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Gabinete Anticaos – Ep. 16

Olá, investidores.

Tudo bem?

O relatório de hoje (02) do Gabinete Anticaos foi escrito por José Luís Bevilacqua, formado em medicina pela PUC-SP em 1976 e especialista em Terapia Intensiva.

“Teoricamente, haveria 3 maneiras de acabarmos com a Covid-19. A primeira seria um confinamento social brutal, por tempo muito longo, no qual se evitaria ao limite qualquer aglomeração de pessoas e se testaria a população para o coronavírus, o que é obviamente impraticável quando o grau alcançado é o de uma pandemia – como é o nosso caso. A segunda maneira seria uma vacina que protegeria a muitos, mas ainda não a temos. E, por último, a terceira maneira consiste em deixarmos a exposição da população ao vírus ocorrer e, quando um percentual muito grande da população tivesse sido infectado, teríamos o fim da pandemia.

Em uma análise rápida das duas primeiras possibilidades, todos concordamos que o tempo necessário para concretizar a primeira, embora ainda não conhecido com precisão, seria longo o suficiente para destruir pilares sociais e econômicos; portanto, vê-se que, aqui, o remédio seria mais amargo e levaria a mais mortes do que a doença. No caso da segunda possibilidade, a da vacina, estima-se, nos casos mais otimistas, que a tenhamos só em um período de 12 a 18 meses. Portanto, neste momento, como não temos a ‘bala de prata’ – e como ela só estaria em condições de uso em um futuro distante -, resta-nos apenas a terceira possibilidade.

Entretanto, no caso da Covid-19, ela não é aplicável. Mas por qual razão? Porque o coronavírus tem características peculiares de rápida disseminação na população humana. Além disso, dentre indivíduos em que causa uma infecção mais grave (20% dos infectados), há um subgrupo menor em que as pessoas adoecem gravemente e necessitam de tratamento prolongado em regime de terapia intensiva e assistência ventilatória (cerca de 3 semanas em média). Aqui é fácil entender o motivo de haver uma preocupação mundial com o número de leitos e com os aparelhos de ventilação mecânica. Exemplificando, cada indivíduo que desenvolva a forma mais grave da doença, que tem sido chamada de ‘tormenta inflamatória’, necessitará de um leito e um respirador por, em média, 21 dias.

É por este motivo que medidas como o confinamento horizontal foram tomadas na tentativa de reduzir o pico de incidência da doença, que poderia ter um número superior de casos graves com relação à capacidade instalada total. Isso levaria à incapacidade de se atender muitos doentes, os quais morreriam por falta de leitos e equipamentos. Podemos ter o mesmo número de doentes de maneira escalonada (mais espaçada ao longo do tempo) e, com isto, conseguir dar a eles a chance de sobreviver. Esta situação de necessidade (demanda) maior que oferta ocorre – ou ocorreu – em quase todos os países que sofreram com a pandemia, inclusive na Alemanha, que tem uma das evoluções mais favoráveis até o momento. Lá, profissionais do Instituto Robert Koch relataram falta de álcool em gel e de máscaras nos primeiros dias da pandemia.

Outro aspecto que poderá ajudar na evolução da contenção da doença – e no tratamento de infectados – consiste no fato de que, a cada dia, teremos mais doentes se curando (os 80% que não apresentam sintomas – ou que os sentem de forma leve – vão se curar) e, assim esperamos, ficando imunes ao novo coronavírus. Isso também se aplica ao grande percentual dos que apresentarem um quadro clínico mais exuberante e aos doentes graves. Quando alcançarmos um percentual grande de indivíduos que, após terem a doença, desenvolverem imunidade, a doença tenderá a desaparecer. Para fins exemplares: em uma publicação brasileira na qual se testou a população exposta ao vírus Zica em Salvador, estima-se que 63% da população local tinham sido expostas ao vírus, o que, segundo as especulações dos pesquisadores, foi a causa principal do fim do surto (High Zika Virus Seroprevalence in Salvador, Northeastern Brazil Limits the Potential for Further Outbreaks). 

A questão da imunização pelo contágio merece aqui um comentário. Tomamos emprestado da Imunologia, na área de imunização, os conceitos de imunidade coletiva e de efeito rebanho; imunidade coletiva é aquela adquirida após a vacinação de um grande percentual da população. Quando a temos presente, também temos o efeito rebanho, que consiste no caso daqueles indivíduos que, por qualquer motivo, não puderam receber a vacina, mas se beneficiaram do grande grupo imunizado. E é isso que queremos fazer atualmente, por semelhança, com os idosos da nossa população.

Após tudo isso, gostaria de fazer algumas considerações, criando assim uma fotografia do momento atual:

  1. Covid-19 é uma doença da qual, por ser nova, ainda conhecemos muito pouco e sobre a qual, a cada dia que passa, aprendemos coisas novas. Para um pequeno percentual dos que adoecem, ela não representa uma gripe, mas sim uma grave pneumonia.
  2. Muito do que está sendo feito e proposto pela ciência para reduzir o impacto da doença é baseado em dois fatores: no conhecimento histórico de outras epidemias e nas experiências vividas na China e na Itália.
  3. Muitos esforços estão sendo realizados em todo o mundo para a redução de danos. Para exemplificar, temos os casos dos grandes nomes da indústria automobilística, que estão envolvidos na fabricação de respiradores, ou o caso dos pesquisadores da Malásia e da Indonésia que publicaram um estudo elegante no qual avaliam o combate ao coronavírus pelo uso de vegetais como gengibre e cúrcuma – por meio de algumas substâncias ativas que eles têm.
  4. Hoje em dia, no mundo todo, todos os países que têm tradição em Saúde Coletiva e Epidemiologia – e a própria Organização Mundial da Saúde – recomendam o confinamento social como a principal medida a ser tomada pela população no combate à Covid-19. Acredita-se que, em determinado momento, esta medida será modificada, mas certamente será à luz da ciência. Alguns governantes a retardaram, mas já mudaram de posição. Outros estão arrependidos pelo retardo.
  5. Não há, até este momento, qualquer medicamento que possa, com segurança científica, ser indicado aos doentes contaminados pela Covid-19. Vários estudos com diversas drogas de diferentes grupos farmacológicos estão em andamento. O aforisma ‘primum non nocere’ (‘primeiro, não prejudicar’) deve continuar norteando atos médicos. Ademais, todos sabemos que medicamentos têm efeito adverso; e, em suma, é da análise do benefício frente ao efeito adverso que se norteia a prescrição, ou não, de uma droga.
  6. Ainda não sabemos como e em qual nível a temperatura ambiente mais elevada pode ser pior para o vírus, qual a influência da densidade demográfica para disseminação da Covid-19 e se a alta mortalidade na Itália está relacionada ao elevado percentual de idosos. No Japão, país com o mais alto percentual de idosos dentro da população, tem, até o momento, a pandemia comportando-se de modo diferente do que ela vem se comportando na Itália.

Para finalizar, uma posição pessoal. Não podemos, por não aceitar as recomendações da ciência, negar a chance de sobrevivência a qualquer paciente. E se porventura o desfecho for aquele indesejado, que possamos realmente nos solidarizar com as dores de cada família e evitar o custo emocional que a não possibilidade de sepultura de um ente querido causa a familiares – como vimos ocorrer na Itália. Poderemos ter problemas, falta de insumos, excesso de trabalho; mas, dentro de uma linha mestra, espero que a ciência nos norteie – e não crendices ou falta de empenho.”

Até breve,
Equipe Gabinete Anticaos

 

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