto, o modelo de negócio mudou. A incerteza é muito maior. Diante disso, Buffett se vê incapaz de prever mais claramente a continuidade desse negócio – como fazia anteriormente. Por isso, ele prefere não estar exposto a este setor.

Buffett não culpou os CEOs das companhias aéreas. No entanto, o líder da Berkshire não se sente mais confortável em esperar que as companhias aéreas voltem a seus níveis pré-coronavírus. “O mundo mudou para as companhias aéreas, e desejamos a elas tudo de bom”, disse o Oráculo.

De olho em Buffett

O otimismo de Buffett atrai investidores de todo o mundo. Para aqueles que entraram em pânico com as quedas de fevereiro e março, ouvir Buffett pode restaurar a confiança no mercado de ações como o criador de riqueza a longo prazo.

A frase que fica é a seguinte: “Nunca apostem contra a América.” Buffett disse ainda que nunca se deve operar alavancado.

Outro recado importante dele: quando algo como uma pandemia surge, é difícil saber o que ocorrerá no futuro.

Entretanto, não importa o que aconteça com o mercado de ações nos próximos meses – ou com o preço das ações da Berkshire no próximo pregão -: as palavras de Buffett nos lembram que sempre conseguimos superar desafios difíceis no passado. Desta vez não será diferente.

Em resumo, três lições importantes:

  1. Siga investindo em ações.
  2. Não especule e não se alavanque.
  3. Diversifique e não aposte contra os EUA.

Com 89 anos e 124 bilhões de dólares em caixa, ele segue um Oráculo.

Até breve,
Equipe Gabinete Anticaos

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