Levante Ideias - Gabinete

Gabinete Anticaos – Ep. 01

Investidores.

Estamos diante de uma das maiores quedas históricas da Bolsa de Valores em uma semana. Até a tarde dessa quinta-feira, o Ibovespa despencou 25%. A perda no valor de mercado das companhias listada já ultrapassa o montante de R$ 1,1 trilhão no ano. O tamanho do tombo está preocupando, com razão, muitos investidores.

Gabinete Anticaos surge justamente com o objetivo de te ajudar a entender o que está acontecendo. De segunda a sexta, no período da tarde, você vai receber os relatórios especiais. O Gabinete Anticaos também terá conteúdos extras. Nesta quinta-feira, às 22 horas, vai para o ar o primeiro podcast da série. Clique aqui para ouvir

As últimas crises

Eduardo Guimarães, especialista em ações da Levante, é quem tem mais tempo de mercado financeiro da casa. São duas décadas olhando para empresas, analisando balanços financeiros, circulando nos corredores do mercado. Com toda sua experiência, jamais tinha visto um movimento tão forte e tão rápido de queda e, principalmente, de tanta afobação.

Ele viveu o estouro da bolha da Internet, no início dos anos 2000; a loucura do subprime no mercado imobiliário nos Estados Unidos, em 2008, e a crise brasileira a partir de 2014, em que a economia nacional passou por um risco real de insolvência.

Todas elas tinham algo comum: suas causas tinham fundamentos econômicosevidentes e profundos.

Só que o que estamos vivendo hoje é totalmente diferente: não temos uma crise financeira e, sim, uma grande dose de pânico.

É claro que os efeitos do coronavírus reduzem o potencial da economia, com a diminuição da capacidade produtiva em diversos países. E também não restam dúvidas das consequências para o mundo do conflito sobre o preço no petróleo provocado por Rússia e Arábia Saudita.

Só que estamos passando por algo que vai além disso: uma dose enorme de pânico.

Listamos nesta estreia do Gabinete Anticaos 4 pontos para que você tenha a dimensão exata da situação – e por que razão acreditamos que todos os investidores precisam manter a calma:

(i) Já conhecemos o ciclo do Coronavirus 

Para saber o comportamento e a gravidade real dos impactos do coronavírus, basta olhar para onde temos mais dados, informações e principalmente mais tempo do problema: ou seja, vamos olhar para a China.

Fonte: JP Morgan

Como pode observar no gráfico, o ciclo do Conoravirus já está desacelerando na China (linha vermelha). O que foi visto na realidade é um resultado nada perto do impacto esperado na economia chinesa. O grande problema foi o pânico que tomou conta das autoridades e da população. Esse medo, sim, deve ser responsável por algum impacto econômico (mas menor do que o esperado e precificado pelo mercado).

No gráfico é possível ver o mesmo ciclo do Irã (linha laranja), que é um país com uma população pobre. Também já é possível ver uma desaceleração do crescimento do número de casos novos por lá.

Repare que nos Estados Unidos (linha roxa), país que acaba de adotar medidas protetivas, os casos estão começando a crescer.

O importante é observar que o ciclo da doença tem começo, meio e fim.  

Quero mostrar um pouco mais de dados da China, para reforçar os argumentos. Veja os gráficos abaixo.

Fonte: National Health Comission of PRC e JP Morgan

Os gráficos acima reforçam o fato de que na China o coronavírus está contido. No da esquerda, temos o número de pessoas que se recuperam após serem infectadas. À direita, o percentual de pessoas infectadas em condições graves (linha preta), que está em declínio.  

ii) Brasil é mais afetado pela queda na Bolsa do que deveria 

O que vemos nesse momento é um movimento de forte volatilidade e pânico dominando os mercados mundiais, mas isso tem ocorrido em maior proporção no o nosso mercado local.

A Bolsa de Valores brasileira caiu bem mais do que os mercados que estão no epicentro da crise. Por exemplo, ela superou em queda dois dos países mais atingidos pelo coronavírus: China e Itália. 

A China foi, até o momento, o país mais atingido pelo vírus. Foram ao todo diagnosticadas quase 81.000 pessoas com mais de 3.000 mortes. Nesta semana, os números divulgados pelos asiáticos apontam para um controle quase total da epidemia, com o número de novos infectados muito próximos a 0.

A duras penas e com muita disciplina, os chineses conseguiram superar a disseminação da doença em aproximadamente dois meses. É válido destacar ainda que mesmo diante de inúmeras incertezas – por ser o primeiro país a lidar com o problema e sem detalhes das já conhecidas características do vírus – o mercado financeiro por lá não registrou perdas tão intensas como tivemos no Brasil.  

Ao contrário do Ibovespa, o índice da bolsa de Shangai apresentou uma leve queda desde o início do ano, mesmo estando no coração da crise. Enquanto o mercado chinês recuou -4,15%, as ações brasileiras caíram -37,24%. 

Outro caso: Itália. Em meio ao final de semana de carnaval, o país europeu foi surpreendido por um surto de novos casos no norte do país, mais especificadamente na região da Lombardia, que engloba cidades importantes como Milão e Veneza. É estimado que atualmente cerca de 16 milhões de pessoas estejam em quarentena.

Além da letalidade no país ser mais alta devido a parcela da população idosa, o isolamento da região significa perdas enormes para a já frágil economia italiana, visto que o turismo é parte importante no nível do seu produto. É preciso deixar claro que são condições especificas da Itália. E mesmo assim, o principal índice da bolsa italiana registra queda de -32,20% nos últimos 30 dias:

No Brasil, por outro lado, tivemos uma queda de -37,8% no Ibovespa, desde o dia 12 de fevereiro de 2020. Nós acreditamos que esse movimento foi exagerado, dado que o impacto na economia brasileira deve ser muito menor do que na economia italiana, que é altamente dependente da indústria do turismo.

Vamos analisar outro vetor da crise, para mostrar o exagero dos números do mercado financeiro brasileiro: o petróleo. 

Na reunião realizada da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), foi proposto realizar cortes na produção para conter a queda no preço da commodity devido à retração na demanda global por conta do coronavírus. No entanto, a Rússia não concordou com os termos e informou que não iria aderir ao movimento de desaceleração da produção, derrubando o preço do barril do petróleo. Em retaliação, a Arábia Saudita – maior exportadora de petróleo no mundo e a que possui o menor custo de exploração – decidiu aumentar o volume produzido e conceder descontos aos compradores como uma forma de retaliação aos russos. No fim das contas, a Arábia Saudita que tinha como objetivo aumentar o preço do Petróleo, acabou por derrubar a cotação, para prejudicar a concorrência russa. Ou seja, o objetivo final da Arábia é conseguir aumentar o preço do petróleo no médio e longo prazo, mesmo que no curto o resultado seja uma menor cotação.

Isso afetou o mundo todo, claro, dada a importância da commodity. Mas no Brasil o movimento foi muito mais forte. Uma comparação é muito válida por aqui:

Quando comparamos as ações da Petrobras com as ações da Saudi Aramco, estatal saudita do petróleio, observamos o seguinte quadro: a ADR da Petrobras caiu -34% até quarta-feira enquanto as ações da Saudi Aramco negociadas também em Nova York caíram apenas -12%.

Fica claro que o movimento no nosso mercado foi causado por medo. 

iii)  Valor x Preço = a essência da análise fundamentalista 

Olhando com frieza e experiência para os números, o que se vê é uma grande assimetria entre o valor (valor justo) das empresas e o que está acontecendo com os preços das suas ações. 

Acho que dá para reduzir em uma frase: o valor de mercado despencou, mas muitas empresas mantêm bons desempenhos em termos de lucro e de baixo endividamento. Talvez você se pergunte: mas a redução da atividade econômica provocada pelo coronavírus não vai provocar queda nos lucros? Talvez… Mas nada tão intenso como foi o tombo da Bolsa de Valores nestes dias e nem por um longo período de tempo, como você viu no gráfico do ciclo da doença.

iv)   O mais importante: nos preocupamos com você 

O que gera mais preocupação é um fato que não tem correlação com essa comunhão de fatores. Estamos atentos aos mais de 1.031.185 brasileiros que entraram na bolsa nos últimos 12 meses e não sabem lidar com isso da forma mais correta…  

Temos que confessar que não é fácil, e nunca será fácil, mas é algo que esporadicamente irá ocorrer e você terá que conviver com isso.

A mensagem que queremos que você entenda é: nós estamos aqui, do seu lado. Pronto para te ajudar.

Por essa razão, montamos o Gabinete Anticaos. Queremos reforçar o que é importante olhar neste momento de apreensão do mercado financeiro. Faremos isso até os mercados voltarem a se estabilizar.

Uma certeza: todo time de análise da Levante segue reunido para estar ao seu lado. 

Conclusão

A principal mensagem desse primeiro encontro, que queremos que você tenha em mente é que o valuation das empresas está barato. Entretanto, continuaremos com muita volatilidade.  Não há como fugir disso. O coronavírus ainda se espalhará pelo Brasil.  

Os investidores terão, durante esse período,  de desenvolver uma outra habilidade muito importante, a do psicológico e a resistência.

E não esqueça de ouvir o podcast do Gabinete Anticaos no canal da Levante no Spotfy através desse link.

Nos vemos amanhã,

Equipe Levante

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