Denise Campos de Toledo EECI

Mercado deu uma pausa na empolgação

O mercado está convivendo com informações que tem tornado o movimento mais incerto, após uma fase das mais favoráveis em termos de retomada da Bolsa e queda do dólar. Podemos dizer que houve uma pausa na empolgação. Tivemos desde a última semana até fatores internos gerando um clima de maior apreensão, como a indefinição dos novos nomes para a direção da Petrobras.

Uma crise criada pelo governo, como se a troca de comando da estatal pudesse livrar o consumidor dos aumentos dos combustíveis, que tanto têm pesado na inflação. Aliás, um dos temores era quanto a possíveis indicações que endossassem essa ideia, fazendo a empresa amargar perdas, com defasagens, como as que já ocorreram no passado. Depois das desistências de Adriano Pires e Landim e outras recusas, idas e vindas, os nomes de José Mauro Ferreira Coelho, escolhido para substituir Silva e Luna, e de Marcio Andrade Weber, para o Conselho de Administração, acabaram sendo uma solução caseira, que afasta os temores de mudanças maiores na gestão dos preços, o que pode colaborar para uma menor volatilidade dos papéis da estatal na Bolsa. A reação inicial foi positiva até por posicionamentos anteriores dos dois, que têm experiência na área.

Por outro lado, tem as análises divergentes quanto à inflação e os juros. A persistência da inflação elevada no Brasil, confirmada por índices com o IGPDI e o próprio IPCA, reforçam a avaliação de parte dos analistas quanto à necessidade de um aumento maior da Selic, até a faixa dos 13%, principalmente, por preocupações quanto à meta de 2023. Só que por aí também veio um alívio, que foi o anúncio da mudança da bandeira tarifária de energia, já pegando metade do mês de abril. Cálculos estão sendo refeitos e até aumentam a aposta na interrupção do ciclo de alta com a Selic nos 12,75%. O que também vai depender de o barril do petróleo permanecer ao redor dos US$ 100, cenário de referência do Copom que evitaria ajustes adicionais de política monetária.

O mercado vai continuar acompanhando de perto a evolução dos índices e de todos os fatores que podem influenciar o comportamento da inflação aqui e no exterior, tentando antecipar possíveis movimentos do BC. Sendo que a inflação também está sendo um desafio para outras economias. Se fala até no risco de um ciclo global de inflação mais alta que começou com os desequilíbrios na cadeia global de oferta de insumos e alimentos provocados pela pandemia e ganhou reforço recente com a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Na balança dos fatores que vem influenciando a instabilidade maior do mercado está o reposicionamento do Federal Reserve, que assumiu postura mais dura em relação à política daqui pra frente, sinalizando aumentos maiores e mais rápidos dos juros, que podem chegar aos 3%, nas projeções mais pessimistas, até contratando alguma retração da economia americana mais para o final de 2023. A mudança do tom veio exatamente da percepção de dificuldades maiores para controlar a inflação num ambiente de retomada da atividade e do emprego, como se registra nos Estados Unidos.

Em meio a tudo isso, se nota uma perda de ritmo no fluxo de capital externo para o mercado local, onde a Bolsa chegou até a registrar uma saída efetiva na abertura da semana. Pode ser uma reorientação dos investimentos, em função dos juros mais altos no País, mas o clima externo também gerou movimentos de aversão ao risco nos últimos dias. O aumento das sanções contra a Rússia e as contrapartidas adotadas por Putin podem agravar os desequilíbrios da cadeia global de insumos, de alimentos, sem esquecer dos custos de energia. Nesse contexto ainda pesa o lockdown na China, que pode piorar esse desequilíbrio, embora até possa trazer redução da demanda por algumas commodities, como o minério.

Por todas essas indefinições é que tivemos uma semana de maior frustração quanto ao comportamento do mercado, que vinha até meio exagerado na animação, se consideramos a conjuntura global e mesmo a local. O forte fluxo de entrada de capital externo levou a apostas muito otimistas. Já se falava no dólar nos R$ 4,20. Agora já ha até uma reavaliação do potencial da Bolsa, muito dependente ainda das ações ligadas às commodities. 

Com juros muito acima da média internacional, exercendo forte atratividade para o capital externo, além do ingresso dos recursos das exportações de produtos básicos, o Brasil tende a manter um bom fluxo. Resta ver se será intenso a ponto de assegurar a manutenção do dólar em patamar tão baixo como vinha testando e o quanto desses recursos ainda será canalizado para a Bolsa. Até porque não se trata apenas de fluxo. Expectativas externas e internas podem impor maior cautela aos investidores. E não vamos esquecer da proximidade das eleições, de todas as manobras políticas em andamento, das implicações que podem ter na agenda do governo e do Congresso. A polarização persiste, atraindo o foco para os posicionamentos de Lula e Bolsonaro, mas há uma tentativa maior de entendimento entre vários partidos para fortalecer uma terceira via.

Por mais que as perspectivas para o mercado brasileiro se mostrem favoráveis, muitos fatores podem, no mínimo, produzir maior volatilidade e até reorientação dos investimentos. Com a pressão recente da curva de juros, quem confia em um BC mais cauteloso na condução da política de juros, pelas implicações que possa ter na atividade, já começa a ver as opções prefixadas como alternativa. 

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