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Gabinete Anticaos – Ep. 02

Olá, investidores.

Não é novidade para ninguém que ontem tivemos um dos piores desempenhos das bolsas globais desde 1987. Os motivos foram os seguintes: a deterioração da confiança e a ineficiência das poucas medidas anunciadas até o momento, o que fez com que o pânico continuasse a reinar.

Hoje, entretanto, com os principais ativos de risco subindo, já vemos uma melhora – mesmo que pequena – do humor mundial.

As razões da melhora no humor global têm motivo, nome e mais de um sobrenome: a movimentação das principais autoridades para mostrar que estão buscando alternativas viáveis para aplacar o impacto do aumento do número de pessoas contaminadas e, principalmente, as medidas visando suavizar os impactos na economia mundial.

Confiança tem que ser o nome do jogo

Como abordamos no nosso primeiro relatório de ontem do Gabinete Anticaos, o momento de mercado é uma mistura de pânico e incertezas. E nada melhor que atitudes concretas e transparentes por parte das principais autoridades do mundo para trazer confiança e segurança aos mercados, assim acalmando os ânimos gerais.  

Os governos ao redor do mundo estão tomando medidas para evitar a propagação da doença. Já tivemos o adiamento de diversos eventos esportivos e culturais ao redor do globo, como também o fechamento de universidades e escolas. 

Além dos governos, durante a tarde de ontem, tivemos diversas autoridades monetárias ao anunciando medidas de redução de juros e/ou aumento de recompra de títulos.

Para vocês terem uma ideia, o Banco Central Americano (Federal Reserve, Fed) anunciou um pacote de operações compromissadas (o tesouro recompra o título com obrigação de recompra por parte da contraparte) de US$1,5 trilhão em títulos do tesouro americano. A atitude visa prover maior liquidez ao mercado e facilitar o acesso a “capital de giro”, tornando-o mais rápido e a taxas atrativas.

A visão do Gabinete é que as medidas já tomadas não mudarão o momento, mas representam um passo de grande importância. É sempre importante ressaltar: não existe uma única medida salvadora. Os governos e suas respectivas autoridades monetárias terão de atuar em conjunto, visando uma mistura entre política fiscal e monetária para alcançarem estabilizações financeira e econômica.

Em um cenário em que precisaremos de autoridades monetárias e políticas de diversos países atuando em conjunto, devemos continuar vendo movimentos de oscilação nos principais ativos de risco.

Tais pontos, em conjunto com o decorrer das semanas, têm a capacidade de colocar tudo nos trilhos.

A Bolsa vai continuar caindo?

A verdade é a seguinte: não sabemos. Acreditamos que, com as movimentações que vêm sendo anunciadas, os mercados devam parar de agir de maneira irracional. Devemos ter movimentos e oscilações, o que acreditamos ser normal. As quedas mais bruscas – como as dos últimos dias –, porém, devem ser difíceis de acontecer.

As quedas de ontem levaram os múltiplos P/L para o menor patamar dos últimos anos, sendo negociados próximos aos múltiplos de 2014. Apenas para relembrarmos: Preço sobre Lucro é um múltiplo muito importante para análise de empresas, pois relaciona o preço que o mercado está disposto a pagar com o lucro esperado nos próximos 12 meses.

Apenas recapitulando: em 2014, o Brasil flertou com um completo desarranjo fiscal e uma inflação desancorada (6,41%), a qual foi camuflada porque o governo segurou reajustes nos preços de produtos administrados, coisa que não foi possível repetir em 2015, quando a inflação foi para 10,67%.

Então, nossa Bolsa ser negociada nos mesmos níveis de um cenário como esse nos parece um tanto quanto irracional.

2014 até 2020

No início de 2014, já era claro que o forte ciclo de crescimento econômico (que começou em 2004 e que tinha como grande motor o preço das commodities e o consumo interno) havia chegado ao fim.

Se houve um lado positivo na crise do último governo Dilma, podemos resumi-lo no seguinte ponto: ele separou o joio do trigo.

Depois da maior recessão da história do Brasil, em 2017, o País achou o ponto de reversão. Desde 1930 que o PIB não havia caído 2 anos consecutivos. A queda acumulada do produto em 2015 e 2016 foi de 7,2%.

A crise pegou o Brasil. Por isso, tivemos anos marcados por um aumento do desemprego – à época, era comum ver diversas empresas fechando as portas.

Bom, antes de iniciar, é necessário pedir uma “licença poética” aos leitores da área da saúde. Para explicar o que as empresas brasileiras passaram nos últimos anos, vou utilizar a Teoria da Evolução das Espécies e as ideias de Lamarck e Darwin.

Considero as ideias de Lamarck e Darwin interligadas por alguns pontos e divergentes em outros.

Para Lamarck, os seres vivos modificam-se ao longo do tempo em função das pressões exercidas pelo ambiente. Tais modificações, então, passariam para as próximas gerações. Para Darwin, as pressões exercidas pelo meio ambiente selecionam os mais aptos. Assim, tais características permitem que eles vivessem em meio às adversidades e consigam se reproduzir e transmitir os genes para as próximas gerações.

As empresas brasileiras passaram nos últimos anos por uma forte recessão, a qual funcionou como um mix das teorias de Lamarck e Darwin – no caso da Teoria da Evolução. Seguindo o lamarckismo, as empresas adaptaram-se e tornaram-se mais “fortes” para suportar a crise; ou seja, tornaram-se mais eficientes ao reduzir custos, melhorar processos de produção, estratégias mais eficientes para se adequar à nova realidade e perpetuar o negócio. Seguindo o darwinismo, somente as empresas mais fortes, mais eficiente e mais aptas a nova realidade foram capazes de passar pela crise sem grandes sequelas. De lá para cá, realizamos reformas estruturantes, as quais possibilitaram uma melhora no cenário fiscal, que possibilitou a ancoragem das expectativas de inflação e consequentemente uma redução no nível estrutural dos juros.

Ou seja, hoje em dia, temos empresas mais eficientes e muito mais preparadas para crescer, um cenário de recessão que ficou no passado após uma dura batalha e uma economia quente.  Mas os preços das ações mostram os mesmos números de um país quebrado, com inflação e juros nas alturas e PIB de países em guerra.

Em 2014, o fundamento apontava para uma crise. Hoje, se olharmos para o fundamento, temos o oposto disso: é crescimento. Esse movimento de melhora no quadro macroeconômico também foi acompanhado pelas empresas, as quais conseguiram reduzir seus endividamentos e melhorar suas métricas de rentabilidade.

E, por fim, para reflexão, deixamos aqui uma frase de um gestor pelo qual temos imenso respeito e admiração:

“Saber o que não fazer é mais importante do que saber o que fazer neste momento de caos do mercado.” – Luiz, Prumo Capital

É exatamente esta a nossa visão: vender boas empresas neste cenário não é a melhor coisa a se fazer.

Mas, de qualquer modo, não podemos fugir da realidade: a volatilidade continuará no curto prazo. Então, preparem-se para isso. Temos um fim de semana inteiro até o próximo pregão. Ademais, se algo ainda tem validade, este algo é a matemática. Se pode acontecer muita coisa nas 17 horas em que o pregão fica fechado entre um dia útil e outro, pode acontecer muito mais entre as 17 horas de hoje e as 10 horas da segunda-feira. São 65 horas sem negócios, mas com o noticiário a todo vapor.

Até breve,

Equipe Levante

 

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