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Os Bancos Centrais correram riscos

Banqueiros centrais são, por definição, profissionais cautelosos. O economista americano Alan Blinder, vice-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na gestão do xará Alan Greenspan, escreveu um livro sobre o assunto, no qual resumiu bem o dia-a-dia da função. “O trabalho de um banqueiro central tem três tarefas: 1) descubra o que você tem de fazer; 2) faça metade do que você acha que deveria fazer; 3) espere para ver o que acontece”, escreveu Blinder. No entanto, em 2020, os presidentes de BCs ao redor do mundo descobriram, da maneira mais dura, que as instituições que presidem tinham de correr mais riscos. Muito mais riscos. Se não o fizessem, o impacto da pandemia sobre a economia global poderia levar à depressão mais profunda em um século, com consequências sociais e políticas imprevisíveis.

Daí a perseverança do Fed em manter os juros americanos perto de zero, estratégia que vem sendo repetida constantemente por Jerome Powell, presidente do BC americano. Powell deverá falar nesta quarta-feira e, ao que tudo indica, vai repetir o script de que o Fed conviverá com uma inflação mais elevada por mais tempo do que o habitual. Vale o risco, para não interromper o processo de retomada da economia antes do tempo. A consistência vale muito. Na terça-feira (13) o Bureau of Labor Statistics (BLS) divulgou uma inflação ao consumidor de 0,6 por cento em março nos Estados Unidos. Além de vir acima do esperado, o índice acumula uma alta de 2,62 por cento nos 12 meses até março ante 1,68 por cento nos 12 meses até fevereiro. Mesmo assim, apesar de uma turbulência momentânea, as taxas dos títulos do Tesouro americano não explodiram, graças à gestão eficiente das expectativas por parte de Powell.

O mesmo discurso pode ser ouvido do outro lado do Oceano Atlântico. Ao apresentar os resultados de 2020 nesta quarta-feira (14), Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), foi clara. “A forte e coordenada reação da política monetária e fiscal, combinada com notícias positivas sobre as vacinas, ajudaram a estabilizar a atividade no segundo semestre do ano”, disse ela. Mesmo assim, pelas contas do BCE, o Produto Interno Bruto (PIB) da Zona do Euro encolheu 6,6 por cento, e a inflação recuou para 0,3 por cento em 2020, ante 1,2 por cento em 2019. E Lagarde defendeu enfaticamente essa atuação. “A resposta da política monetária foi uma força estabilizadora crucial para os mercados e ajudou a contrariar os graves riscos colocados pela pandemia”, disse ela.

Não acaba por aí. O nosso Banco Central (BC) também teve de conviver com riscos. Desde o início do Plano Real, a autoridade monetária tem praticado uma política de juros elevados para fazer frente ao desarranjo das contas públicas. Na ausência de uma âncora fiscal para manter a inflação estável, o BC mantém firme sua âncora monetária. No entanto, durante a pandemia, Roberto Campos Neto nem piscou ao reduzir a taxa referencial Selic para um mínimo de 2 por cento ao ano. Na ponta do lápis, isso representou juros reais negativos de mais de 2,5 por cento ao ano, quase uma blasfêmia no cânone do BC.

Fed, BCE, Banco Central do Brasil. Todas essas instituições tiveram de abandonar seu tradicional conservadorismo e correr riscos para não deixar a economia sucumbir à pandemia. A eventual e necessária volta às condições anteriores ainda vai, é claro, provocar solavancos e volatilidade nos preços. No entanto, se os banqueiros centrais não tivessem concordado em correr mais riscos, as consequências para a economia poderiam ser muito piores.

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Esperamos um dia positivo para as ações. A resposta positiva dos títulos americanos após a divulgação da inflação um pouco acima da meta auxilia no avanço das bolsas ao redor do globo. No entanto, apesar do cenário benigno, o dia deve apresentar uma volatilidade razoável devido ao vencimento das opções e de contratos futuros de índice na bolsa brasileira e também devido ao início da safra de balanços nos Estados Unidos.

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