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E o meu dinheiro?

Não existe evento melhor para um analista político em uma casa de análise de investimentos do que o registro das candidaturas para as eleições. Os candidatos são obrigados, de acordo com resolução da Justiça Eleitoral, a declarar seus bens para registrar suas candidaturas. Em outra época, é possível que esses dados pudessem passar batido. Mas hoje, com a internet e novos mecanismos de transparência, qualquer cidadão pode observar quanto de dinheiro seu candidato tem, assim como esse recurso está distribuído.

Fui incumbido de examinar os patrimônios dos candidatos, dando foco para seus investimentos para descobrir, afinal, se o futuro comandante da nação brasileira sabe aplicar seu dinheiro de forma inteligente. Mas alto lá! Já de antemão aviso que o meu ganha-pão é a análise política, portanto não espere nada muito aprofundado. Para análises aprofundadas (e da altíssima qualidade), dêem uma olhada no time de analistas da Levante.

Dito isso, busquei compilar os patrimônios declarados de todos os políticos em uma tabela, que pode ser visualizada abaixo. A diferença dos patrimônios é gritante, mas a grande fatia dos candidatos está na faixa entre 1 e 10 milhões de reais. E a notícia boa é que 9 dos 13 aplicam seu dinheiro, na contramão da população brasileira – em 2017, somente 9% da população aplicou em produtos financeiros. Os investimentos são bastante variados, indo de ações, fundos, até renda fixa e planos privados de previdência.

O problema é que, destrinchando em porcentagens, muitos candidatos decepcionam na composição da carteira. É o caso de Bolsonaro, que tem 60% do patrimônio em imóveis, assombrosos 480 mil reais (21%) na caderneta de poupança e somente 0,5% de seu patrimônio em renda fixa. O mesmo ocorre com Ciro Gomes e Marina Silva, que têm, respectivamente, 70% e 85% em imóveis, deixando uma pequena porcentagem destinada a investimentos: a fatia de Ciro é de 17,6% em “créditos, participação societária, poupança e depósitos”; Marina tem 6% em renda fixa e 3,3% na poupança.

Aliás, somente as carteiras de João Amoêdo, Henrique Meirelles, Lula e Alckmin contém mais de 50% em aplicações financeiras, fato que comprova como os patrimônios são mal geridos e desperdiçam a oportunidade de retorno maior, independentemente do perfil de investimento dos candidatos.

Para não dizer que não falei das flores, Meirelles e Amoêdo fizeram bem o dever de casa e têm carteiras inteligentes, apesar de serem radicalmente diferentes. Meirelles é um investidor agressivo e por isso investe 281 milhões reais (impressionantes 75% de seu patrimônio) em ações e 58 milhões (15,6%) em fundos de longo prazo e FIDCs. Já Amoêdo aparenta ser um investidor muito conservador, uma vez que tem 51% de seu patrimônio investido em renda fixa. Em termos absolutos, isso representa aproximadamente 217 milhões de reais, enquanto que somente 11 milhões estão aplicados em “fundos, ações, empresas emergentes e investimentos em participação”, representando a fatia fina de 2,6% do seu patrimônio total, o maior entre todos os candidatos.

Lula e Alckmin optaram por aplicar uma boa fatia do patrimônio em VGBL (80% e 35%, respectivamente), para garantir uma aposentadoria pacata. Boulos e Vera Lúcia declararam quantias quase ínfimas, registrando um veículo automotor no valor de 15 mil reais (no caso de Boulos), e um terreno estimado em 20 mil reais (no caso de Vera Lúcia). O prêmio ‘framboesa de ouro’ fica com Cabo Daciolo, que declarou que não tem nenhum patrimônio e foi se refugiar nas montanhas (desejo todo o sucesso a ele na sua busca pelo Divino).

Não basta apenas saber gerenciar o próprio dinheiro

Depois da proibição do financiamento privado de campanha por Pessoas Jurídicas, políticos perderam o grosso dos seus recursos. Não perderam tempo e criaram o fundo eleitoral, que destina recursos para os partidos, proporcionalmente ao número de parlamentares de cada sigla para as eleições. Neste ano, os grandes partidos lideram o ranking: MDB (repasse de 234 milhões de reais), PT (212 milhões) e PSDB (185 milhões).

Por isso, a importância das coligações em época de pré-campanha: todos os candidatos gostariam de ter mais tempo de propaganda, mas também mais recursos. Nesse sentido, teoricamente Alckmin se saiu muito bem, firmando aliança com o Centrão.

Na prática, não é bem assim. Um dos efeitos do novo fundo eleitoral é o foco que os partidos darão as candidaturas legislativas, a fim de renovar e até aumentar o número de cadeiras no Congresso. Isso significa que os recursos destinados ao Executivo não serão tão abundantes quanto parece. O MDB, por exemplo, mandou o recado claro ao seu candidato: não irá gastar um centavo sequer com a campanha de Meirelles.

Dessa maneira, os recursos do fundo viram moeda de troca entre o candidato e seus coligados e até mesmo dentro do partido, tornando mais difícil a tarefa de arrecadar fundos e minando, também, candidaturas mais impermeáveis ao famoso “jogo político”.

Por isso que acredito em um novo fenômeno nas próximas eleições. Cada vez mais, atores importantes e bem sucedidos da sociedade irão entrar para a política, motivados por novas ideias e dispostos a bancar sua própria candidatura. Henrique Meirelles e João Amoêdo, os mais ricos, irão tirar do seu próprio bolso para contribuir na campanha.

Definitivamente, estamos em um momento de transição do sistema político brasileiro. E mais do que isso: a população está cada vez mais preocupada com a gestão do dinheiro público e privado. Por esse motivo, estar de olho no que os candidatos fazem com os próprios recursos e os das suas campanhas virou interesse público.

Afinal de contas, se o candidato não sabe nem mesmo gerir o próprio patrimônio (seja ele de mil ou milhões de reais), talvez ele não esteja tão preparado para governar o país. É dever de todos como cidadãos avaliar também esse tipo de informação que vai influenciar diretamente o seu dinheiro. Fica a dica.

Um abraço,

Felipe Berenguer

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