EUA - Estados Unidos

Explicando o emprego americano

Na sexta-feira (07) as informações do Departamento do Trabalho (Department of Labor, DOL) dos Estados Unidos frustraram as expectativas dos investidores. O DOL, equivalente ao Ministério do Trabalho no Brasil, divulgou que em abril foram abertas 266 mil novas vagas. Esse resultado foi positivo, mas muito pior do que o esperado. A expectativa era da criação de 961 mil novas vagas, quase quatro vezes mais do que o divulgado. O resultado de março também foi revisado para pior. Como ocorre em todos os meses, o DOL divulga um número preliminar e, no mês seguinte, publica os dados definitivos. Em março, o número preliminar era da abertura de 916 mil vagas. O dado revisado, ou seja, definitivo, foi de 770 mil vagas novas, uma retração de 16 por cento.

À primeira vista, tanto o número de abril quanto o número revisado de março indicam que o ritmo da economia americana está muito mais lento do que se imaginava. Assim, a suavização das políticas de distanciamento social e os pacotes de estímulo têm sido insuficientes para fazer o nível de atividades voltar ao passo anterior. Isso deveria ter provocado um desabamento das cotações. No entanto, os índices acionários americanos permaneceram perto de seus níveis máximos nas sexta-feira. É uma aparente contradição, que vamos explicar.

Boa parte do trabalho do analista é chegar a conclusões a partir da interpretação de dados estatísticos. Esses dados são, obrigatoriamente, simplificações de uma realidade que é muito mais complexa e variada. Por isso, quando se observa uma criação de empregos tão abaixo do esperado, isso não quer dizer apenas que a economia está mais fraca e não está gerando empregos. Também indica um desajuste entre a oferta e a demanda de mão de obra.

A pandemia alterou profundamente os hábitos e as relações de trabalho. Se você tem dúvidas, tente lembrar a última vez que usou uma gravata (ou um par de sapatos de salto alto, se for o caso). Isso vale tanto para o Brasil quanto para os Estados Unidos. O fato de haver pessoas querendo trabalhar e empresas buscando trabalhadores não significa que haverá um “match”. Mais de um ano de medidas de isolamento social e da adoção de tecnologias de trabalho remoto alteraram tanto o perfil das vagas quanto o perfil dos trabalhadores.

Por isso, há pelo menos duas justificativas possíveis, que não aparecem nos dados, para explicar esse indicador fraco em abril. Uma delas é a continuidade dos programas de auxílio. Com as contas parcialmente pagas pelos cheques do governo, há menos necessidade de acordar cedo e sair para buscar trabalho todos os dias. Aqui não há nenhum juízo de valor. É uma decisão racional: se o governo me envia um auxílio que me permite sobreviver, eu posso me poupar do desgaste do trabalho.

Outra justificativa é o temor da contaminação pela covid-19. Apesar do aumento da imunização nos Estados Unidos, a pandemia não está controlada nem debelada. Daí ser compreensível que um número elevado de pessoas prefira permanecer em casa em vez de sair para trabalhar.

Quais as conclusões disso? Apesar de a criação de empregos ser uma das informações mais importantes da economia real, no cenário atual é preciso olhar outros indicadores. Historicamente, o emprego era um número tão decisivo porque trabalho significa renda, e renda significa consumo. Agora, com os programas de auxílio, o emprego não é a única fonte de renda. Mesmo que a criação de vagas seja menor do que o esperado, isso não significa necessariamente que a renda vai encolher – e com ela os lucros das empresas e os preços das ações. Essa análise também confirma a avaliação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), de que o mercado de trabalho nos EUA não está tão aquecido quanto se imagina, o que confirma as expectativas de que as medidas de estímulo econômico vão durar mais tempo do que os investidores projetam.

Relatório Focus

A edição mais recente do relatório Focus, divulgada pelo Banco Central (BC) nesta segunda-feira, mostra uma leve elevação das projeções para a inflação. Agora, a estimativa para o IPCA em 2021 subiu para 5,06 por cento, ante 5,04 por cento da semana anterior. A projeção para o PIB subiu para 3,21 por cento ante 3,14 por cento da semana passada. E o prognóstico para o dólar em dezembro caiu para 5,35 reais, ante os 5,40 reais da edição anterior.

E Eu Com Isso?

A percepção de que os estímulos econômicos nos Estados Unidos devem permanecer por algum tempo está animando os investidores neste início de semana. Os contratos futuros de Ibovespa e do índice americano S&P 500 iniciaram a sessão em alta.

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