BRF: da Tempestade Perfeita ao Alinhamento de Astros

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Na coluna de hoje vou falar sobre a empresa BRF (SA:BRFS3), o setor de proteína animal, e como o cenário internacional mudou rapidamente em poucos meses em seu benefício.

Como diz o ditado: “não há mal que sempre dure” ou “depois da tempestade vem a bonança”.

Nesta segunda-feira (9/set) a China informou que habilitou mais 25 frigoríficos brasileiros a exportarem carnes bovina (17 plantas), suína (uma) de frango (seis) e jumento (uma) a seu mercado.

A tempestade perfeita: impacto no resultado da BRF

Em fevereiro de 2019, a BRF divulgou o seu resultado de 2018: números fracos, decepcionantes e bem abaixo do esperado. As ações da BRF fecharam em forte queda de -4,8 por cento em 28 de fevereiro, acumulando um tombo de -31,8 por cento nos 12 meses anteriores.

O ano de 2018 foi marcado pelo envolvimento da BRF no escândalo de corrupção ‘carne fraca’ e pelo prejuízo líquido recorde reportado pela companhia de 4,5 bilhões de reais.

O primeiro trimestre de 2019, divulgado em 10 de maio, continuou bem negativo com um prejuízo líquido de 1 bilhão de reais. O nível de endividamento da companhia, medido pela relação dívida líquida/EBITDA, atingiu 5,64x em março de 2019, mesmo com a venda de ativos na Argentina, Europa e Tailândia.

Uma combinação muito desfavorável de fatores derrubou a margem bruta da companhia para o menor nível dos últimos anos: 15 por cento em 2018 (19 por cento em 2017). Pela primeira vez em muitos anos, o resultado operacional (EBIT) foi negativo em 441 milhões de reais em 2018.

Essa queda na margem em 2018 é explicada por três fatores: i) alta do preço do milho de cerca de 30 por cento (o grão é responsável por cerca de um terço do custo de produção da BRF; ii) pressão do preço de frango no mercado local (alta de apenas +3 por cento) e também no mercado internacional e; iii) cotação do dólar mais baixa no primeiro semestre de 2018 (média de R$ 3,40 por dólar), com margem operacional (EBIT) de apenas 7,6 por cento no segmento internacional.

Isso sem contar a greve dos caminhoneiros que tornou ainda mais difícil a vida da BRF no mercado doméstico em 2018.

Bateu o desespero: fusão com a Marfrig

No final de maio de 2019, o mercado foi pego de surpresa: anúncio da união da empresa líder na produção de carne suína e de frango (BRF com uma empresa focada em carne bovina (Marfrig (SA:MRFG3)).

A minha impressão na época era: “parece que são duas empresas endividadas e um pouco desesperadas fazendo qualquer coisa para tentar melhorar a situação das suas empresas que não estavam conseguindo resolver sozinhas”.

O negócio não foi para a frente e as negociações entre as duas empresas foi encerrada em julho de 2019.

A virada veio da China: peste suína

A epidemia de peste suína africana mudou completamente o panorama do mercado de proteína animal a partir de abril de 2019. A doença trouxe uma potencial redução de cerca de 30 por cento no rebanho chinês, o que ocasionará um corte na produção de carne suína na China em 2019 e 2020 estimada entre 25 a 35 por cento.

A China é responsável por 50 por cento do consumo de carne de porco no mundo e a carne de porco é responsável por 42 por cento do consumo de proteína animal no mundo.

A epidemia de peste suína começou em setembro de 2018 e rapidamente se alastrou por diversas províncias chinesas.

A pandemia fez mudar completamente o setor mundial de proteína animal, o que beneficiou a BRF: i) a China passou a importar mais carne de frango e de porco do Brasil para substituir a queda na produção doméstica de carne de porco chinesa e com isso houve aumento no preço internacional de frango e porco e ii) a China reduziu o seu volume de importação de milho utilizado na sua produção de carne de porco, o que ocasionou queda no preço do milho no mercado mundial.

Preço do milho

Os preços dos contratos futuros de milho na Bolsa de Chicago nos EUA acumularam queda superior a -10 por cento em agosto, com queda acumulada superior a 3 por cento em 2019. Essa queda no preço do milho foi impulsionada pela redução nas importações chinesas e pelas perspectivas de maior produção nos EUA.

Mesmo com a alta do dólar, o preço do milho negociado no Brasil (Mato Grosso) teve queda de -9 por cento em agosto, sendo vendido por 19,63 reais a saca (abaixo do preço dos 22 reais negociados em julho).

Alinhamento de astros para a BRF

Essas notícias são como música para os ouvidos da BRF: aumento de preço do seu principal produto de exportação (frango in natura), queda de preço do seu principal insumo de produção e alta recente do dólar (valorização de +10 por cento em agosto).

O Brasil representa 15 por cento da produção mundial de frango e a BRF responde por 4 por cento da produção global de proteína de frango.

Resultado do segundo trimestre de 2019

A margem operacional já apresentou melhora no segundo trimestre de 2019 para 8,4% por cento versus um resultado negativo em 9,4 por cento no segundo trimestre de 2018 devido ao aumento de preços no mercado doméstico.

Esse aumento de preços (30 por cento para a carne de frango e de 35 por cento para a carne de porco) foi possível devido à redução de oferta na indústria e diminuição dos estoques.

Alavancagem financeira

A BRF conseguiu reduzir o seu nível de endividamento: relação dívida líquida/EBITDA saiu de 5,64x em março de 2019 para 3,74x em junho de 2019.

A empresa tem uma previsão (guidance) de endividamento medido pela relação dívida líquida/EBITDA de 3,15x em dez/19 e de 2,65x em dez/20.

Desempenho das ações da BRF em 2019

Com essa virada no panorama de mercado, as ações da BRF começaram a reagir a partir de abril: valorização de +73,5 por cento em 2019, com alta de +29 por cento desde o final de junho de 2019.

BRF ainda precisa arrumar a casa

O panorama de mercado está muito mais favorável para as empresas brasileiras produtoras de proteína animal como é o caso da BRF e da JBS (SA:JBSS3), dona da marca Seara, bem como as produtoras de carne bovina Minerva (SA:BEEF3) e Marfrig.

Segundo o CEO da BRF: “O crescimento do consumo de proteína existe e poderá ser na casa de 5 a 6 por cento ao ano, incluindo o consumo interno e as exportações”.

A minha conclusão é a seguinte: apesar do momento mais favorável que caiu no colo da BRF, a empresa ainda precisa arrumar a casa e reduzir o seu nível de endividamento. Portanto, acredito que a relação entre risco e retorno do investimento da BRF não esteja favorável no momento.

Oportunidade

Com a redução da produção de carne de porco na China, existe uma grande oportunidade de crescimento do consumo de carne bovina entre a população, com aumento da exportação de carne brasileira.

Por último, acredito que a Minerva, produtora de carne bovina, esteja em condição mais favorável para aproveitar esse efeito da gripe suína africana, com aumento imediato da exportação de carne bovina para a China, melhor governança corporativa do que JBS e Marfrig e menor nível de endividamento (dívida líquida/EBITDA de 3,8x em junho de 2019).

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