Denise Campos de Toledo EECI

Da calmaria à tempestade

Nesta semana, mais curta para o mercado brasileiro, tivemos uma boa amostra do quanto podemos ter de mudança repentina de ativos, por mais que os fundamentos indiquem um comportamento melhor. E isso vale tanto para o cenário externo como interno.

No âmbito doméstico, contrariando as expectativas, o dólar disparou, chegando a testar a faixa próxima dos R$ 5,30, sendo que duas semanas atrás se cogitava a queda para um patamar até abaixo dos R$ 4,90.

Nos últimos dias a pressão mais relevante veio do lado político, com o avanço das investigações no âmbito da CPI, agora envolvendo negociações irregulares na aquisição de vacinas que, ainda que não tenham se concretizado, mostraram possíveis intenções, de integrantes do Ministério da Saúde, mais próximos do governo e do centrão.

Situação que reafirma, no mínimo, a falta de coordenação na área da Saúde e no Executivo, em ações relevantes no que diz respeito ao controle da pandemia, com potencial para levar a possíveis implicações do próprio presidente e de lideranças no Congresso, com o deputado Ricardo Barros. Cenário que tende a produzir maior desgaste político para Bolsonaro, que segue em uma posição cada vez mais desconfortável nas pesquisas, reforçando incertezas para as eleições de 2022.

Todo o desgaste do governo leva a outro tipo de preocupação, que envolve a área fiscal. Já foi anunciada a prorrogação, por três meses, do auxílio emergencial. Medida prevista diante dos efeitos ainda presentes da pandemia, sobre a atividade econômica e o mercado de trabalho.

O governo também antecipou uma reformulação do Bolsa Família, logo na sequência, com maior número de beneficiários e possível aumento também do valor. Fica a dúvida se não seria uma estratégia para garantir maior popularidade, o que sugere o endosso da equipe econômica a esse tipo de movimentação, que pode afetar o encaminhamento da agenda de Reformas e o esperado ajuste das finanças públicas.

No próximo ano, o governo terá uma folga no teto de gastos até importante, garantida pela inflação mais alta deste ano, que é a referência para o aumento autorizado de despesas. Da mesma forma, a relação dívida x PIB também foi favorecida pelos índices de preços mais pressionados, além da retomada da atividade. Só que em vez de tentar consolidar um quadro fiscal mais positivo, essas mudanças podem sustentar estratégias políticas.

A polêmica proposta de reforma tributária, em boa medida, também foi vista como uma estratégia populista, com possíveis consequências negativas para as empresas e atração de investimentos, especialmente pela taxação de lucros e dividendos. Medida também avaliada como um esforço na obtenção de receita para assegurar o novo programa social. Proposta que, aliás, foi um dos fatores que começaram a mudar o sinal para o câmbio e até para a Bolsa de Valores, que sentiu o impacto do risco de saída de capital. Há preocupação, inclusive, com os resultados a serem obtidos com os IPOs agendados.

Ambiente político mais pesado; proposta de Reforma Tributária equivocada; preocupações com os impactos da crise hídrica e do aumento dos custos de energia, sobre a atividade, a inflação e a política de juros… Não faltaram motivos para pressão no câmbio, na Bolsa, na curva de juros. Já é dominante a aposta de alta de um ponto na Selic na reunião do Copom em agosto, com possível aumento além do esperado até o final do ano. O que poderia, talvez, fazer o dólar retornar para a trajetória esperada, assim como a inflação. 

No lado externo, o mercado ficou muito focado na ata do Federal Reserve que, apesar de não ter trazido indicações mais claras quanto à possível antecipação do corte de estímulos, confirmou que a discussão está colocada. Ainda que o FED reafirme a paciência com a inflação rodando em patamar mais alto, parte dos integrantes do FOMC deixa evidente a intenção de antecipar ajustes. Posição que em algum momento pode prevalecer.

O que ainda segura o tom mais ameno é que há uma percepção mista em relação aos indicadores, como os do mercado de trabalho, não permitindo um diagnóstico mais seguro das condições econômicas, reiterando a necessidade de novos dados para consolidar um posicionamento quanto às mudanças na política monetária. Até por isso, discussões sobre o tema poderão provocar muita volatilidade nos mercados. 

Por outro lado, ressurgiu a incerteza quanto ao ritmo da atividade global, mais uma vez, relacionada à pandemia. Paralelamente à abertura de vários países, com uma maior flexibilização de atividades e até dispensa do uso de máscara, surge a preocupação com a variante Delta, que tem maior capacidade de contágio.

Neste fechamento de semana mais curta, o mercado brasileiro interrompe os negócios, por causa do feriado paulista desta sexta-feira, tendo de lidar com as notícias de vários países em alerta pelo temor de a variante provocar novas ondas de contágio. Fator que mexeu com os preços de commodities, o comportamento das Bolsas, do dólar e outros ativos. Se há um novo risco referente à pandemia, há risco também de freada na retomada das economias e, consequentemente, na demanda, levando a movimentos defensivos.

Enfim, fechamos a semana com muitos pontos preocupantes em aberto, demonstrando que após a calmaria de junho, onde as peças pareciam se encaixar de forma mais positiva, julho promete, no mínimo, muita agitação.

A Coluna da Denise Campos é publicada toda sexta-feira em nossa Newsletter ‘E Eu Com Isso’.

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