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Gabinete Anticaos – Ep. 30

Olá, investidores.

Tudo bem?

No Gabinete Anticaos de hoje, vamos falar sobre a importância de saber separar sinal e ruído, além de classificar alguns dos últimos acontecimentos em cada uma dessas duas classes. No entanto, devido ao aos acontecimentos políticos da manhã desta sexta-feira, anexamos um breve comentário – nossos first thoughts – sobre as consequências da demissão de Sérgio Moro ao governo atual e ao mercado.

First thoughts – as consequências da demissão de Sérgio Moro ao governo atual e ao mercado

Nesta manhã, após a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, o ex-ministro da Justiça convocou uma coletiva de imprensa às 11h. Na ocasião, pediu demissão e não poupou duras críticas ao presidente Bolsonaro.

Moro entendeu que não havia mais espaço para ele no governo, uma vez que a troca do diretor-geral da PF foi eminentemente política e sem nenhuma justificativa, em sua percepção, plausível. Ainda, citou a quebra da promessa de “carta branca” de Bolsonaro para seu trabalho à frente do ministério.

O juiz ainda desmentiu que teria assinado a demissão de Valeixo, afirmando que o diretor se viu obrigado a deixar o cargo e que Bolsonaro gostaria de nomear um substituto por preocupações com inquéritos em curso no STF e para obter acesso aos relatórios de inteligência da PF. Em desacordo com as decisões do presidente, Moro até buscou indicar um novo diretor-geral, mas não foi escutado. Nesse contexto, decidiu entregar o cargo.

A saída do juiz do governo deve enfraquecer a popularidade de Bolsonaro e aumentar as chances de abertura de um processo de impeachment. O acontecimento representa o ponto de inflexão do mandato de Bolsonaro, isolando-o ainda mais politicamente – já que os “lavajatistas” devem deixar de apoiar o presidente – e minando um dos pilares que o ajudaram a vencer a eleição. É possível, também, que sua aproximação com o Centrão tenha efeito reverso: na tentativa de fazer política tradicional, o presidente se contradiz e, por conta da saída de Moro, pode perder o apoio dos partidos desse grupo.

Agora, aumenta o cerco para apurar os motivos pelos quais Bolsonaro gostaria de trocar o comando da PF. Um possível fim antecipado do mandato de Bolsonaro torna-se uma possibilidade real no médio prazo (no curto prazo, a pandemia é empecilho ao processo). Os quatros fatores fundamentais que podem aumentar as chances de impeachment ou até de uma eventual renúncia são: a) o andamento e a gravidade dos inquéritos no STF; b) a reação da população e seu impacto na popularidade do presidente; c) a manutenção de Guedes e da ala militar no governo; e d) a reorganização do jogo político no Congresso.

Os acontecimentos de hoje fazem com que a pandemia do novo coronavírus comece a ser um “problema menor” frente ao problema político que estamos enfrentando. O fato deve fazer com que a recuperação das ações (que sabemos que irá ocorrer) não seja tão imediata quanto esperávamos, pois tínhamos, anteriormente, “apenas” a questão da Covid-19 atrapalhando os mercados. Agora, com a variável adicional do “Risco Político” na equação da incerteza, nossa recuperação deve ser retardada – e, por algum tempo, veremos um descolamento da nossa retomada frente à do exterior, que deve se manter em curso.

Nesse cenário, nossa visão é que o dólar, por conta do aumento do nível de incerteza, deverá manter uma tendência de alta (mesmo com o patamar já alto). Além disso, o momento deve fazer com que muitos fundos, bancos e investidores ajustem as carteiras para buscar uma maior correlação com o dólar e com empresas com maior exposição em receita ao exterior. Ou seja, veremos um movimento de busca por empresas que possuem receitas dolarizadas e custos em reais, beneficiando-se, assim, da depreciação. Por fim, os investidores devem buscar também empresas de “qualidade”: pouco endividadas, de setores mais resilientes e que paguem dividendos. Nesse cenário, vemos benefícios para empresas dos setores de papel e celulose e mineração, além para aquelas pertencentes ao setor exportador de proteína animal, que se beneficiam do câmbio depreciado. Há também as empresas dos setores de telecomunicações e utilities, que pagam dividendos e estão em setores mais conservadores.

A importância de saber separar sinal e ruído

Como possuímos uma vasta gama de dados disponíveis à nossa disposição, não é difícil que esse “ruído” de informações se misture com o “sinal”. O “sinal” vem da análise cuidadosa e honesta das variáveis corretas, sabendo que os modelos estatísticos apresentam imperfeições, assim como a realidade.

A origem dessa discussão começou com a publicação do excelente livro O Sinal e o Ruído – Por que Tantas Previsões Falham e Outras não, escrito por Nate Silver. O título do livro vem de conceitos da engenharia elétrica, os quais demonstram que um sinal é algo que transmite informações, enquanto um ruído é um complemento indesejado, nada significativo ou aleatório ao sinal. Os problemas surgem quando o ruído é tão forte quanto o sinal – ou até mais forte que ele.

Quem nunca pensou dos seguintes modos: “Mas aquele papel vai subir – eu tenho certeza!”; “Essa estatal não pode cair, o preço nunca foi abaixo dos 30 reais…vou ficar comprado mais uma semana.”; “A tecnologia dessa criptomoeda é sensacional, logo o mercado percebe, vou lucrar 300 por cento.”; “E aquela commodity, por causa do Trump, o preço vai disparar!”

Bombardeados incessantemente por notícias, nossos sentidos podem nos causar consequências desastrosas. Somos falhos. Nosso cérebro gera certezas “absolutas” de acordo com o que nos agrada. Por isso, em tempos de caos, nunca foi tão importante saber separarmos sinal de ruído.

Cada vez menos investidores e cada vez mais especuladores

Na década de 1950, ações eram mantidas, em média, por cerca de seis anos antes de serem negociadas — prática coerente com a noção de que são investimentos de longo prazo. Na década de 2000, a velocidade aumentou cerca de 12 vezes: as mesmas ações eram negociadas apenas seis meses após a compra.

Com o volume de trocas no mercado de ações duplicando a cada quatro ou cinco anos, imagine quanto tempo as ações ficam em carteira atualmente…

Os motivos pelos quais cada vez mais negociações estão ocorrendo estão entre os maiores mistérios do campo das finanças. Paulatinamente, pessoas parecem acreditar que são capazes de ver além da sabedoria coletiva do mercado.

A hipótese da eficiência dos mercados sustenta ser impossível, sob certas condições, fazer previsões que vençam o mercado. Entretanto, se os mercados são reflexos do nosso discernimento coletivo, eles também são, por definição, falhos. Em suma, um mercado que faça previsões perfeitas é uma impossibilidade lógica.

A Bolsa vai subir ou cair amanhã? Você vai de cara ou coroa?

Na figura abaixo, segue uma série de seis gráficos do mercado de ações. Quatro são falsos e foram gerados por um computador instruído a jogar cara ou coroa (ou a escolher uma série aleatória de algarismos um e zero). Os outros dois gráficos são verdadeiros e representam a oscilação real do índice da bolsa americana Dow Jones nos primeiros 1000 dias de negociações das décadas de 1970 e 1980. Você saberia diferenciar os gráficos verdadeiros dos falsos? Não é uma tarefa fácil. Deixaremos a resposta na parte final do texto para não estragarmos seu chute.

Voltando ao cara ou coroa, vamos supor que você seja um baita investidor e espere obter um retorno de 15 por cento acima da Selic com uma volatilidade de 10 por cento. Aos já iniciados em estatística – ou, até mesmo, àqueles mesmo quem já vêm acompanhando nossos Gabinetes -, isso significa que, de 100 caminhos possíveis, 68 por cento deles cairão dentro da faixa de 5 a 25 por cento de retorno, enquanto 95 desses caminhos ficarão entre -5 e 35 por cento.

Um retorno de 15 por cento com volatilidade de 10 por cento ao ano se traduz em uma probabilidade de 93 por cento de ganhar dinheiro em um determinado ano. Mas, em uma escala de tempo reduzida, as chances de ganho vão ficando cada vez menores – conforme pode ser observado na tabela abaixo.

Veja que, mesmo tendo 93 por cento de chance de ganho no dia, a probabilidade de a sua carteira ficar no positivo durante um dia qualquer é de apenas 54 por cento. É quase a mesma coisa que jogar uma moeda para cima e esperar que caia uma das faces escolhidas.

Supondo oito horas por dia, um exame minuto a minuto de seu desempenho mostrará que cada dia terá 241 minutos agradáveis e 239 desagradáveis. Como os seres humanos são seres emotivos, cada vermelho na tela do computador gera uma reação emocional 2,25 vezes mais forte do que os ganhos aparentes, segundo a Teoria do Prospecto proposta por Kahneman e Tversky. Por isso, se você passar o dia na frente do Home Broker, são grandes as chances de você ficar emocionalmente esgotado.

Ruído no mercado financeiro

Achar algo além de ruído na massa do noticiário “urgente” que nos bombardeia é como encontrar uma agulha em um palheiro. A ideia do valor negativo da informação sobre a sociedade se deve, em grande parte, a Robert Shiller. De forma resumida, seu trabalho de 1981 mostrou que os preços oscilam mais do que os fundamentos e que a reação do mercado é visivelmente excessiva, tornando-os às vezes altos demais e baixos demais em outras ocasiões. Shiller, então, proclamou que os mercados não são tão eficientes como estabelecia a teoria financeira.

No momento em que você lê este Gabinete, surgem todo o tipo de “notícias de última hora”. Na prática, esse tipo de jornalismo não passa de um grande fornecedor de ruído para atrair a atenção geral.

Se não existissem operadores de ruído no mercado, todos apostariam com base em informações reais – em sinais. Os preços seriam mais racionais; e o mercado, portanto, mais eficiente.

Entretanto, se você acredita que um mercado é eficiente o bastante para você não conseguir o derrotar e obter lucros, seria irracional fazer qualquer negociação. A hipótese da eficiência dos mercados é autodestrutiva. Se todos os investidores acreditassem na teoria de que não conseguirão ganhar dinheiro com as negociações, já que o mercado de ações é imbatível, ninguém negociaria – e, portanto, não existiria mercado.

Os ruídos e os sinais em dias de caos

Como dito acima, as “notícias urgentes” são grandes fontes de ruído. Afinal, notícias ruins sempre venderam – e vendem – mais. Ainda que a notícia por si só não seja ruim, o jornal sempre precisará dar um toque de dramaticidade para chamar e manter a atenção do leitor/espectador.

Conforme já falado em Gabinetes anteriores, o número de infectados e mortos é um dos importantes sinais em que devemos ficar de olho. Entretanto, é importante olhar sempre para os números realmente fidedignos, e não para as manchetes de TV – ou você será mais uma vítima do ruído. Claro, o número de infectados e mortos segue aumentando, mas isso já era esperado, posto que ainda não passamos pelo pico da disseminação.

Por isso, saber exatamente quantas pessoas morreram de ontem para hoje não é um número que ajuda em nada. O sinal está na evolução e comparação das curvas entre os mais diversos países do mundo.

Outro ruído é o sobe-desce diário da Bolsa. Conforme explicitado matematicamente acima, acertar se a Bolsa vai subir ou cair amanhã é quase como jogar uma moeda para cima, ainda que estejamos falando de uma probabilidade de 93 por cento de obtenção de ganhos no ano.

Contra esse ruído, seguem dois sinais. O primeiro deles, também já comentado por aqui, é o Índice VIX, que segue em queda. A interpretação disso é que os períodos de grande volatilidade estão ficando para trás e o mercado está retomando sua racionalidade.

O segundo sinal é olhar para o lucro das empresas, tanto aqui como nos Estados Unidos, já que o resultado das maiores empresas da maior potência econômica do mundo são bons indicadores do que está por vir ao restante da economia global. No longo prazo, e apesar dos ruídos, as cotações das ações eventualmente sempre acabam acompanhando seus lucros.

Por aqui, a temporada de resultados começa nesta semana, embora apenas Hypera (HYPE3) esteja no radar. Até então, o que tivemos foram as prévias operacionais.

Na construção civil, as prévias operacionais das empresas nos fazem acender o sinal amarelo sobre a expectativa de bons números para seus respectivos resultados trimestrais, os quais devem ser divulgados em maio. A tendência é que os cancelamentos de vendas (distratos) aumentem no segundo trimestre de 2020.

Apesar dos poucos resultados trimestrais divulgados nesta semana, teremos muitas empresas divulgando seus números durante a semana que vem, como: Vale (VALE3), Minerva (BEEF3), Cielo (CIEL3), WEG (WEGE3), Bradesco (BBDC4), entre outras.

Nos Estados Unidos, apesar das quedas acentuadas dos lucros, as receitas operacionais dos bancos foram boas. No caso do Bank of America e do Goldman Sachs, as quedas foram de aproximadamente 1 por cento. No caso do Citi, o faturamento aumentou 11 por cento. O pior resultado foi o do Morgan Stanley: encolhimento de 7 na receita. O que subiu foram as provisões contábeis. Conservadores, os bancos consideraram arriscados muitos dos empréstimos que têm a receber. No caso do Citi, as provisões subiram 254 por cento. Já no caso do Bank of America, elas avançaram 370 por cento, quase quadruplicando.

O segredo para performar bem: compre ações quando ninguém as quiser

O Instituto Gallup e outras organizações de pesquisa de opinião fazem pesquisas periódicas com americanos para saber se eles acreditam que seja um bom momento para se comprar ações.

Os americanos tendem a acreditar que é bom comprar ações quando o P/L está inflado e as ações, supervalorizadas. O número mais alto que o Instituto Gallup já registrou em suas pesquisas foi o de janeiro de 2000, quando 67 por cento dos americanos acreditavam ser um bom momento para o investimento em ações. Apenas dois meses mais tarde, a Nasdaq e outros índices de ações começaram a quebrar.

Por outro lado, apenas 26 por cento dos americanos acreditavam que fevereiro de 1990 fosse um bom momento para comprar ações; resultado: o valor do S&P 500 quase quadruplicou durante os dez anos seguintes.

Precisamos aprender a fazer o inverso do que manda nosso mecanismo de sobrevivência. Quando o mercado fica caótico, devemos nos animar e investir. Não é hora de se assustar e tirar o dinheiro investido. Em momentos como este, investidores comuns são varridos porque fazem, muitas vezes, o que não devem.

Juntando os pontos

Não existe uma fórmula mágica para se tornar um investidor de sucesso. Afinal, muitos dos grandes nomes dos investimentos conseguiram seus expressivos retornos de diferentes maneiras.

Contudo, algo que os une é que todos passaram por várias crises e aprenderam com seus erros. Mais do que “o que fazer”, é importante saber “o que não fazer”.

Precisamos ter em mente que estamos o tempo inteiro cercados por ruídos e que somos seres facilmente levados pela emoção. E essa emoção nos impacta, como dito acima, 2,25 vezes mais quando algo ruim acontece em relação a quando uma notícia boa surge.

Menos jornais alarmistas e mais dados de empresas. Mais VIX e menos “será que a Bolsa vai subir ou cair amanhã?”.

 

Resposta: Os gráficos A, B, C e E são falsos. O gráfico D retrata o real movimento do índice Dow durante os primeiros mil dias da década de 1970. O gráfico F retrata o real movimento no índice Dow Jones durante os primeiros mil dias da década de 1980.

Até breve,
Equipe Gabinete Anticaos

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