Denise Campos de Toledo EECI

A incertezas do pós elevação dos juros

A super quarta só reforçou as incertezas do mercado, apesar de uma leitura inicial favorável. O ajuste no day after foi pesado e ainda pode produzir mais instabilidade. A decisão do FED de elevar os juros em 0,5 ponto, para a faixa entre 0,75 e 1%, veio dentro do esperado e o mercado gostou da definição da redução do balanço. Pelo menos, tira de cena um fator de incerteza. E ainda veio o alívio com a sinalização de Jerome Powell, de que não se discute o aumento da dosagem de elevação dos juros para 0,75 ponto, como se especulava. Daí a reação inicial favorável dos mercados. Só que o Federal Reserve mantém a disposição em fazer a inflação retornar aos 2%. E a continuidade das elevação dos juros, para alcançar essa meta, reforça a possibilidade de desvio de recursos de outros mercados, principalmente dos emergentes, pela combinação de juros mais altos com o risco zero dos títulos do Tesouro americano.

Do outro lado, tivemos a decisão do Copom no Brasil, com a Selic indo a 12,75% ao ano, com indicação de ajuste menor em junho. Até aí nenhuma surpresa também. O problema é que o Comitê não falou em encerrar o ciclo de alta dos juros na próxima reunião. Como a inflação tem se mostrado muito persistente, é bem possível que a taxa básica caminhe para os 13,75%, como já prevê boa parte do mercado ou até passe disso. Mais uma vez, o BC não conseguiu balizar as expectativas. Esse possível diferencial maior em relação aos juros praticados no exterior, inclusive nos Estados Unidos, não pode manter a atratividade para o capital externo, que vinha ajudando a manter o dólar mais baixo? Pode, especialmente o de curto prazo, que pode se desfazer das posições com muita rapidez. Porém, tem o fator risco jogando contra, como ressaltei, o que já começa a pesar no ritmo de ingresso de recursos.

E incertezas não faltam no âmbito doméstico, desde a instabilidade relacionada às eleições até a questão fiscal, onde interesses políticos e o reforço de arrecadação, garantido pela inflação alta, têm dado espaço para gastos que, mais à frente podem provocar mais desequilíbrios nas contas. Mais do que os gastos, ainda temos várias iniciativas no sentido de corte de impostos, pra tentar garantir uma situação de menor pressão dos preços, como de combustíveis e produtos industriais.

Enfim, todo esse cenário, que ainda tem as dúvidas decorrentes da guerra entre Rússia e Ucrânia e os lockdowns na China, tem provocado muito mais instabilidade no mercado, surpreendendo muitas vezes os próprios agentes do mercado, pela intensidade exagerada em alguns dias, como ocorreu no pós elevação dos juros. Mas é certo que o Brasil já entrou numa fase de observação com mais atenção, que explica a perda de fluxo registrada, principalmente, na Bolsa.

Para quem pensa em prazos mais longos, os ajustes de preços de algumas ações podem até se reverter em boas oportunidades, mas para quem prefere reduzir riscos a renda fixa, com juros em alta, tem dominado as recomendações. Mas com cuidados adicionais. Bom lembrar que taxas prefixadas, ofertadas algum tempo atrás como muito vantajosas, já estão sendo superadas pelas projeções e até mesmo pela evolução da Selic.

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