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O BC errou a mão?

Um dos exercícios econômicos mais interessantes é observar as projeções ao longo do tempo. Isso permite comparar o que se esperava com o que de fato ocorreu e descobrir o que mudou. Tomemos, por exemplo, o último relatório Focus de 2020, com dados de 31 de dezembro.

As projeções para 2021 são de que a taxa Selic seria de 3,00% ao ano em dezembro, e de que a inflação medida pelo IPCA encerraria o ano com 3,32% em 12 meses. Os prognósticos para 2022 eram de um IPCA de 3,50% e de uma taxa Selic encerrando o ano que vem a 4,50%.

Avanço rápido para a segunda-feira (06), quando foi publicada a edição mais recente do Relatório Focus, com dados de 3 de dezembro. A Selic prevista para 2021 está, como seria de se esperar, em 9,25%.

A expectativa de inflação para o ano é de 10,18%. E a Selic esperada para dezembro de 2022 está em 11,25%. A taxa esperada para o fim do ano que vem veio subindo todos os meses, sistematicamente, desde o início deste ano.

Olhar as previsões antigas é um excelente exercício de humildade. Tentar antecipar os fatos é uma tarefa ingrata, pois essa entidade chamada realidade é por demais aleatória.

No entanto, observando-se a série de relatórios Focus divulgados pelo BC (Banco Central), é possível notar que o mercado foi corrigindo seus prognósticos sistematicamente ao longo do ano.

Foram raras as semanas em que as expectativas de inflação e de juros para este ano e para 2022 não se alteraram. E em nenhum momento houve retrocesso: ambos os prognósticos caminharam invariavelmente para cima ao longo do tempo. Em retrospecto, isso é óbvio. Os preços do petróleo e das commodities agrícolas e minerais avançaram, o real se depreciou sistematicamente em relação ao dólar e a poderosa expansão monetária internacional só poderia dar energia à inflação.

Tudo explicado pelos livros-texto de economia mais básicos. Então, a questão de um trilhão de reais é: o BC errou ao reduzir a taxa básica ao chamado lower-bound e a lançar mão do forward-guidance, com apoio de relevantes agentes econômicos, inclusive? Ou o BC está errando agora ao se manter atrás da curva e não entregar o precificado desde a última reunião?

Há uma premissa importante e forte na economia que atribui aos bancos centrais uma característica expectacional. Por terem acesso às informações das instituições financeiras, aos dados da atividade econômica e por desenvolverem modelos em média mais sofisticados de análise, os bancos centrais são considerados diligentes e com certa assimetria favorável de informação. Teoricamente sabem tudo e, portanto, podem tomar as melhores decisões. Quase uma onisciência.

Contudo, ao contrário do que acontece com a característica divina, a onisciência dos banqueiros centrais pode ser relativa em determinados horizontes. Ela só vale se a economia está arrumada e com as expectativas devidamente ancoradas. Ou seja, se há um razoável equilíbrio das contas públicas e uma razoável previsibilidade.

Sem esse ambiente, o banqueiro central não é capaz de fazer milagres. Ao contrário, tem de ser um gestor firme da política monetária e um comunicador excelente, para preservar o valor da moeda e ancorar as expectativas.

Comparando o trabalho do Copom (Comitê de Política Monetária) com o de seu equivalente americano, o Fomc (Federal Open Market Committee), sabe-se que a tarefa no Brasil é muito mais difícil.

Por aqui há não apenas uma memória inflacionária como também toda uma estrutura de indexação. Se você não acredita, pergunte a qualquer brasileira ou brasileiro que teve de renegociar recentemente um contrato de locação de imóveis corrigido pelo IGP-M.

Ao tentar desfrutar de um luxo permitido apenas a banqueiros centrais de países ricos, que é a leniência com a inflação, o Copom não só abriu a jaula que prendia o dragão como também desancorou as expectativas do mercado.

Agora, será necessário que os juros permaneçam altos durante bastante tempo de maneira a fazer tanto os preços quanto as expectativas convergirem para o centro da meta.

A “sorte” do BC – e o azar de todos os brasileiros e brasileiras – é que a atividade econômica está fraca. Assim, uma vez metabolizadas as altas de commodities e petróleo e a apreciação do dólar, é bastante provável que a alta de preços desacelere. Mesmo assim, o remédio para isso será amargo e, pior, pode ter sido desnecessário.

E Eu Com Isso?

Os contratos futuros de Ibovespa estão iniciando a sessão em alta, estimulados pela valorização dos mercados internacionais, que seguem otimistas devido aos prognósticos menos graves da variante Ômicron do coronavírus.

As notícias são positivas para a bolsa.

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Leia também: A Ômicron e a China.

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