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Não tenha medo do dragão americano | Domingo de Valor

Alta da inflação nos Estados Unidos não vai provocar um terremoto no mercado. Entenda o porquê.

 

Na quarta-feira (10) os investidores testemunharam dois eventos surpreendentes derivados da inflação americana. O primeiro deles foi a divulgação, pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), entidade do governo americano dedicado à divulgação de estatísticas, de uma inflação ao consumidor muito acima da esperada. O Consumer Price Index (CPI) de outubro foi divulgado indicando uma alta de 0,9 por cento nos preços, superior ao avanço de 0,4 por cento de setembro. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses até outubro avançou para 6,2 por cento, ante 5,4 por cento nos 12 meses até setembro. Os números ficaram muito acima das projeções. Os prognósticos eram de um CPI de até 0,6 por cento, e de uma inflação em 12 meses de até 5,8 por cento.

O segundo evento surpreendente foi a reação fraca dos ativos financeiros a esse número inesperado. Se fossem seguir as orientações do livro texto, os investidores deveriam ter apresentado um princípio de pânico. Inflação acima do gabarito indica uma atuação mais firme das autoridades monetárias para desacelerar a alta de preços. A medicação prescrita é a principal na farmacopeia dos banqueiros centrais: elevar os juros e eventualmente contrair a expansão monetária, de modo a tornar mais adverso o cenário para os consumidores. Com isso, a demanda recua, os empresários são obrigados a baixar os preços e os índices de inflação logo deixam de peraltices e retornam ao bom comportamento.

No entanto, a reação do mercado foi quase anêmica. Os juros dos títulos de dez anos do Tesouro americano subiram, mas a alta foi de curta duração. Os índices de ações caíram, mas fecharam com baixas inferiores a 1 por cento. E mesmo os preços do dólar em relação às demais moedas, que deveriam ter oscilado, apresentaram um movimento até que sossegado. Voltando ao livro texto: inflação em alta nos Estados Unidos tende a valorizar o dólar em relação às demais moedas, pois a perspectiva de juros mais altos torna mais interessantes as aplicações de renda fixa no mercado americano. Os não-americanos transferem seu dinheiro para esses investimentos e, para isso, são obrigados a compra dólares. A demanda aumenta e a moeda se aprecia perante euro, iene, renminbi, libra e outras.

 

O núcleo e a superfície da inflação

Porém, o que se viu foi uma versão diluída do cataclisma esperado. A inflação deixou de assustar? Em termos. Para entender o que ocorreu, precisamos olhar os índices com mais cuidado.

A notícia mais divulgada foi a alta de 6,2 por cento no CPI em 12 meses. Porém, há várias décadas, as autoridades americanas perceberam um fenômeno. Os preços de alguns itens da cesta do CPI oscilam muito. É o caso de alimentos e combustíveis, que são mais “nervosos”, ou seja, seus preços apresentam uma volatilidade maior que a média devido aos ruídos momentâneos da oferta e da demanda. Por exemplo, uma bomba em uma capital de um país do Oriente Médio pode elevar (aliás, eleva) os preços do petróleo devido à expectativa de que a retaliação afete a produção da commodity. No entanto, passado o susto, o mercado retorna às condições normais, mas não antes de ter injetado uma dose reforçada de volatilidade nos índices.

Para reduzir esse efeito e dar mais clareza às tendência para os preços, os estatísticos desenvolveram os índices que acompanham o “núcleo da inflação”, ou “core index”, que não consideram os preços dos alimentos e dos combustíveis. Com isso é possível reduzir a variância dos indicadores e ter uma visão menos viesada. O “core index” do CPI em 12 meses até outubro está em 4,6 por cento, bem abaixo dos 6,2 por cento do índice “completo”. Na prática, em 12 meses os preços dos combustíveis nos Estados Unidos subiram 30 por cento, a gasolina ficou 49 por cento mais cara e o óleo combustível, essencial para o aquecimento e o transporte, viu os preços subirem pouco mais de 59 por cento. Conclusão: a inflação está elevada, mas boa parte dessa alta deve-se ao aumento das cotações do petróleo.

Cabe aqui recordar que algo parecido ocorreu há exatos 31 anos, em novembro de 1990. Dois meses antes, Saddam Hussein, sanguinário ditador do Iraque, havia invadido o vizinho Kuwait de olho em uma saída para o mar e nas vastas reservas de petróleo do emirado. A reação americana foi poderosa, levando à Guerra do Golfo, o que fez disparar os preços do petróleo e pressionou a inflação. Passado o susto as cotações retornaram aos níveis anteriores e a inflação baixou.

 

Petróleo e oligopólio

Agora está ocorrendo algo semelhante. No início da pandemia os preços do petróleo desabaram pela queda do consumo – com mais gente em home office era preciso menos combustível. A retomada das atividades a partir do terceiro trimestre deste ano elevou a demanda, mas a oferta está demorando para regressar aos patamares anteriores. E isso não deve se ajustar tão cedo. Em sua reunião mais recente, realizada em 4 de novembro, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo mais a Rússia, entidade conhecida como Opep +, afirmou que manteria a retomada no ritmo lento anunciado em julho desde ano. Na prática, isso vem mantendo as cotações do petróleo, tanto do tipo Brent (referência para o mercado europeu e para a Petrobras) e do tipo WTI (referencial para o mercado americano) acima de 81 dólares por barril, e esse preço pressiona os índices de inflação nos países desenvolvidos e emergentes. Assim, a causa da inflação não é a tradicional economia aquecida demais, mas um descompasso na oferta de um produto específico provocada por decisões extraeconômicas: um oligopólio defendendo suas margens de lucro às custas dos consumidores.

A conclusão é simples: a reação moderada do mercado mostra que o problema da inflação nos Estados Unidos é pontual. Excetuando-se a alta do petróleo, que pressiona os combustíveis e se difunde pelos demais preços, os demais desajustes nos preços devem-se à desorganização das cadeias produtivas e a uma consequência da pandemia, a concentração empresarial. Muitas empresas quebraram, e só sobreviveram as que eram mais fortes e mais bem-preparadas. Isso provocou uma situação de quase oligopólio em vários setores, e oligopólios são mais resistentes em sacrificar suas margens de lucro. Por isso já está em discussão no governo dos Estados Unidos um eventual endurecimento das legislações antitruste, que vinham sendo flexibilizadas ao longo dos últimos anos.

A conclusão disso é que, apesar da elevação pontual, a inflação americana não deve ser um motivo de preocupação extrema para os investidores. Além de suas causas serem localizadas, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, vem reiterando que as autoridades monetárias serão pacientes com a inflação. Os juros não devem subir tão já, seja para não interromper o processo de retomada da economia, seja para não encarecer demais o serviço da dívida pública, que aumentou a níveis estratosféricos devido às medidas de combate à pandemia.

Um abraço, boa semana e bons investimentos.

Equipe Levante

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