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O desemprego não é mais aquele | Domingo de Valor

Divulgada na sexta-feira (03), a criação de empregos não-agrícolas nos Estados Unidos no mês de agosto ficou muito muito abaixo do esperado. O “non-farm payroll” registrou a abertura de 253 mil vagas no mês passado, pouco mais de um terço do prognóstico, que era de 720 mil novos empregos criados. Para comparar, o número revisado para julho foi de 1,05 milhão de vagas. Nos dois meses anteriores, junho e julho, a recuperação da pandemia e o relaxamento de boa parte das medidas de restrição havia feito a economia americana criar 1,8 milhão de vagas. A estimativa é que a abertura de postos de trabalho seria de 2,5 milhões em três meses. É uma cifra impressionante, mas que não revela dois fatos preocupantes.

O primeiro é que, mesmo que o número de agosto houvesse confirmado as projeções, haveria 5 milhões de empregos menos que em fevereiro de 2020, antes de a pandemia começar a provocar devastação na economia. Ou seja, apesar de toda a recuperação, de todos os estímulos e da manutenção dos juros em zero, há 5 milhões de americanos menos trabalhando.

O segundo fato preocupante é que o número de americanos que está disposto a procurar emprego também encolheu. É fácil se confundir no mar de números das estatísticas americanas, mas vamos focar em apenas um ponto: o das pessoas que estão em busca de emprego.

Homens e mulheres

Em agosto do ano passado, segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS), vinculado ao Ministério do Trabalho americano, havia 99,6 milhões de americanos fora da força de trabalho. Em agosto desde ano, essa cifra havia subido para 99,8 milhões. Apesar de 200 mil pessoas serem muita gente em qualquer lugar do mundo, em termos relativos a mudança foi pequena, apenas 0,2 por cento.

No entanto, em agosto de 2020 havia 7,2 milhões de americanos que desejavam encontrar um emprego. Neste ano, esse número havia caído para 5,8 milhões, uma redução de 19,4 por cento. Ou seja, apesar de o número de desempregados ter permanecido relativamente estável, o número de pessoas que está em busca de um emprego caiu significativamente.

Há mais um ponto importante. As estatísticas separam homens e mulheres. O número de mulheres americanas que desejava um emprego caiu de 3,8 milhões em 2020 para 3,3 milhões em 2021, uma queda de 13,2 por cento. No caso dos homens, a queda foi de 3,4 milhões em 2020 para 2,5 milhões neste ano. Uma baixa de 26,5 por cento. Assim, um número muito maior de homens do que de mulheres desistiu de procurar emprego nesse período de 12 meses.

Uma forma nova de olhar o trabalho

A abertura de poucas vagas no mês mostrou que, mesmo querendo contratar, os empregadores americanos estão com dificuldades para encontrar mão de obra. Isso é demonstrado pelo aumento do salário médio pago por hora, especialmente para as funções de menor qualificação.

Por que a quantidade de pessoas que desejam empregos caiu tanto? As estatísticas mostram os números, mas não os motivos. Esses estão sujeitos a interpretações variadas. E vale a pena tentar entender esse fenômeno, pois ele pode explicar movimentos estruturais e tendências dominantes nos preços dos ativos financeiros e dos juros no futuro.

Logo no início da pandemia, o governo americano lançou vários reforços no auxílio desemprego, com a distribuição direta de cheques aos desempregados. Foi uma medida emergencial, destinada não apenas a aliviar as necessidades das pessoas, mas também a manter as rodas da economia girando. No caso dos trabalhadores de baixa renda, o auxílio foi um grande incentivo para permanecer em casa. Essa é uma escolha racional: se eu recebo dinheiro do governo, por que deverei me arriscar a uma contaminação pelo coronavírus? O auxílio, porém, tinha hora para acabar. E de fato acabou no fim de agosto, mas a vontade de procurar emprego não retornou.

No caso das mulheres, a redução da procura por emprego deve-se em parte às restrições que ainda valem para escolas e creches. Sem ter onde deixar os filhos, elas são obrigadas a ficar em casa. Mesmo assim, não foi nas trabalhadoras a maior queda da demanda por emprego, especialmente porque o número de lares comandados por mulheres solteiras aumentou muito nos últimos anos.

Há mais algumas hipóteses. Uma delas decorre do envelhecimento da população e da valorização expressiva do mercado acionário nas três últimas décadas. O americano de classe média não só está mais velho do que estava há 20 anos. Ele também está mais rico. Assim, faz sentido pensar que o executivo ou gerente de nível médio na empresa americana aproveitou a folga forçada para fazer as contas, mudar-se para uma casa menor e mais barata e se dedicar à jardinagem ou aos netos, consumindo os recursos amealhados durante a vida profissional. Esse pode ser um dos principais motivos que levou à forte queda do número de homens que desejam encontrar um emprego.

Outra possibilidade, mais difícil de comprovar e com certeza menos dominante, é que a pandemia levou a mudanças no estilo de vida. Casais jovens com filhos pequenos, que precisam gastar mais com o cuidado das crianças, fizeram as contas e concluíram ser mais negócio se um dos cônjuges deixasse de trabalhar ou passasse a exercer uma atividade em tempo parcial para cuidar dos filhos. A disseminação do trabalho remoto facilitou também o deslocamento para cidades onde o custo de vida é mais baixo.

O impacto nos mercados

O fenômeno da fraqueza na demanda por empregos é novo e ainda precisará de mais alguns meses de dados para ser melhor compreendido. Pode ser que agosto tenha sido apenas um ponto fora da curva e, nesse caso, boa parte dessas hipóteses terá de ser descartada. No entanto, se esse fenômeno perdurar, poderemos estar diante de uma alteração estrutural no emprego. Quais as consequências disso?

No curto prazo, a criação de menos empregos do que o esperado pode ser um argumento poderoso para o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, manter por mais algum tempo a compra mensal de 120 bilhões de dólares em títulos públicos e imobiliários. E, com certeza, manda para a lista de fatos esperados para o futuro distante uma elevação dos juros. Ou seja, durante algum tempo a liquidez elevada deverá continuar.

Em prazos mais longos, caso essa tendência de demanda fraca no emprego se confirme, poderá haver mudanças drásticas na economia americana. Por exemplo, a flexibilização das políticas de imigração, para fazer frente à demanda não atendida por mão de obra. Ou a reversão do processo iniciado na gestão de Donald Trump de fazer indústrias retornar para o território americano. Seria prematuro discutir isso sem ter mais dados à mão, mas os números de agosto mostram que os próprios conceitos de emprego e desemprego terão de ser postos em revisão.

Abraços,

Equipe Levante.

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